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O riacho Bright Angel Creek, próximo à Estação de Guarda-Parques Phantom no Grand Canyon, Arizona, é visto após uma enxurrada repentina causada por tempestades, em 29 de agosto de 2026.
G1 — Mundo · 2026-09-01T17:03:34.000Z
O riacho Bright Angel Creek, próximo à Estação de Guarda-Parques Phantom no Grand Canyon, Arizona, é visto após uma enxurrada repentina causada por tempestades, em 29 de agosto de 2026.
Parth Desai via AP
Enchentes repentinas no Grand Canyon, o enorme e famoso desfiladeiro dos Estados Unidos, levaram a ao menos duas mortes e ao resgate de cerca de 80 pessoas no último fim de semana. Outra permanece desaparecida, disseram autoridades nesta terça-feira (1º), enquanto avançam trabalhos de busca e resgate.
A inundação ocorreu na tarde de sábado, na trilha mais popular do Parque Nacional do Grand Canyon, localizado no estado do Arizona, e na zona que abriga um alojamento histórico aos pés das formações rochosas. O parque é o quarto mais visitado dos EUA, tendo recebido mais de 4,4 milhões de visitas recreativas em 2025.
As águas arrastaram grandes rochas e destroços em direção ao Rio Colorado, destruíram vias de passagem e causaram estragos significativos na infraestrutura do parque.
Autoridades advertiram para a previsão de novas chuvas e tempestades, que podem provocar mais inundações repentinas na região. O fenômeno é um risco já conhecido para os visitantes do Grand Canyon, especialmente perigoso no verão do Hemisfério Norte.
Mas, neste ano, outros fatores ligados ao clima podem ter agravado as enchentes e as suas consequências. Dentre eles, incluem-se os vestígios de um incêndio florestal do ano passado, uma seca persistente na região e o El Niño.
15 pessoas estão desaparecidas, após enchente no Grand Canyon
Temporada de monções
O verão nos EUA corresponde ao período de monções, a estação chuvosa da região. Dias de céu limpo podem rapidamente dar lugar a tempestades e chuvas intensas, numa região de deserto que tem cerca de 300 dias de sol ao ano.
O governo estadual do Arizona explica que, em média por volta de 15 de junho, os ventos predominantes começam a mudar, passando de um fluxo seco do oeste para um fluxo úmido do sul.
Durante esse período, a pressão na camada superior da atmosfera aumenta e, com o influxo de umidade trazido pelas mudanças na direção do vento, essas condições favorecem a formação de tempestades, principalmente nas regiões montanhosas, onde o ar é forçado a subir.
As precipitações são importante para o ecossistema: reabastecem lençóis freáticos, aliviam o calor extremo e sustenta a vida selvagem, fazendo florescerem as plantas do deserto, acrescenta o serviço de parques e trilhas do Arizona.
Ao mesmo tempo, trazem riscos para as pessoas e para as paisagens. O que seria uma chuva forte de verão em outro lugar pode se transformar em uma poderosa parede de água no interior do Grand Canyon.
Incêndio e seca históricos
Choveu diversas vezes antes da tempestade mais intensa, que durou cerca de 30 minutos na tarde de sábado. As chuvas atingiram parte da cicatriz deixada pelo incêndio Dragon Bravo, provocado por um raio em julho de 2025.
Na ocasião, o fogo queimou durante dias antes de se transformar em um grande incêndio florestal de rápida propagação. Evacuações foram necessárias, e acabaram destruídas uma histórica acomodação da região, além de cabanas e outras estruturas.
Sem vegetação, as áreas queimadas podem ter permitido que a água escoasse mais rapidamente, por terem reduzido a sua capacidade de absorver chuva, que já é limitada em ambientes áridos e de vegetação escassa como o Arizona.
O Grand Canyon vive ainda um período de vários anos de seca, que fizeram com que os níveis do Rio Colorado atingissem mínimas históricas recentemente. Especialistas associam o fenômeno às mudanças climáticas, e ele pode também ter potencializado o impacto das enchentes deste fim de semana.
A própria geografia íngreme e rochosa do cânion também canaliza a água com velocidade, fazendo com que ela possa correr por vários quilômetros e pegar visitantes desavisados.
El Niño intensifica estação chuvosa
Além disso, a temporada de monções deste ano está especialmente intensa porque há mais vapor d'água na atmosfera, principalmente devido ao forte El Niño, afirmou o hidroclimatologista A. Park Williams, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA).
O aquecimento natural de partes do Oceano Pacífico pode alterar padrões climáticos em escala global. Segundo Williams, esse excesso de vapor d'água no sudoeste dos Estados Unidos acaba sendo descarregado durante tempestades na forma de chuva.
A relação entre a mudança climática provocada pela atividade humana e as fortes chuvas no Arizona é bastante consistente, explica o cientista climático Daniel Swain, do Instituto de Recursos Hídricos da Califórnia.
Há alguns meses, Swain e colegas publicaram um estudo na revista Weather and Climate Extremes mostrando que, durante o verão, chuvas intensas de curta duração no oeste dos Estados Unidos, semelhantes à que atingiu o Grand Canyon, ficaram 10% mais fortes desde o ano 2000.
Danos a quilômetros de tubulação
A única tubulação que abastece de água os milhões de visitantes do Grand Canyon foi gravemente danificada pelas enchentes. Com base em sobrevoos, autoridades do parque estimam que cerca de 40% da tubulação foi danificada. "Prevemos que quilômetros da tubulação tenham sido destruídos", afirmou o vice-superintendente do Grand Canyon, Brian Drapeaux.
A tubulação, concluída na década de 1970, rompeu mais de 85 vezes desde 2010. Ela transporta água de um lado do cânion até sua base, atravessa uma ponte e sobe novamente pelo outro lado do terreno acidentado.
Um projeto de 208 milhões de dólares (R$1 trilhão) para reabilitar a tubulação e modernizar o sistema de abastecimento foi iniciado em 2023. A conclusão estava prevista para o próximo ano, mas o cronograma agora é incerto.