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Padre de Cuiabá usa filmes, músicas e super-heróis para aproximar jovens da fé católica.
G1 — Brasil · 2026-08-30T17:34:17.000Z
Padre de Cuiabá usa filmes, músicas e super-heróis para aproximar jovens da fé católica.
O padre Renan da Silva Cunha, de 35 anos, encontrou em personagens de filmes, músicas e super-heróis uma forma de se aproximar de adolescentes e jovens católicos em Cuiabá. Em homilias, encontros e vídeos nas redes sociais, ele usa referências como “O Rei Leão” e Taylor Swift para falar sobre fé, relacionamentos e valores cristãos.
Ao g1, o padre contou que a estratégia começou em 2024, quando foi convidado para ser diretor espiritual de um acampamento para adolescentes. Até então, ele estava mais acostumado a conversar com o público adulto e idoso por causa do trabalho que desenvolvia na rádio da Arquidiocese de Cuiabá.
“Eu não sabia como que eu ia falar para esses adolescentes. Eu estava no início do ministério, falando na rádio, era um outro estilo de comunicação. Eu falava que eu era o padre das vovós”, contou.
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'Lembre-se de quem você é'
Apesar do medo inicial, a primeira grande conexão com os adolescentes aconteceu durante o acampamento. Antes de uma das homilias, os jovens cantaram uma paródia de uma música de “O Rei Leão”. A lembrança do filme fez Renan perceber que poderia usar a história de Simba para falar sobre fé.
Ele relacionou a trajetória do personagem a temas como pecado, identidade e vocação. A partir da frase “lembre-se de quem você é”, o padre explicou aos jovens que eles são filhos de Deus e têm uma missão.
“Quando eu fiz essa homilia, eu não imaginava o que ia gerar. Mas causou um impacto naqueles adolescentes. Eles vieram depois falar: ‘Padre do céu, nossa, padre, que homilia’. E aí eu falei: ‘Meu Deus, então achei o caminho, é por aí’”, contou.
A experiência fez Renan incorporar mais referências da cultura pop aos encontros com os jovens. Fã de filmes da Disney e de histórias de super-heróis desde a infância, ele passou a usar essas narrativas como ponto de partida para falar sobre temas religiosos.
Cultura pop para aprofundar a fé
Para Renan, filmes, músicas e personagens conhecidos ajudam a criar identificação e tornam assuntos religiosos mais próximos da realidade desse público.
Para Renan, filmes, músicas e personagens conhecidos ajudam a criar identificação e tornam assuntos religiosos mais próximos da realidade desse público. Uma das experiências que mais chamou a atenção aconteceu quando Renan usou a música “Love Story”, da cantora Taylor Swift, para falar sobre namoro e relacionamentos tóxicos. A referência chamou a atenção das meninas e ajudou a criar uma identificação imediata com o tema.
“Eu falei que ela se trancava no quarto para ficar chorando pelo namorado, escutando Taylor Swift. Aí elas ficaram com os olhos brilhando, porque eu sabia cantar o refrão da música”. Elas sentiam que eu conseguia entender o que elas estavam dizendo, contou.
Outra experiência de aproximação com o público jovem foi a decisão de levar um cachorro para um acampamento. No início, a ideia causou desconfiança entre os participantes, que imaginavam que o animal poderia atrapalhar o retiro. Segundo o padre, porém, aconteceu justamente o contrário.
“Eu acho que o cachorro foi o que deu menos trabalho, encantou todo mundo, foi um sucesso. Animou, encantou os adolescentes e ajudou os adolescentes a abrirem o coração para a graça de Deus”, contou.
A partir dessas experiências, o trabalho com os adolescentes ganhou força. O grupo de jovens da Paróquia São José Operário passou a se reunir semanalmente, com encontros voltados à fé e à vida espiritual.
Renan também criou um clube, que promove formações mais aprofundadas, com leituras e discussões sobre temas religiosos. Atualmente, uma das iniciativas aborda a chamada cura interior e trata de dificuldades pessoais e da importância de buscar ajuda psicológica e psiquiátrica quando necessário.
Para o padre, as referências da cultura pop não substituem a mensagem religiosa, mas funcionam como uma ponte para chegar aos jovens. Filmes, músicas e personagens conhecidos são usados para abordar temas como fé, relacionamentos, valores e vida espiritual.
'Padre das vovós'
Renan nasceu em Assis Chateaubriand, no interior do Paraná, e vive em Cuiabá desde 2014. Formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina, foi ordenado sacerdote em 2021 e integra o clero da Arquidiocese de Cuiabá.
Atualmente, é vigário da Paróquia São José Operário. No início do sacerdócio, também trabalhou na área de comunicação da Arquidiocese, onde foi diretor da Rádio Bom Jesus e assessor da Pastoral da Comunicação. Ele deixou essas funções no fim de 2025.
Foi por meio da rádio que Renan criou uma relação próxima com o público mais velho, principalmente com os ouvintes que acompanhavam a programação diariamente. Pelo carinho construído nesse período, passou a se chamar, de forma bem-humorada, de “padre das vovós”.
A mudança de público e de linguagem, no entanto, também rende situações curiosas. Renan conta que uma das ouvintes chegou a reclamar depois de vê-lo vestido de Homem-Aranha em uma atividade com os jovens.
Apesar da reação, o padre diz que costuma explicar a proposta. Segundo ele, de modo geral, o trabalho tem sido bem recebido, inclusive pelos pais dos adolescentes, que passaram a procurá-lo para pedir ajuda sobre como conversar com os filhos e lidar com dificuldades enfrentadas por eles.
A estratégia também chegou às redes sociais. Renan passou a publicar vídeos usando personagens e referências conhecidas pelos jovens para divulgar encontros e falar sobre fé.
Além dos vídeos
Apesar do tom descontraído, Renan afirma que a vida sacerdotal também é marcada por dificuldades e momentos de desgaste.
Apesar do tom descontraído, Renan afirma que a vida sacerdotal também é marcada por dificuldades e momentos de desgaste. Ele conta que passou por um período de esgotamento no fim de 2025, em meio ao excesso de atividades e a problemas familiares.
“Eu sou ser humano, né? Com excesso de atividades e alguns problemas familiares graves. Perdi minha avó e, há pouco tempo, também tinha perdido minha tia. Vivi um período de esgotamento mesmo”, relatou.
Segundo ele, o período fez com que buscasse acompanhamento profissional. Apesar das dificuldades, Renan afirma que encontra sentido no trabalho ao acompanhar a transformação e a felicidade dos jovens e dos paroquianos.
“Com todas essas cruzes, esse serviço, abraçando essa cruz, tem me feito muito feliz. Muito feliz. E me faz mais feliz ainda ver a felicidade dessas almas, desses jovens, dos meus paroquianos, das vovós”, afirmou.
Uma das situações que mais o marcou aconteceu quando uma paroquiana disse que gostava de participar das missas porque ele conseguia fazê-la sorrir.
“Padre, nós gostamos da sua homilia, nós gostamos de ir na missa do senhor porque o senhor nos faz sorrir”, contou.
Para Renan, a frase resume parte do propósito do trabalho: aproximar as pessoas da fé também por meio da alegria e de uma linguagem com a qual elas consigam se identificar.