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Advogada boliviana é alvejada na porta de hotel, e ex-assessor de Milei é suspeito
G1 — Brasil · 2026-08-31T19:22:50.000Z
Advogada boliviana é alvejada na porta de hotel, e ex-assessor de Milei é suspeito
A cena lembra um tipo de crime que a polícia boliviana tem enfrentado com frequência crescente. Em 17 de agosto, câmeras de segurança do hotel Swissotel, em Santa Cruz de la Sierra, registraram dois homens de capacete, vestidos como entregadores de aplicativo, aproximando-se de uma jovem que parecia esperar alguém.
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Um deles sacou uma arma e disparou três vezes, atingindo-a no peito, no braço e no lado direito do corpo. Os dois homens fugiram logo após os disparos. A vítima, a advogada boliviana Nadia Beller, de 33 anos, passou por uma cirurgia de emergência e sobreviveu.
No dia seguinte, no aeroporto de Santa Cruz, a polícia prendeu o ex-companheiro dela, quando ele estava prestes a embarcar para Buenos Aires. O argentino Fernando Cerimedo, de 45 anos, é suspeito de ter ordenado o atentado contra Nadia Beller.
Ele não é um desconhecido das autoridades. Estrategista digital especializado em campanhas de extrema direita na América Latina, assessorou Jair Bolsonaro, Javier Milei e, até ser preso, o presidente boliviano Rodrigo Paz.
Um taxista que virou magnata
O argentino Fernando Cerimedo, que chegou a ser indiciado pela PF pela trama golpista no Brasil, durante entrevista coletiva do então candidato à presidência de Honduras, Nasry Asfura
A trajetória que Cerimedo costuma narrar lembra um sonho americano. Segundo a própria versão, ele deixou Mar del Plata aos 19 anos com uma bolsa para estudar em Harvard e se tornar triatleta.
Como não dominava o inglês, teria seguido para Porto Rico, onde afirma ter obtido um diploma em marketing antes de passar por treinamento com os Navy SEALs, a unidade de elite da Marinha dos Estados Unidos.
Uma história que começou a ruir em 2024, quando uma investigação do Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP) reconstruiu uma trajetória bastante diferente da apresentada por Cerimedo.
O consórcio de jornalismo investigativo revelou passagens por empregos como taxista em Mar del Plata, funcionário de seguradora, empregado de uma empresa de tecnologia, de uma fábrica de plásticos e, por fim, professor do ensino médio em Buenos Aires.
Em 2016, a Justiça da Argentina o condenou a dois anos e meio de prisão, com pena suspensa, por fraude: ele havia vendido o mesmo apartamento para dois compradores diferentes.
Foi apenas em 2018, enquanto trabalhava para a agência de publicidade McCann, que Cerimedo iniciou as campanhas políticas online. Depois, ganhou notoriedade ao disseminar teorias conspiratórias durante a pandemia de Covid-19, conquistando projeção nos círculos emergentes da direita libertária argentina.
Máquina da desinformação eleitoral
"Brasil foi roubado", diz uma das faixas apreendida em bloqueios ilegais em SC
O método dele foi aperfeiçoado em 2020, durante o referendo constitucional chileno, com a disseminação de desinformação sobre o processo de votação.
Mas foi no Brasil, cinco dias após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, que ele alcançou projeção internacional. Em uma transmissão ao vivo intitulada "Brasil Foi Roubado", exibiu um relatório anônimo que acusava falsamente o sistema eleitoral de fraude.
Em 2023, assumiu a comunicação digital da campanha de Javier Milei. Ele afirma ter sugerido ao candidato libertário o uso simbólico da motosserra em atos de campanha.
Embora nunca tenha ocupado cargo oficial no governo argentino, também teria articulado a entrevista de Milei com Tucker Carlson, comentarista conservador americano próximo de Donald Trump e uma das vozes mais influentes da direita nos Estados Unidos.
A proximidade dele com o universo político de Donald Trump levou a revista The Economist a apelidá-lo de "o homem MAGA da América Latina" em dezembro de 2025.
A queda boliviana
Rodrigo Paz veste a faixa presidencial após tomar posse na Bolívia, em 8 de novembro de 2025
Luis Gandarillas / POOL / AFP
Embora Cerimedo tenha se tornado conselheiro pessoal de Rodrigo Paz após a eleição, no fim de 2025, a trajetória dele sofreu uma interrupção abrupta no aeroporto de Santa Cruz.
Em uma acusação de 24 páginas, os promotores Herlan Rodríguez Cuevas e Yolanda Aguilera o apontam como o "provável mentor e articulador público" por trás da tentativa de feminicídio.
Segundo o documento, ele teria convencido Nadia Beller a ir ao Swissotel valendo-se da relação afetiva entre ambos e do fato de ser apontado pela promotoria como pai do filho que ela esperava, em uma gravidez de quatro semanas.
As buscas realizadas no final de agosto revelaram grandes quantias em espécie, em bolivianos, dólares e euros, distribuídas em pelo menos cinco residências ou imóveis ligados a Cerimedo. Até o momento, o Ministério Público não divulgou um valor consolidado.
Além disso, foi aberta uma investigação por lavagem de dinheiro. Paralelamente, um promotor do departamento amazônico de Beni, no nordeste da Bolívia, examina a possibilidade de Cerimedo ter oferecido proteção a voos clandestinos ligados ao narcotráfico, com base em declarações prestadas por Nadia Beller.
Abandonado por dois presidentes
Para Rodrigo Paz, o assessor de confiança tornou-se um problema político.
Embora em 18 de agosto o porta-voz presidencial José Luis Gálvez ainda o apresentasse como um "colaborador próximo", Paz declarou uma semana depois que nunca manteve com ele um contrato formal nem uma relação de trabalho direta.
O cenário é semelhante na Argentina.
Javier Milei afirma não ter "qualquer ligação" com Cerimedo desde 2023 e denuncia o que chama de um "esquema castrochavista", expressão frequentemente usada por setores da direita latino-americana para associar adversários políticos aos governos de Cuba e da Venezuela.
No entanto, registros oficiais da Casa Rosada mostram que Cerimedo entrou na sede da presidência argentina pelo menos treze vezes entre dezembro de 2023 e junho de 2024.
O presidente da Argentina, Javier Milei, discursa durante a sessão de abertura da 144ª legislatura do Congresso Nacional, no prédio do Congresso Nacional
Atrás do homem, o sistema
O caso boliviano também trouxe à tona uma rede que vai muito além de Cerimedo. A presidente mexicana Claudia Sheinbaum associou os protestos antigovernamentais de novembro de 2025 à atuação de redes internacionais da direita, sem citar Cerimedo nominalmente.
Na Colômbia, o ex-presidente Gustavo Petro também acusa Cerimedo de ter manipulado a eleição que levou Abelardo De la Espriella ao poder, embora nenhuma evidência tenha sido apresentada publicamente.
O jornalista investigativo argentino Hugo Alconada Mon resumiu, antes mesmo do escândalo, aquilo que a queda de Cerimedo parece confirmar.
"Enquanto os partidos tradicionais da região continuam a pensar a política país por país, parte da nova direita construiu algo diferente. Consultores, estrategistas digitais, influenciadores e intermediários atravessam fronteiras e não precisam ocupar cargos públicos para exercer influência política."
O poder de Cerimedo decorria justamente dessa ausência de cargo formal. Mas foi também isso que permitiu que antigos aliados se afastassem dele com rapidez após sua queda.
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