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Dois dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou a Moraes se tinha que deixar o Brasil, revela relatório da PF

Dois dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou a Moraes se tinha que deixar o Brasil, diz PF

G1 — Brasil · 2026-09-02T01:01:33.000Z

Dois dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou a Moraes se tinha que deixar o Brasil, diz PF

Segundo a Polícia Federal, em uma mensagem enviada dois dias antes de ser preso, o dono do Master perguntou ao ministro do Supremo Alexandre de Moraes se tinha que deixar o Brasil. Ainda de acordo com a PF, Daniel Vorcaro pediu ajuda ao ministro para conter ações da PF e do Ministério Público Federal contra o banco. O relatório afirma que Vorcaro e Moraes se encontraram oito vezes.

A Polícia Federal encontrou 52 mensagens enviadas por Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes, de 28 de outubro a 17 de novembro de 2025 - dia em que Vorcaro foi preso pela primeira vez. Na época, o Banco Master já era alvo de investigações. Nos diálogos, segundo os investigadores, os dois combinaram encontros e conversaram sobre as investigações envolvendo o Master.

Segundo o relatório da Polícia Federal, foi o ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro, Fábio Faria, quem compartilhou o contato de Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro. A PF afirma que os contatos nominados como "Alexandre de Moraes Brasília", "Novo", "STF TSE Novo" e "Eu STF", todos com o mesmo número de telefone, foram compartilhados pelo interlocutor registrado no dispositivo como "Fábio Faria", em 26 de dezembro de 2023, às 11h43, por meio do aplicativo WhatsApp. Ato contínuo, o contato "Alexandre de Moraes Brasília" foi salvo na agenda telefônica de Daniel Vorcaro.

Segundo a PF, no dia seguinte, Fábio Faria encaminha mensagem a Daniel Vorcaro mencionando "Alex" e almoço no dia 30. O banqueiro envia a localização do hotel Six Senses Botanique, em Campos do Jordão, São Paulo, e o contato de sua funcionária, salvo em seu telefone como "Thatiane Prime". A PF afirmou no relatório que Daniel Vorcaro acompanha como ocorre a visita da comitiva do interlocutor "Alex" junto com seu funcionário Michael. Ele pergunta: "Chegaram?". E o funcionário responde: "Chegou. Tô apresentando a casa".

A PF descobriu que Vorcaro escrevia no bloco de notas os textos que enviava a Moraes fora do WhatsApp. Segundo a polícia, ele tirava prints da tela e depois enviava as fotos dos textos como imagens de visualização única, aquelas que se apagam assim que são lidas. A mesma dinâmica se repetia nas respostas do ministro, segundo a investigação. A PF não conseguiu recuperar as mensagens enviadas por Moraes porque os dados só ficam armazenados no aparelho de quem envia o conteúdo, e o celular de Moraes não foi apreendido. Já as mensagens de Vorcaro foram recuperadas porque continuaram acessíveis no celular dele, apreendido na primeira vez em que ele foi preso.

Dois dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou a Moraes se tinha que deixar o Brasil, revela relatório da PF

Jornal Nacional/ Reprodução

Em 30 de outubro de 2025, Vorcaro diz que vai alterar uma passagem para encontrar Alexandre de Moraes e fala sobre as apurações do Banco Central envolvendo o Master. O banqueiro disse a Moraes que tinha acesso a informações confidenciais de dentro do BC. Falou sobre o avanço das investigações da Polícia Federal e do trabalho do Ministério Público.

Vorcaro escreveu a Moraes: "Vou mudar minha ida a Abu Dhabi pra conseguir te ver, se você puder na terça-feira. As coisas aqui do ponto de vista econômico estão andando bem. Consegui colocar no banco 800 milhões e já devem entrar mais 400 milhões próxima semana. E FGC", o Fundo Garantidor de Crédito, "começou a fazer aos poucos. O problema agora é que tive informações informais e em confidência de turma do Banco Central, que G" – Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, segundo a PF – "e os diretores estão na pressão máxima de novo para uma medida, pois o Bacen está sendo muito pressionado pela PF e MP, alegando que farão algo contra mim. É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém debaixo fazer uma sacanagem, que aí vai tudo pro saco". Segundo as investigações, uma referência ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. A mensagem prossegue: "Estou disponível pra tratar e explicar qualquer coisa. Só não pode ter sacanagem. Vou te mandar os nomes que têm ido ao Bacen alegando que farão algo em breve".

A investigação da PF já apontou que dois então diretores do BC, Bellini Santana e Paulo Sérgio de Sousa, passavam informações a Vorcaro em troca de propina. Não é possível saber o que Moraes respondeu.

Em outra mensagem, Daniel Vorcaro disse: "De pessoas de dentro do Bacen que são meus amigos e ficaram preocupados. Eles participaram das reuniões, por isso info 100%. Eu só não posso queimá-los porque tinham poucas pessoas e saberão que eles me falaram se isso chegar no G" – Gabriel Galípolo. "Então temos só que ter cuidado de como conduzir com o G depois".

O banqueiro seguiu a conversa e disse ao ministro: "Tudo de importante no final fica no seu colo. Impressionante, mas seu legado pro Brasil será eterno. Tenho muito orgulho e tenho certeza que cada vez mais se consolidará como a pessoa mais importante do país. Então todo o sacrifício pessoal no final valerá a pena". E concluiu: "Juntos em tudo. Muito obrigado por tudo. Esse fim de semana tratarei do tema lá de fora e te dou notícia".

No dia 4 de novembro de 2025, a 13 dias de sua prisão durante tentativa de fuga para o exterior, Daniel Vorcaro voltou a falar com Moraes. Ele buscava informações sobre o avanço das investigações:

"Mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê para bloquear? Porque se conseguem alguma medida contra agora, vai tudo por água abaixo. Essa minha maior preocupação".

Dois dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou a Moraes se tinha que deixar o Brasil, revela relatório da PF

Jornal Nacional/ Reprodução

Vorcaro, então, citou formas de tentar barrar o caso: "Não sei nem do que se trata pra poder tentar atuar. Se vier algo, Bacen entrará na hora. Já me avisaram isso. FGC também. Ele não consegue segurar isso? Ou passar de onde seria pra podermos tentar falar com Paulo?". Segundo a PF, o procurador Paulo Gonet. A conversa seguiu e Vorcaro perguntou sobre medidas que poderiam ser adotadas contra ele: "Médio a grave seria busca ou quebra de sigilo? Só vai saber quando ele chamar, né?".

Ao longo das conversas, o banqueiro pede conselhos de Alexandre de Moraes sobre medidas jurídicas que a defesa dele poderia adotar. No dia 5 de novembro, Daniel Vorcaro escreveu: "O Pierpaolo" – um dos advogados de Vorcaro na época, Pierpaolo Bottini – "tava querendo fazer uma petição nos órgãos pra nos colocar à disposição e pra ter conhecimento se existem inquéritos. Acha que vale a pena? Não vou fazer nenhum movimento que você não achar produtivo. Estamos no escuro. O Paulo" – Gonet, procurador-geral da República – "só disse que tava olhando pessoalmente e que não teria sacanagem. Mas ontem ligou alerta vermelho, né? Uma ação desmedida coloca em risco milhões de clientes".

Horas depois, o banqueiro voltou a falar com Moraes: "Como estamos aí? Conseguiu bloquear a maldade e sacanagem?".

A PF também encontrou mensagens de Vorcaro a Moraes nos dias 6, 7, 10, 11 e 12 de novembro. Nelas, o banqueiro tenta marcar encontros com o ministro. Já no dia 14 de novembro, Daniel Vorcaro faz um agradecimento a Moraes:

"Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda minha família, funcionários, parceiros, amigos que dependem de nós tem uma dívida de vida contigo e com sua família. Muito obrigado por tudo. Agora é continuar na pegada pra conseguir concluir, se Deus quiser".

De acordo com as mensagens, no dia seguinte, 15 de novembro, a dois dias da prisão, Vorcaro e Moraes trataram novamente sobre o avanço das investigações e a possibilidade de a Polícia Federal deflagrar uma operação contra o banqueiro. Na conversa, Daniel Vorcaro consultou o ministro sobre "deixar o país":

"Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galípolo tá sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que segunda já tenho que estar fora?".

Ricardo é o juiz Ricardo Leite, da Justiça Federal de Brasília, que estava com o caso Master na primeira instância. Logo depois, ele voltou a citar o procurador Paulo Gonet e o diretor da PF, Andrei Rodrigues:

"Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso. Isso em Brasília?".

Em outra mensagem, também um dia antes da prisão, Vorcaro sugere um encontro com Moraes: "Às 14 então. Passo na sua casa ou prefere na minha?". Pouco depois, ele escreve: "Bom dia. Já estou em voo, vou pousar 14:20 e irei direto praí, tudo bem?".

Naquela época, Vorcaro tentava fechar uma venda de última hora do Banco Master a investidores estrangeiros. Ele falou sobre isso ao ministro na madrugada do dia 16 de novembro:

"Na terça e quarta vamos assinar com todos investidores. Mobilizei gente pesada. Te mostrei até carta da família real de Abu Dhabi. Loucura essa postura na última hora no momento que vou resolver tudo. Ele tá sabendo das soluções? E quer antecipar pra não deixar acontecer? Qual sua leitura? O que tá havendo? E com Andrei dá pra segurar?".

Vorcaro voltou a citar o presidente do Banco Central sobre a possibilidade de uma intervenção no Master:

"É o Galípolo quem está pressionando isso pra fazer intervenção? Tentar que o Galípolo me receba e eu apresente o que vamos protocolar essa semana. Vamos resolver tudo. Não podem estourar uma bomba atômica na hora da solução, não faz sentido pra ninguém. Nem pra ele, nem pro governo, pra economia e nem para o Brasil".

À noite, Daniel Vorcaro perguntou a Moraes se existiria alguma chance de o diretor da Polícia Federal atrasar uma eventual operação contra ele e o Banco Master:

"Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível. Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?".

Daniel Vorcaro foi preso pela PF no Aeroporto de Guarulhos, enquanto tentava embarcar em um avião particular para Dubai.

Jornal Nacional/ Reprodução

Na manhã do dia seguinte, 17 de novembro, Vorcaro informou ao ministro que estava tentando antecipar a venda do Master. À noite, duas horas antes de ser preso, o banqueiro enviou quatro mensagens a Moraes: "Fiz uma correria aqui pra tentar salvar. Fiz o que deu, vou anunciar parte da transação. Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?". Ele voltou a cobrar o ministro por informações: "Alguma novidade?".

Moraes respondeu com duas imagens de visualização única. Em seguida, Vorcaro enviou a última mensagem: "Foi. Seria melhor na sexta junto com os gringos mas foi o que deu pra fazer dentro da situação. Acho que pode inibir. Amanhã, começam as batidas do Esteves. Tô indo assinar com os investidores de fora e estou online". Esteves, segundo a PF, é André Esteves, dono do banco BTG Pactual.

Naquela noite, a Fictor Holding Financeira anunciou a compra do Banco Master, movimento que coincide com o que Vorcaro descrevia nas conversas. Pouco depois da última mensagem a Moraes, Daniel Vorcaro foi preso pela PF no Aeroporto de Guarulhos, enquanto tentava embarcar em um avião particular para Dubai. No dia seguinte, o Master foi liquidado pelo Banco Central e o negócio com a Fictor não foi fechado.

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