ITATIBA1
A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) realizou na última segunda-feira (24) a primeira defesa póstuma de um trabalho de doutorado no qual aluna e orientadora morreram antes da banca. A tese, intitulada "Compostagem como prática…
G1 — Campinas e Região · 2026-08-30T09:00:26.000Z
A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) realizou na última segunda-feira (24) a primeira defesa póstuma de um trabalho de doutorado no qual aluna e orientadora morreram antes da banca. A tese, intitulada "Compostagem como prática performativa: processos imersivos em dança e permacultura", foi desenvolvida pela pesquisadora Carla Vendramin e pela professora Silvia Geraldi.
Vendramin morreu em janeiro de 2024, em Porto Alegre (RS), aos 51 anos. Já Geraldi faleceu em julho de 2025, em Campinas (SP), aos 61 anos — leia mais sobre elas abaixo.
A defesa reuniu professoras, amigos e familiares na Casa do Lago, do Instituto de Artes (IA) da Unicamp.
✅ Participe do canal do g1 Campinas no WhatsApp
Banca reuniu amigos, familiares e professoras na Unicamp
Foram realizadas performances de dança, pausa de convívio e leitura de trechos do trabalho entre movimentos, flores, bambus e narizes vermelhos, em uma referência à palhaça “Malagueta”, personagem que acompanhou Vendramin durante parte de sua trajetória artística.
"Acho que o mais importante é honrar essas pessoas que realizaram essa pesquisa. A pesquisa por si só, ela desafia os nossos hábitos de estar no mundo hoje", comentou a professora Marisa Martins Lambert, que assumiu a continuidade do processo.
O estudo investigou como atividades ligadas à natureza, como a agrofloresta e o cultivo com bambu, podem se unir à dança e a outras práticas corporais para ajudar as pessoas a desenvolver uma relação de pertencimento e de consciência com o meio ambiente.
A ideia foi usar a arte e a experiência do corpo como ferramentas para refletir sobre hábitos de vida mais sustentáveis e sobre a responsabilidade de cada um na preservação da biodiversidade.
"Foi gerado um material muito, muito potente, trabalhado com muito rigor e que interseccionou muitas áreas de conhecimento. (...) A gente vê, muitas vezes, as artes ainda desvalorizadas dentro do contexto da academia, mas nós temos pesquisadores que estão lidando com questões importantíssimas para uma vida coletiva mais saudável", ponderou Lambert.
Processo acadêmico inédito
Banca foi resultado de procedimento inédito na Unicamp
A morte de Vendramin aconteceu pouco depois de ela ter depositado a sua tese de doutorado, que é quando o material é distribuído para os membros da banca avaliadora.
A partir daí, Geraldi desejou que o trabalho pudesse ser publicado e disponibilizado no repositório da Unicamp. Esse procedimento é possível e é conduzido pelo orientador.
Porém, com a morte da orientadora, o trabalho foi retido até a criação de um novo procedimento interno, de acordo com a coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena, Larissa de Oliveira Neves.
"Não existia na Unicamp uma institucionalização de uma situação como essa, que representa também a criação de uma possibilidade que poderá orientar situações futuras", explicou em entrevista ao jornal da universidade.
Lambert foi responsável por conduzir as etapas finais até a defesa, após um pedido de Neves, que levou em consideração a amizade que a professora tinha com Geraldi.
Ao g1, entretanto, Lambert falou que o mérito maior foi de Geraldi, que quis lutar pela publicação da tese de Vendramin.
"Eu completei com muita afetuosidade esse processo, com muito interesse e pela minha relação específica com ela e em nome do programa também de pós-graduação", contou.
Uma banca diferente
Banca teve modelo diferente das defesas convencionais
A defesa foi construída de maneira diferente de uma banca convencional, com professoras e pesquisadoras convidadas a contribuir com reflexões sobre o trabalho de Vendramin.
A apresentação começou com uma performance que aproximou dança, práticas somáticas, permacultura, agrofloresta e questões socioambientais. A compostagem aparece na pesquisa não apenas como uma prática relacionada à terra, mas como possibilidade de pensar transformação, corpo, ambiente e vida.
No intervalo da defesa, do lado de fora da Casa do Lago, amigos da doutoranda leram trechos da tese entre movimentos, flores, bambus e narizes vermelhos, em uma referência à palhaça “Malagueta”, personagem que acompanhou Vendramin durante parte de sua trajetória artística.
"Todo esse roteiro foi cuidado por muitas pessoas. Tiveram muitos amigos e professores que também estiveram, fizemos reuniões para a gente pensar como seria a maneira mais bacana de estar apresentando esse trabalho", disse Lambert.
"Foi uma defesa que teve quase 30 pessoas online, quase 30 pessoas presenciais, então teve um coletivo muito grande que estava ali para homenagear essas pesquisadoras, então acho que isso é marcante", completou.
Segundo a Unicamp, a mãe da doutoranda, Leoni Lima, veio do Rio Grande do Sul para acompanhar a defesa e lembrou que a filha começou a dançar aos seis anos. "Tudo que ela fazia, ela se jogava inteiramente."
Banca contou com performances de dança relacionadas ao meio ambiente
O estudo investigou como atividades ligadas à natureza, como a agrofloresta e o cultivo com bambu, podem se unir à dança e a outras práticas corporais para ajudar as pessoas a desenvolver uma relação de pertencimento e consciência com o meio ambiente.
A ideia foi usar a arte e a experiência do corpo como ferramentas para refletir sobre hábitos de vida mais sustentáveis e sobre a responsabilidade de cada um na preservação da biodiversidade.
O estudo culminou ainda na criação cênica intitulada Cidade Bambu, desenvolvida dentro do Curso de Licenciatura em Dança da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e apresentada a convite da Pró-Reitoria de Extensão.
"É um trabalho que vai abordar a vida cotidiana e os nossos hábitos permaculturantes da vida cotidiana, trazendo um pouco essa mistura do corpo com o ambiente. Esse é um conceito importante, muito no sentido de não haver uma hierarquia", disse Lambert.
"De fato, ela [Vendramin] fala, nós somos terra, né? Então, você se aproxima do ambiente para você valorizar a árvore, a terra, as sementes, a pedra, e é estar junto ali, sendo aquilo", finalizou.
De acordo com a Unicamp,durante a banca, a professora Ana Terra, do Curso de Dança e do Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena, apontou a dimensão prospectiva do trabalho de doutorado.
Ao falar sobre Vendramin, buscou uma palavra que fosse além de "visionária" e encontrou "futurante". "Alguém que não apenas imagina possibilidades de futuro, mas cria condições para que outros modos de existência possam acontecer", afirmou.
Cumprida a etapa de defesa e com a aprovação, a Unicamp informou que a pesquisa será disponibilizada no repositório institucional da universidade e tem perspectiva de publicação.
Quem são as pesquisadoras
Carla Vendramin (à esquerda) e Silvia Geraldi (à direita): responsáveis pela pesquisa
Redes sociais/Marisa Lambert
Vendramin morreu em 16 de janeiro de 2024, em decorrência de um incêndio em sua casa, em Porto Alegre (RS).
A professora fez mestrado em coreografia na Middlesex University, de Londres, e construiu uma trajetória dedicada à dança e à educação. Atuou como professora efetiva no curso de licenciatura em Dança da UFRGS e no curso de Dança da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).
Além disso, atuou na companhia de dança Candoco, na Inglaterra, e conquistou 13 prêmios entre 1995 e 2018. Também foi duas vezes vencedora do Prêmio Açorianos, concedido pela Prefeitura de Porto Alegre (RS) para os melhores do ano nas áreas de música, teatro, dança, literatura e artes plásticas.
Por sua vez, Geraldi faleceu em 6 de julho de 2025. Era professora do curso de bacharelado e licenciatura em Dança e do programa de pós-graduação em Artes da Cena da Unicamp.
Ela dançou com diversos artistas da cena contemporânea nos anos 1990 e integrou a Cia. de Danças de Diadema. Recebeu a Bolsa Vitae de Artes em 2002 e muitos outros prêmios pela montagem e circulação de suas obras.
VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região
Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas