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O bem-estar animal começa pelo cocho

Por muito tempo, o bem-estar animal foi associado apenas à ausência de maus-tratos e ao manejo sem dor. Hoje, entretanto, especialistas afirmam que o verdadeiro equilíbrio do rebanho começa no cocho. A nutrição, mais do que um meio para…

G1 — Brasil · 2026-09-02T20:27:38.000Z

Por muito tempo, o bem-estar animal foi associado apenas à ausência de maus-tratos e ao manejo sem dor. Hoje, entretanto, especialistas afirmam que o verdadeiro equilíbrio do rebanho começa no cocho. A nutrição, mais do que um meio para garantir ganho de peso ou aumento de produção, é o ponto de partida para a saúde física, mental e emocional dos animais.

Segundo Edvaldo Geraldo Júnior, professor de Medicina Veterinária do Centro Universitário FAG, uma alimentação ajustada às necessidades de cada categoria animal é essencial para manter o rúmen em bom funcionamento e preservar o sistema imunológico.

O rúmen é o maior compartimento do estômago dos bovinos e de outros ruminantes, sendo considerado o “coração” do processo digestivo desses animais. Ele funciona como uma grande câmara de fermentação natural, onde vivem milhões de microrganismos, como bactérias, fungos e protozoários, responsáveis por quebrar e digerir os alimentos fibrosos, como o capim e o feno.

Esse processo libera ácidos graxos voláteis, que são a principal fonte de energia para o animal. Além disso, o rúmen tem papel essencial na ruminação, ou seja, quando o bovino regurgita o alimento para mastigá-lo novamente, facilitando a digestão.

“Uma nutrição ajustada à exigência de cada categoria animal mantém o rúmen em ótimo funcionamento, preserva a saúde e permite que o bovino expresse todo seu potencial produtivo, ganho de peso, produção e qualidade do leite, além de promover o bem-estar, com menor estresse, melhor imunidade e comportamento alimentar estável”, explica Edivaldo.

Nutrição equilibrada é sinônimo de saúde, produtividade e comportamento estável.

Quando o cocho revela desequilíbrio

Sinais sutis podem indicar que algo vai mal na dieta. De acordo com o professor, os primeiros alertas de um manejo alimentar inadequado são a baixa ruminação, a inquietação e os mugidos.

“Além de aumentar o cortisol e piorar a imunidade em vacas leiteiras, o balanço energético negativo prejudica a reprodução e promove queda na produtividade. Em bovinos de corte, os animais tendem a ficar mais temperamentais, rompem cercas e aumentam a ingestão de plantas tóxicas. De maneira geral, os animais desenvolvem problemas de saúde, não se reproduzem, e diminui a longevidade e produtividade”, esclarece.

Nutrientes essenciais: os 6 pilares da alimentação bovina

Água: É o nutriente mais importante, essencial para todas as funções vitais, digestão, termorregulação e transporte de nutrientes.

Carboidratos fibrosos: Presentes nas forragens, mantêm a saúde do rúmen e estimulam a ruminação, prevenindo distúrbios digestivos.

Carboidratos não fibrosos: Fornecem energia rápida para ganho de peso e produção de leite; o excesso pode causar acidose e timpanismo.

Proteínas: Fornecem aminoácidos indispensáveis ao crescimento, reprodução e formação de tecidos como músculos, pele e casco.

Lipídios: Aumentam a densidade energética da dieta e ajudam a manter o balanço energético positivo, especialmente em vacas de alta produção.

Minerais e vitaminas: Regulam o metabolismo, fortalecem ossos, imunidade e reprodução; desequilíbrios podem causar distúrbios como a hipocalcemia.

Alimentação correta é o caminho para mais desempenho e menos estresse.

Corte e leite: necessidades diferentes, um mesmo desafio

A diferença entre o gado de corte e o leiteiro vai além da aparência. “O metabolismo da vaca de leite se assemelha ao de um atleta de alto rendimento, com uso eficiente de nutrientes e pouca margem para erros”, compara Edivaldo.

Já no gado de corte, a meta é transformar pasto e suplementos em carne de qualidade, respeitando as fases produtivas. Durante a cria, o foco é garantir que a mãe se mantenha saudável e o bezerro desmame forte. Na recria, o objetivo é o crescimento com suplementação leve. Na engorda, o desafio é o ganho muscular e, posteriormente, o acabamento de gordura.

Em vacas leiteiras, as fases de lactação e período seco exigem ajustes constantes para evitar o desgaste e preparar o animal para o próximo ciclo produtivo.

Equilíbrio reflete no comportamento

Distúrbios como acidose ruminal, laminite e hipocalcemia impactam diretamente o bem-estar e a produtividade.

“Na acidose, o pH do rúmen sai da faixa ideal, o animal sente dor abdominal, rumina menos e consome menos alimento. Já a laminite causa dor crônica nos cascos e faz o animal evitar o cocho. A hipocalcemia compromete a contração muscular e a imunidade, levando à retenção de placenta, quedas e baixa fertilidade”, explica Edivaldo.

Essas condições afetam não apenas a produção de leite e carne, mas também a qualidade de vida do animal, um indicador cada vez mais valorizado pelo mercado e pelos consumidores.

A alimentação adequada é essencial para a saúde e o desempenho das vacas leiteiras.

Um futuro de bem-estar e produtividade

O olhar do produtor é peça-chave nesse processo. Observar o comportamento, a pelagem, o apetite e o consumo de água são atitudes simples que podem prevenir doenças e melhorar o desempenho geral do rebanho. A nutrição de precisão, ajustada ao tipo de animal, à fase produtiva e às condições climáticas, é o caminho para uma pecuária mais ética, sustentável e rentável.

“Aqui na propriedade, a gente aprendeu que o cuidado com o animal faz toda a diferença. Quando o gado é bem alimentado, tem sombra, água limpa e espaço para se movimentar, ele responde melhor em tudo, principalmente na reprodução. Uma vaca estressada ou mal nutrida não emprenha fácil, e o animal também sente. A gente precisa entender que o bem-estar não é luxo, é parte do trabalho. Se o bicho está bem, a produção vai bem também”, conta Geraldo Dalmoro, agricultor e criador de gado de corte e vacas leiteiras.

O acesso a um ambiente adequado também faz parte dos cuidados com o bem-estar do rebanho.

Como reforça o professor Edivaldo, o bem-estar animal não depende apenas de instalações adequadas ou manejo cuidadoso: “Um animal que come bem, sente-se bem. E isso se reflete em todos os índices produtivos”.

No campo, o cuidado começa no cocho e dele depende todo o equilíbrio entre produtividade, saúde e respeito à vida.

Texto produzido por Daniela Dalmoro, acadêmica do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, sob orientação da professora Julliane Brita, para a 24ª edição da Revista Verbo, veiculada na 5ª edição do City Farm FAG.

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