ITATIBA1

Camila Queiroz congelou células do cordão umbilical da filha: entenda como funciona a 'poupança biológica' que promete curar doenças

Para que servem as células do cordão umbilical?

G1 — Brasil · 2026-07-24T05:00:09.000Z

Para que servem as células do cordão umbilical?

Colhidas em minutos na sala de parto e mergulhadas em nitrogênio a 196°C negativos, as células do cordão umbilical são um trunfo real contra leucemias e doenças genéticas. Mas os números contam outra história: das quase 165 mil amostras guardadas em bancos privados no país em duas décadas, 26 foram usadas —e a rede pública, a mais recomendada pelos médicos, está inerte.

Na sala de parto, a coleta dura cerca de quinze minutos e quase ninguém percebe. Nascida a criança, o obstetra pinça o cordão e o separa do bebê, que segue para os primeiros cuidados. Só então entra a equipe de terapia celular —não perto do recém-nascido, mas da placenta, já desligada, levada para uma mesa ao lado.

De uma veia do cordão, o sangue é aspirado para uma bolsa, como numa coleta comum: 80 mililitros de um material que costuma ir direto para o lixo hospitalar. Em seguida, uma tesoura corta cerca de dez centímetros do próprio cordão, guardados à parte. A mãe, muitas vezes, mal registra o movimento.

Coleta de sangue de cordão umbilical é rápida, indolor e custa em torno de R$ 4 mil

O que vem depois parece ficção científica. A bolsa viaja num contêiner de temperatura controlada —nunca passa pela esteira de raio-X do aeroporto porque a radiação danifica as células—, com um sensor lendo cada variação, e precisa chegar ao laboratório em até 48 horas.

Lá, o sangue é lavado, contado célula a célula e recebe um anticongelante que impede a formação de cristais de gelo capazes de romper a membrana por dentro. Uma máquina então resfria o material um grau por minuto, até 120°C negativos, ponto a partir do qual ele pode enfim descer aos tanques de nitrogênio, a 196°C negativos.

Ali, sob pressão positiva e dupla barreira contra bactérias, cada torre guarda cerca de quatro mil amostras. São milhares de vidas em pausa, à espera de um futuro que talvez nunca chegue.

Foi esse caminho que a atriz Camila Queiroz percorreu com a filha, Clara, nascida em dezembro, e relatou aos seguidores no início deste mês, descrevendo o procedimento como simples, seguro e indolor. Tudo verdade.

O g1 apurou que guardar esse material custa, em média, cerca de R$ 4 mil pela coleta e algo em torno de R$ 1 mil por ano de manutenção —e que existem dois caminhos possíveis, quase opostos.

Nos bancos públicos, a mãe doa, e as células deixam de pertencer a ela: vão para quem precisar. Não há custo.

Nos privados, pelo valor descrito acima, ficam reservadas à própria família, mediante pagamento.

Para acompanhar a chegada e o congelamento de uma dessas amostras, o g1 esteve num banco privado em São Paulo, ao lado de Nelson Tatsui, hematologista da equipe de hemoterapia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) e diretor clínico da Criogênesis.

Profissionais armazenando o material em tanques de nitrogênio a -196 graus

O que se guarda e por quê

As células-tronco do sangue de cordão são as fábricas originais do sangue: multiplicam-se e se transformam em glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas. O que as torna valiosas, explica Fernanda Guttilla, ginecologista e especialista em reprodução humana do Hospital Sírio-Libanês, é a juventude.

Colhidas no exato momento em que o feto ainda as produz em ritmo intenso, elas se multiplicam mais e melhor do que as células adultas da medula óssea —e trazem vantagem decisiva: por serem imunologicamente imaturas, toleram alguma incompatibilidade entre doador e receptor sem desencadear a rejeição grave que inviabilizaria um transplante convencional.

O sangue não é a única coisa recolhida. Do tecido do próprio cordão vêm as células mesenquimais, de outra linhagem, associadas à regeneração de tecidos como osso, cartilagem e fígado, e ainda em estudo. É por isso que muitos pais hoje guardam os dois —o sangue, no primeiro ato da coleta; o tecido, no segundo.

Para que servem, de fato

No terreno do comprovado, o sangue de cordão tem um uso principal, e um só: servir de fonte de células para o transplante de medula óssea. As indicações reconhecidas giram em torno de algumas dezenas de doenças do sangue e do sistema de defesa —leucemias, linfomas, síndromes mielodisplásicas, aplasia de medula, anemias hereditárias como a falciforme e a talassemia, imunodeficiências e alguns erros metabólicos raros.

O que o transplante faz, porém, muda conforme a doença.

Nos cânceres do sangue, o paciente passa antes por uma fase de preparo —o condicionamento— que elimina as células tumorais e abre espaço para o novo material; as células do cordão então repovoam a medula e reconstroem a produção de sangue do zero.

Na aplasia de medula, não há tumor a destruir: o que falhou foi a própria fábrica, e as células saudáveis assumem o lugar de uma medula que deixou de produzir.

Nas anemias hereditárias, como a falciforme e a talassemia, a lógica é outra ainda —as células do doador passam a fabricar hemácias com hemoglobina normal, corrigindo a origem do problema.

Em imunodeficiências, dão origem a um sistema de defesa funcional; em certas doenças metabólicas, produzem a enzima que faltava.

O que se repete em todos os casos é o desfecho. Infundidas na veia, como numa transfusão, as células encontram sozinhas o caminho até o interior dos ossos, instalam-se e começam a trabalhar. Os primeiros sinais aparecem entre dez e quinze dias; a recuperação completa da imunidade leva meses.

Sangue de cordão coletado na hora do parto

Um cordão vs. o meu cordão

A promessa implícita na "poupança biológica" é que a criança terá guardado o remédio para as próprias doenças. A biologia raramente coopera: o cordão do próprio paciente traz uma vantagem real, mas ela tende a desaparecer justamente nos casos em que o transplante seria necessário.

A vantagem é a seguinte. Quando as células vêm de um doador, existe o risco da doença do enxerto contra o hospedeiro, explica Fernanda: o material transplantado ataca os órgãos de quem o recebeu, complicação grave dos primeiros cem dias. Com as próprias células, esse risco praticamente desaparece.

Nas leucemias, porém, esse mesmo ataque é parte do tratamento —o novo sistema de defesa reconhece e destrói as células cancerosas que resistiram à quimioterapia, o chamado efeito enxerto contra a leucemia. Usar o próprio cordão abre mão disso e ainda esbarra em outro risco: as células guardadas podem trazer alterações precoces do câncer.

Nas doenças genéticas, o impasse é mais direto. Na anemia falciforme, as células do cordão carregam o mesmo defeito e, usadas como estão, não corrigem nada —o transplante precisa vir de um doador saudável, de preferência um irmão compatível.

Tatsui pondera que a edição genética começa a abrir uma saída, corrigindo em laboratório o trecho defeituoso do DNA antes de devolver as células ao corpo, mas ressalva que é uma ponte em construção: as terapias já aprovadas usam células colhidas do paciente no momento do tratamento, não o cordão estocado ao nascer.

Há ainda o limite mais prosaico: volume. Um cordão rende poucas células, muitas vezes insuficientes para o peso de um adolescente ou de um adulto —obstáculo que a medicina contorna em parte juntando dois cordões num mesmo transplante ou multiplicando as células em laboratório.

Marta Lemos, que coordena o serviço de hemoterapia e terapia celular do A.C.Camargo Cancer Center e faz transplantes com esse material, lembra que, mesmo quando o transplante se impõe, há rotas antes do cordão próprio: um irmão, um dos pais, um doador compatível no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome).

"A chance de utilização é muito pequena, e, para uso próprio, esse investimento não se justifica", diz.

"Guardar não isenta a família de risco: pode ser que aquelas células nunca sejam necessárias, e pode ser que, no dia em que forem, a quantidade não seja suficiente para o tamanho do paciente. Prefiro ver esse esforço direcionado ao banco público, onde o cordão fica disponível para qualquer paciente do SUS que precise dele."

Coleta do cordão umbilical após o parto

A conta que raramente fecha

Os números dão razão à cautela. O 15º relatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), publicado neste ano com dados de 2024, mostra que, desde 2003, os bancos privados brasileiros coletaram 164.789 unidades de sangue de cordão.

Dessas, ao longo de mais de vinte anos, 26 foram efetivamente utilizadas —nove pelo próprio dono, 17 por parentes. Em 2024, entre todos os bancos privados do país, uma única bolsa foi para transplante, entre irmãos, para tratar uma aplasia de medula.

No mesmo ano, 1.428 famílias romperam o contrato e deixaram de pagar a guarda; desde 2015, foram 9.173 rescisões.

Nem todo cordão coletado, aliás, serve: em 2024, 17,3% das unidades recolhidas pela rede privada foram desqualificadas, na maioria por volume ou concentração de células abaixo do mínimo.

Quando tempo dura?

Por quanto tempo esse material permanece válido é a pergunta que as próprias fontes respondem com cautela. Não existe, na literatura médica, um prazo de validade definido: estudos que acompanham amostras reais mostram células viáveis e potentes para transplante depois de 27, 29, quase 30 anos no nitrogênio —a idade da própria tecnologia, que ninguém ultrapassou até agora.

Tatsui observa que há uma pequena perda de viabilidade no primeiro ano, uma espécie de adaptação da célula ao frio extremo, sem prejuízo para o uso posterior; daí em diante, a curva se estabiliza, e a expectativa é que o material se mantenha por décadas, possivelmente por toda a vida de uma pessoa.

O limite real, de todo modo, raramente é o relógio: é a dose.

Um cordão guarda um número fixo de células, e o que bastaria para um bebê pode ser pouco para o mesmo indivíduo já adulto —razão pela qual a validade de uma amostra se mede menos em anos e mais em quantas células vivas ela ainda entrega no dia em que for preciso.

Camila Queiroz coletou o sangue de cordão da filha, Clara

Um sistema público inerte

Hoje, quem deseja doar o sangue do cordão umbilical para uso público não pode simplesmente chegar à maternidade e fazer a doação. Diferentemente dos bancos privados —nos quais a família contrata o serviço, agenda a coleta e guarda o material exclusivamente para uso próprio ou de parentes—, a doação ao SUS depende de maternidades habilitadas pela rede BrasilCord e segue critérios específicos de seleção.

Quando aceita, a bolsa deixa de pertencer à família e passa a integrar um banco público, podendo ser utilizada por qualquer paciente compatível que necessite de um transplante.

O paradoxo é que a via recomendada pelos médicos está encolhendo. A rede pública brasileira, a BrasilCord, coordenada pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), suspendeu as coletas de doação não aparentada em 2020, no início da pandemia de Covid-19, e nunca as retomou.

Dados mais recentes da Anvisa mostram o tamanho dessa retração: em 2024, nenhum dos 15 bancos públicos da BrasilCord coletou uma única bolsa destinada ao uso não aparentado. O relatório registra que toda a atividade de captação para esse fim permaneceu zerada ao longo do ano.

Em janeiro de 2025, o Inca comunicou oficialmente à Anvisa a decisão, tomada em conjunto com a Coordenação-Geral do Sistema Nacional de Transplantes, de não abrir novos bancos nem ampliar o acervo existente —sob a justificativa da queda no uso desse tipo de transplante e do elevado custo de manutenção da rede.

Os dois órgãos passaram também a avaliar o redimensionamento do material já congelado e sua centralização no banco do Rio de Janeiro. Meses depois, em setembro de 2025, uma portaria do Ministério da Saúde que atualizou o regulamento técnico dos transplantes retirou as referências à BrasilCord.

Isso não significa que o SUS tenha deixado de oferecer transplantes com sangue de cordão umbilical. O procedimento continua disponível em centros habilitados. O que praticamente desapareceu foi a principal porta de entrada dessas células: a coleta de novas doações que abasteciam os bancos públicos.

Ministério da Saúde fala em redirecionamento

Procurado pelo g1, o Ministério da Saúde afirma que os bancos públicos seguem em funcionamento e que as bolsas armazenadas continuam disponíveis para transplante sempre que houver indicação médica.

Segundo a pasta, o que mudou não foi o acesso do paciente, mas o cálculo de onde buscar as células: o crescimento do Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome) ampliou a oferta de doadores adultos e reduziu a necessidade de recorrer ao cordão. Em nota, o ministério afirma que em 2023, dos 369 transplantes não aparentados feitos no país, quatro usaram unidades da rede pública de cordão.

Diante desse cenário, informa a pasta, as coletas destinadas a ampliar o acervo não foram retomadas, embora sigam autorizadas as que atendem a uso entre parentes, com indicação médica. A prioridade hoje são os doadores adultos e, quando o cordão é a escolha, unidades com mais células e perfis genéticos raros.

Sobre a portaria de setembro, o ministério sustenta que a retirada do nome BrasilCord reorganizou a regulamentação segundo critérios técnicos, sanitários e assistenciais, sem encerrar a rede nem alterar o direito de acesso dos pacientes.

Abandono ou redirecionamento, o efeito para quem está grávida é o mesmo. A gestante que hoje quisesse doar o cordão do filho a um banco público, para que servisse a qualquer paciente compatível do país, não encontraria onde fazê-lo.

O que ainda pode virar o jogo

Existe um cenário em que a matemática muda, e é nele que Tatsui aposta. As terapias gênicas —que retiram células do paciente, corrigem em laboratório o trecho defeituoso do DNA com ferramentas como o CRISPR e as devolvem ao corpo— já são realidade aprovada para anemia falciforme e beta-talassemia em alguns países.

Hoje, esses tratamentos usam em geral células colhidas do próprio paciente no momento da doença, não o cordão guardado ao nascer. Mas as células do cordão, por serem jovens e vigorosas, seriam matéria-prima ideal para essa engenharia —e é essa ponte, ainda em pesquisa, que faria de uma amostra congelada há décadas um recurso de fato útil contra a mesma doença genética que hoje a contraindica.

Até lá, guardar o cordão é o que os especialistas descrevem como uma aposta, não um seguro. Pode compensar para a família que já tem, em casa, um filho com doença tratável por transplante —a hipótese em que a medicina é unânime.

Para todo o resto, segundo Marta, é pagar, por muitos anos, pela possibilidade remota de precisar, enquanto a ciência corre atrás de tornar esse material tão valioso quanto o anúncio garante que ele já é.

Leia no Itatiba1 →