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Advogados acusados de ficar com dinheiro de ações ganhas têm OAB suspensa e são impedidos de exercer profissão

Suspensões são informadas no site da OAB

G1 — Campinas e Região · 2026-08-28T21:36:49.000Z

Suspensões são informadas no site da OAB

Os advogados José Antonio Cremasco e Thais Proença Cremasco tiveram os seus registros na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) suspensos e estão impedidos de exercer a profissão por supostamente terem deixado de repassar valores de ações judiciais ganhas a clientes.

As suspensões foram determinadas pela 17ª Turma do Tribunal de Ética e Disciplina e divulgadas nesta quinta-feira (27). A medida preventiva tem prazo de 90 dias. O caso tem sido investigado pela própria OAB, por meio de procedimento interno, e pela Polícia Civil.

Em julho de 2026, o g1 noticiou que os advogados foram condenados a pagar R$ 239,5 mil a um cliente que não recebeu o valor ganho em uma ação trabalhista de 2014. Cabe recurso da decisão.

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Thais e José Antonio Cremasco

Na Polícia Civil, há pelo menos nove inquéritos de mesmo teor. Um deles, em 2025, foi instaurado após denúncia encaminhada pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP).

Em nota, José Antonio disse que tem "absoluto respeito pela OAB e pelas instituições" e afirmou que a decisão "será tratada pelos meios jurídicos adequados, nos quais serão apresentados todos os esclarecimentos e fundamentos pertinentes".

"Neste momento, por cautela e respeito ao próprio procedimento, prefiro não discutir publicamente aspectos específicos do processo. Ao longo de mais de quatro décadas de advocacia, sempre pautei minha atuação pelo respeito aos clientes, à Justiça e às instituições, e seguirei exercendo plenamente meu direito de defesa", completou.

Já Thaís foi procurada pela EPTV, emissora afiliada da TV Globo, mas não respondeu até a última atualização desta reportagem.

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De acordo com a decisão do juiz Felipe Guinsani, da 7ª Vara Cível de Campinas, um homem contratou o escritório Cremasco para defendê-lo em uma ação trabalhista que tramitou na 10ª Vara do Trabalho de Campinas.

O trabalhador venceu o processo, no valor de R$ 319.402,58. Pelo contrato, 25% ficariam com o escritório a título de honorários advocatícios, enquanto R$ 239.551,93 deveriam ser repassados ao cliente.

Segundo a decisão, o homem descobriu, por meio de um alvará judicial, que o pagamento já havia sido feito a uma conta relacionada ao escritório. Após notificar extrajudicialmente os advogados e não obter resposta, ingressou com ação para receber o valor.

Na sentença, o juiz entendeu que os advogados levantaram os valores da ação trabalhista e deixaram de repassá-los ao cliente, retendo quantia superior à prevista no contrato.

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A EPTV conversou com outras duas supostas vítimas da situação. O ambulante Felipe Costa Araújo sofreu um acidente na empresa de pintura onde trabalhava, foi demitido e moveu uma ação trabalhista.

Ele ganhou o processo em 2018, mas passou a desconfiar que a parte a que tinha direito do valor recebido pelo escritório Cremasco não foi repassada.

"Comecei a ligar para eles e querer o dinheiro e eles só me enrolando, me enrolando, me enrolando. E aí eu cansei e coloquei outro advogado para ver o que estava acontecendo. Quando fui ver, eles já tinham recebido o dinheiro", contou Felipe.

Felipe contou ter sido uma das vítimas após vencer processo trabalhista

Já Edson Vidotti, moveu um processo trabalhista contra a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) em 2021 e ganhou. A empresa fez os pagamentos em seis parcelas, uma delas superior a R$ 200 mil, mas o escritório não fez o repasse.

"Eu ia lá e eles falavam: 'não caiu mais, não caiu dinheiro'. Várias vezes. Não atendia a gente corretamente", relatou.

De acordo com os advogado Danilo Andrietta, que defende Edson, o escritório Cremasco transferiu apenas R$ 55 mil, retendo em torno de R$ 370 mil, que seria de direito dele após o desconto dos honorários.

"A justificativa deles é que eles estavam com problemas operacionais e dificuldades de identificar qual recurso era de qual cliente e que, por conta disso, eles não haviam conseguido fazer a transferência. Uma justificativa que não fazia o menor sentido", disse Danilo.

A defesa de Edson ajuizou uma ação para reaver os valores. A Justiça condenou o escritório Cremasco a pagar R$ 346.346,87, sendo que esta decisão transitou em julgado (quando não há possibilidade de recurso) em 17 de dezembro de 2024.

O que diz Thais sobre as supostas apropriações

Thais Proença Cremasco

Ela nega ter se apropriado dos valores e afirma que, no caso da condenação e em outros semelhantes, o dinheiro não foi depositado em sua conta, dizendo que soube do problema por meio dos próprios clientes.

Sustenta que os contratos eram com o escritório do pai, José Antonio Cremasco, e que ela não trabalha mais no escritório desde 2024, após romper relações em razão das reclamações de clientes.

Afirma que José Antonio era quem determinava a conta para onde os valores dos processos deveriam ser enviados. Segundo ela, os advogados da equipe transferiam os recursos para a conta indicada por ele, e cabia exclusivamente ao pai fazer o repasse aos clientes.

Diz que, quando os clientes reclamavam da falta de pagamento, ela levava os questionamentos ao pai, que respondia que "o processo é meu, o cliente é meu, passe o cliente para mim que eu vou resolver".

Declara que nunca imaginou que o pai pudesse estar se apropriando do dinheiro dos clientes, afirmando: "Jamais eu, enquanto advogada, enquanto filha, imaginei que ele poderia estar se apropriando de dinheiro de clientes."

Afirma que, antes do rompimento da relação em 2024, José Antonio teria assinado um documento reconhecendo a responsabilidade pelas dívidas com os clientes.

Diz que, embora seja "muito difícil reconhecer isso como filha", considera "muito nítido" que José Antonio cometeu apropriação indébita.

Também afirma que a relação de confiança com o pai fez com que ela assinasse documentos em branco e emprestasse seu nome, acreditando que ele nunca cometeria esse tipo de conduta. Segundo suas palavras, essa confiança a levou a acreditar que ele "jamais seria capaz de cometer todas essas atrocidades".

Por fim, informa que se colocou à disposição para ajudar as supostas vítimas, propondo pedir a penhora de honorários advocatícios de futuros processos do escritório para ressarcir os clientes.

O que diz José Antonio sobre as supostas apropriações

Imagem de arquivo de José Antonio Cremasco

Ele atribui a responsabilidade pelas supostas apropriações à filha, Thais Proença Cremasco, afirmando que, entre 2022 e 2024, ela "detinha total gerência tanto da conta corrente de minha conta empresarial como de sua própria".

Diz que, mesmo sem ter a gestão financeira do escritório nesse período, vem encaminhando e pagando processos de clientes, inclusive em situações em que os valores não foram depositados em sua conta empresarial nem ficaram à sua disposição.

Afirma que Thais não tem mais vínculo com a Advocacia Cremasco desde novembro de 2024 e que há um processo judicial de prestação de contas referente ao período em que ela teria administrado as finanças.

Sustenta que não há notícia de clientes que deixaram de receber valores em processos anteriores a 2022 ou posteriores ao ano de 2025, restringindo os problemas ao período em que atribui a gestão financeira à filha.

Informa que, em agosto de 2025, contratou um profissional especializado em administração de escritórios, sem relação pessoal com ele, para organizar financeiramente os recebimentos e evitar novos problemas.

Afirma que o Poder Judiciário continua emitindo alvarás de levantamento em nome de Thais, embora, segundo ele, a procuração especial para recebimento tenha sido revogada quando ela deixou o escritório, em novembro de 2024.

Por fim, reconhece a responsabilidade pelo nome do escritório e diz que está à disposição de todos os clientes.

Diz que está pagando os clientes em atraso à medida que recebe novos valores.

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