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Seca, calor e perda de lavouras preocupam comunidades do oeste do Pará antes da chegada do El Niño

Seca preocupa comunidades ribeirinhas na Amazônia

G1 — Brasil · 2026-08-28T20:54:41.000Z

Seca preocupa comunidades ribeirinhas na Amazônia

A seca de rios e igarapés, o calor intenso e a perda de plantações já fazem parte da realidade de comunidades da região de Santarém, no oeste do Pará. Com a previsão de uma nova estiagem associada ao El Niño em 2026, representantes de movimentos sociais, povos indígenas e comunidades ribeirinhas se reuniram nesta sexta-feira (28) com a Secretaria-Geral da Presidência da República para discutir medidas de preparação e resposta aos possíveis impactos do fenômeno.

Entre os principais temores está o comprometimento da produção de alimentos. A presidenta do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) de Santarém, Maria Ivete Bastos dos Santos, relatou que agricultores já enfrentam perdas nas plantações e redução da disponibilidade de água.

“A preocupação já é muito grande, porque os fenômenos já estão acontecendo, de muito calor, perda da nossa plantação, da nossa produção, mais adoecimento nas pessoas, um desequilíbrio ambiental muito grande”, afirmou Maria Ivete.

Segundo ela, a produção de mandioca, um dos principais alimentos das comunidades rurais, já apresenta sinais de escassez. A redução da produção também ameaça a disponibilidade de manivas, utilizadas para novos plantios.

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“Com isso nos ameaça a nossa soberania e a nossa segurança alimentar”, destacou.

A preocupação não se limita à agricultura. Para a pesquisadora em hidrologia do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Adriana Cuartas, o El Niño costuma provocar redução das chuvas na Região Norte, acompanhada de temperaturas mais elevadas.

Esse cenário pode afetar o abastecimento de água, a agricultura e aumentar o risco de incêndios florestais. A redução do nível dos rios também pode prejudicar a navegabilidade, embora a pesquisadora ressalte que ainda não é possível prever com precisão qual será a intensidade desses impactos.

“O quanto e com qual intensidade que ainda a gente não sabe”, explicou Adriana.

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Comunidades pedem preparação antes da seca

Para quem vive diretamente nos territórios afetados, a necessidade de preparação não é apenas uma possibilidade futura. Lucas Tupinambá, membro do Conselho Indígena Tapajós Arapiuns (CITA), afirma que os efeitos das mudanças climáticas já são percebidos diariamente nas comunidades indígenas e ribeirinhas.

Entre os problemas citados estão o aumento da temperatura da água, queimadas e a redução dos níveis de rios, igarapés e lagos.

“Isso impacta diretamente também a cadeia alimentar, a soberania alimentar do nosso povo”, disse Lucas.

Ele defende que as comunidades diretamente afetadas sejam ouvidas na construção das medidas de enfrentamento.

“É importante esse diálogo aqui do Governo Federal para que a gente possa juntos construir uma forma de luta para defender e combater esse El Niño agora de 2026”, afirmou.

Governo anuncia medidas de preparação

A reunião foi organizada pela Secretaria-Geral da Presidência da República (SGPR) para apresentar a representantes da sociedade civil as políticas públicas federais de preparação e resposta aos possíveis efeitos do El Niño.

De acordo com Kelly Mafort, secretária nacional de Diálogos Sociais da Secretaria-Geral da Presidência, a previsão para a Região Amazônica é de intensificação dos episódios de seca. Ela afirmou que o Governo Federal mantém uma Sala de Situação com órgãos responsáveis pelo monitoramento do fenômeno e pela resposta às emergências.

“A resposta depende de uma articulação com o governo do estado, com os governos municipais e também com a sociedade civil. Por isso que nós estamos realizando este encontro”, explicou Kelly.

Entre as medidas preparatórias estão ações de infraestrutura, informação e orientação às comunidades. A secretária também destacou a importância de os municípios acompanharem os sinais de agravamento da situação e, em caso de emergência ou calamidade, adotarem os procedimentos necessários para solicitar apoio federal.

Segundo Kelly, o Governo Federal já obteve autorização para um crédito extraordinário de R$ 1,3 bilhão destinado às ações relacionadas à situação. Ela afirmou ainda que novos recursos poderão ser solicitados caso sejam necessários.

Vale ressaltar que já houve um decreto ainda esse mês, na segunda-feira (24) de alerta climático e ambiental em todo território estadual. Estabelecida por decreto, a medida tem caráter preventivo e foi adotada com base nas projeções meteorológicas para 2026 e 2027, que apontam forte influência do fenômeno na região amazônica.

Participação das comunidades

O encontro reuniu representantes de diferentes órgãos federais, entre eles Cemaden, Ministério do Meio Ambiente, ICMBio, Ibama, Ministério do Desenvolvimento Social, Ministério do Desenvolvimento Agrário, Ministério dos Povos Indígenas, Funai, Ministério da Igualdade Racial, Ministério da Pesca e Ministério da Saúde.

A proposta, segundo a Secretaria-Geral da Presidência, é aproximar essas estruturas das organizações que atuam diretamente nos territórios.

Entre as possibilidades discutidas estão ações de assistência em situações de emergência, apoio a abrigos, cozinhas solidárias e auxílio no acesso a cadastros necessários para o recebimento de benefícios.

Para os representantes das comunidades, porém, uma das principais demandas é que as medidas sejam tomadas antes que os impactos se agravem.

Maria Ivete defende, por exemplo, ações para garantir água potável não apenas para o consumo das famílias, mas também para manter a produção agrícola.

“Nós queremos é essas políticas que levem água para as nossas torneiras, para as nossas casas e para as nossas plantações”, afirmou.

A preparação ocorre diante da possibilidade de novos períodos de seca e calor intenso na Amazônia. Enquanto os órgãos de monitoramento acompanham a evolução do fenômeno, comunidades da região já relatam impactos sobre a água, a produção de alimentos e a rotina dos territórios.

Colaboração Evelen Munhoz/Estagiária

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