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Segunda pandemia? Executivo explica como o Corinthians tenta reconstruir a base após punição

"Corinthians viveu segunda pandemia" com exclusão do Movimento dos Clubes Formadores

ge — Futebol · 2026-09-03T07:00:59.000Z

"Corinthians viveu segunda pandemia" com exclusão do Movimento dos Clubes Formadores

As categorias de base do Corinthians passam por uma reconstrução. De volta ao Movimento dos Clubes Formadores (MCF) depois da resolução do conflito com o rival Palmeiras nos bastidores, o clube retornou às principais competições do país. No entanto, o impacto dos 18 meses de isolamento na base deve ser sentido ao longo dos próximos anos.

— A categoria de base do Corinthians viveu uma segunda pandemia. Nós ficamos quase dois anos fora das competições nacionais. De 2025 até agora, o Corinthians ficou fora de 38 competições importantes. O menino que hoje é sub-15 do Corinthians perdeu várias competições importantes no sub-14 e no sub-13.

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A afirmação é do executivo Erasmo Damiani, responsável pelas categorias de base do Corinthians deste o fim do ano passado. Nesta entrevista ao ge, o dirigente detalha o trabalho de reconstrução do departamento, as negociações pelo retorno ao MCF, o desejo de aumentar a captação de novos talentos pelo Brasil e a dificuldade de lidar com os pais dos jovens talentos do clube.

Damiani ainda garante que, atualmente, a base do Corinthians conta com profissionais de renome no mercado e sem qualquer interferência política do Parque São Jorge.

— Hoje, você não vê uma reclamação na base do Corinthians. Tentamos fazer tudo muito transparente para o funcionário e para a direção. O início aqui foi conturbado, entramos com o Corinthians fora do Movimento, logo teve o caso Flora. Tudo foi conversado com o presidente, nada foi feito de surpresa. Tudo foi aprovado por ele.

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A punição ao Corinthians ocorreu após denúncia do Palmeiras por suposto aliciamento do jovem atacante Pedro Morelli, que pertencia às categorias de base do clube alviverde.

O rival apresentou a denúncia ao Movimento dos Clubes Formadores, acompanhada de provas. Os demais clubes integrantes do grupo analisaram o caso e decidiram pela expulsão do Corinthians.

Em agosto, o clube rescindiu o contrato de Pedro Morelli e, como consequência, voltou ao Movimento.

Erasmo Damiani, executivo da base do Corinthians

João Pedro Brandão

Leia a entrevista completa:

Qual é a dimensão do retorno do Corinthians ao Movimento dos Clubes Formadores para o desenvolvimento dos garotos da base do clube?

— Imensurável. A categoria de base do Corinthians viveu uma segunda pandemia. Nós ficamos quase dois anos fora das competições nacionais. De 2025 até agora, o Corinthians ficou fora de 38 competições importantes. O menino que hoje é sub-15 do Corinthians, perdeu várias competições importantes no sub-14 e no sub-13.

— Estamos aceitando os convites que recebemos porque são competições importantes e estamos precisando conviver com as diferenças entre outras escolas. Quanto mais competitividade, mais importante para o desenvolvimento.

— Vamos usar como exemplo os meninos que serão do sub-15 em 2027. No sub-13, eles perderam pelo menos quatro competições importantes, no sub-14 mais seis outras competições. Ao todo, deixaram de disputar dez torneios de extrema importância para o aprendizado deles.

Erasmo Damiani detalha dificuldades do Corinthians no mercado das categorias de base

Quais os impactos que o período em que o Corinthians ficou fora do Movimento podem trazer para esses garotos e para o clube a médio e longo prazo?

— Os garotos perdem na questão da competitividade e minutagem de jogos. O Corinthians teve prejuízo com as entradas e saídas de jogadores. Como ficamos fora do Movimento, alguns pais tiraram jogadores do clube. Perdemos menos do que poderíamos ter perdido, mas perdemos peças importantes.

— Agora, não mais. Não tem mais essa desculpa, o Corinthians está de volta às competições. O prejuízo é imensurável, os atletas sofreram, foram prejudicados em seu processo de formação por não ter jogo contra outras escolas. O Corinthians vai começar a entender quais jogadores têm um nível mais alto a partir de agora.

Quais foram as possibilidades apresentadas ao Corinthians para o retorno ao Movimento? Rescindir com o Pedro Morelli foi a única alternativa viável?

— Havia a possibilidade de um acordo entre Corinthians e Palmeiras, o que não aconteceu. Ficou muito próximo, mas não houve desfecho positivo por alguns fatores. O Corinthians sempre esteve disposto a fazer o acordo. Quero lembrar que não fomos nós (gestão Osmar Stabile) que criamos essa situação, poderia ter sido resolvido no ano passado com mais transparência no início do ano.

— O segundo ponto apresentando foi de que, para volta ao Movimento, era necessária a liberação do atleta. Para nós pesou o seguinte: “vou prejudicar 430 atletas ou abrir mão de um e beneficiar 429?”. Ficou nessa situação, chegamos a um acordo com a família e com os representantes de que do jeito que estava seria também prejudicial ao atleta e ao seu desenvolvimento.

— A decisão contempla o desenvolvimento do atleta, que poderá dar sequência à carreira em outro clube e contempla a categoria de base do Corinthians, que está beneficiando os outros 429 atletas.

Derby na base? Erasmo Damiani diz que Palmeiras tirou jogadores do Corinthians

Ao longo desse processo, o Corinthians entendeu que houve motivação política do Palmeiras?

— Não vejo assim. O Palmeiras se sentiu prejudicado na condução do que houve no início do ano passado e procurou seus direitos. O Corinthians, naquele primeiro momento, antes da minha chegada ao clube, não tentou resolver. Hoje, digo que todo mundo teve um pouco de culpa nisso.

— É claro que, para o Palmeiras, passou a ser interessante o Corinthians ficar fragilizado porque eles pegaram dois jogadores nossos e tentaram outros. Não diria que o Palmeiras agiu com motivação política, mas eles tiveram uma arma a favor deles e usaram porque tinham poder de decisão.

— O Corinthians chegou muito próximo de ter um acordo com eles, mas não aconteceu. O atleta está livre no mercado e o Corinthians está de volta ao Movimento, que nos resguarda de perder novos atletas, tínhamos preocupação com isso. Nas categorias menores, estávamos muito fragilizados, agora temos respiro de segurança na iniciação dos jogadores.

Em dezembro do ano passado, você havia dito ao ge que a base do Corinthians passou a ter metas fixas. Uma delas era a classificação do sub-17 e do sub-20 para a fase eliminatória do Campeonato Brasileiro. O sub-20 foi eliminado nas quartas de final, e o sub-17 está em disputa com uma boa colocação e deve se classificar. Pode falar um pouco sobre o trabalho de reestruturação da base do clube? O que foi feito do início do ano para cá?

— Cheguei em outubro e fiz um diagnóstico daquilo que entendia para o clube. O presidente deu o ok para as mudanças e isso foi fundamental para o processo. Eu precisava avisar o mercado que o Corinthians estava de volta, a marca é muito forte.

— Trouxemos profissionais do mercado. O Corinthians tem a limitação da situação financeira, falar sobre isso é chover no molhado. Como não tenho condições de comprar jogador, tenho que olhar o que temos em casa. Se você olhar o sub-17 ou o sub-20, temos poucos jogadores no último ano da categoria.

— Hoje, o Corinthians tem jogadores do sub-17 treinando no sub-20, do sub-15 treinando no sub-17 e do sub-14 treinando no sub-15. Por quê? Porque temos dificuldades para trazer jogadores, então temos que trabalhar isso. Conversamos muito internamente e temos consciência de que o resultado virá naturalmente, o foco é no desenvolvimento.

— Eu conheço o mercado, estou aqui para ajudar o clube. Reduzimos o plantel de jogadores para que hoje os treinadores trabalhem com o número adequado de atletas por categoria. Trouxe o Ricardo Drubscky para ajudar os profissionais mais novos a se desenvolverem, afinal é a formação deles também. Não estamos formando só atletas, estamos formando treinadores, preparadores físicos, roupeiros, todo mundo aqui.

Marcelo Paz (executivo de futebol), Erasmo Damiani (executivo de base) e Drubscky durante bate-papo no CT da Base do Corinthians

Rafael Brayan/Agência Corinthians

Naquela mesma conversa, você disse que o objetivo era deixar o departamento “redondo” para que as categorias de base do Corinthians andassem com as próprias pernas no futuro. Hoje, qual é a situação da base do clube?

— Redondo nunca estará porque há sempre ajustes a serem feitos. Comecei a conhecer agora os profissionais e os atletas tendo a convivência do dia a dia, vendo os treinos e jogos. É claro que ajustes são normais, mas não vamos fazer uma reformulação como fizemos no ano passado. Entre atletas e funcionários, tiramos mais de 140 pessoas naquela reformulação.

— Há setores que precisam ser melhorados. Os atletas do Corinthians precisam se acostumar com o vencer, com o ganhar. Isso faz parte de um atleta do Corinthians, precisa ser desenvolvido. Em relação à minha chegada, mudou muito o trabalho, as pessoas sabem o que precisa ser feito.

— Quando cheguei, não olhei muito para a captação, que é o coração do clube. Demos uma melhorada nisso, mas ainda está muito aquém daquilo que imagino.

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Núcleo de captação do Corinthians trabalha no Parque São Jorge

O que precisa melhorar na captação?

— Aumentar o número de funcionários. Hoje, tenho uma restrição e preciso de mais gente lá. O clube está passando por uma reestruturação, não posso chegar no presidente e dizer que preciso de mais dez pessoas. Sei muito bem o que está acontecendo no Corinthians.

— Falo para os funcionários que a mudança não será do dia para noite, mas precisamos conquistar nosso espaço para que, quando o Corinthians der uma melhorada, a gente possa cobrar o presidente e pedir mais pessoas. Se você não tinha ninguém e hoje tem cinco ou sete pessoas, está melhor.

O Corinthians não tinha ninguém na captação?

— Tinha um coordenador, mas o departamento estava restrito a coisas que não se conseguia resolver. O que fizemos? Fomos ao mercado, estruturamos o departamento, criamos nossas linhas de conduta, trabalhamos no banco de dados e mapeamento dos nossos próprios atletas e de atletas que estão no mercado.

— Hoje, quando vamos trazer um novo atleta ou dispensar fazemos reuniões grandes com a comissão técnica daquela categoria específica e com a comissão da categoria acima. Por exemplo, quando um menino do sub-16 é avaliado, a comissão do sub-17 participa para dar opinião. Essas reuniões envolvem psicologia, fisiologia, preparação física, assistente social e equipe de performance. Para tomar uma decisão dessa, são 17 ou 18 pessoas.

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Entrada do CT das categorias de base no Corinthians

Qual o tamanho da estrutura da base do Corinthians?

— Temos em torno de 180 funcionários. Você coloca aí o pessoal da manutenção, refeitório, comissões técnicas, nutrição, psicologia, assistente social, pedagogia, coordenação. Temos duas estruturas, uma no Parque São Jorge, que atende do sub-9 ao sub-12, e outra no CT da base, do sub-13 até o sub-20.

Qual é o orçamento do Corinthians para a categoria de base? O valor é adequado para a operação do clube na formação de atletas?

— Estamos trabalhando em cima do valor para entender o que é real e é orçado. Tem coisas que estão conosco no orçamento, mas não são do nosso setor. Se eu te falar que hoje o orçamento do Corinthians é de R$ 20 milhões, R$ 30 milhões ou R$ 50 milhões vou estar mentindo para mais ou para menos. Temos um orçamento, que está sendo adequado e esmiuçado. Para o ano que vem, o orçamento estará mais claro.

— As pessoas olham e falam: “poxa, como eles têm um orçamento desse tamanho e não conseguem fazer investimento?”. Às vezes, o orçamento é apenas para a manutenção da operação. Temos a operação do CT, a manutenção do Parque São Jorge, o pagamento da folha. Hoje, o Corinthians não tem no orçamento dinheiro para investimento em atletas.

No CT da base, os garotos da formação convivem com as mulheres do profissional. Como funciona isso? De quem é a gestão do espaço físico?

— O convívio do feminino com a base vai deixar de existir. Vamos ter um espaço maior para a base, e o feminino terá um espaço totalmente seu. Isso é fundamental, elas viviam com espaço reduzido. Você vai desmembrando algumas coisas que, de repente, estavam no seu orçamento.

— Elas vão ter a estrutura totalmente delas, mas separada. A academia, fisioterapia, sala de comissão técnica, de direção, será tudo totalmente separado. Dentro do CT da base, mas totalmente separado.

Executivo do Corinthians comenta investimento em alimentação na base: “É o básico”

Recentemente, o clube passou a fornecer alimentação para os garotos no CT da base. O quanto isso impacta no processo de desenvolvimento dos atletas?

— Antes, os atletas terminavam o treino e iam embora sem comer. O clube não tinha o controle do que os atletas comiam depois dos treinos. Vamos supor que o gasto calórico do treinamento seja de 1.500 calorias. O menino sai do CT e repõe 500 calorias comendo qualquer coisa na rua. Ao fim dessa semana, esse menino terá um déficit calórico muito grande. Como ele vai desenvolver?

— No clube, diziam que a alimentação era um gasto. Tudo bem, é um gasto. Mas eu prefiro cortar em outras áreas e investir nisso. Estamos gastando com a alimentação do sub-16, sub-17 e sub-20 no CT. Os garotos não comiam, eles tomavam café da manhã, treinavam e iam embora.

Refeitório do CT da base do Corinthians

Victor Costa/ Ag. Corinthians

— Alguns, com uma condição melhor, comiam em casa. Estabelecemos que a alimentação precisa ser feita no clube. As categorias sub-15, sub-14, sub-13 e sub-12 treinam pela tarde, almoçam e jantam no refeitório para termos o controle. São esses pequenos detalhes que fazem a diferença.

— Isso é o básico para o desenvolvimento de um atleta de alta performance. Eu não controlo o menino para fora do portão do clube. A nutricionista pode falar para ele comer massa, carboidrato e proteína, mas chega lá fora ele vê que um pão com ovo é mais barato do que uma carne com arroz e feijão. Ele economiza assim.

No passado, houve relatos de que as categorias de base tinham problemas com a distribuição de material esportivo. Alguns garotos treinavam com uniformes velhos. Isso foi resolvido?

— Hoje, todo mundo está uniformizado. Isso é o simples, mas aqui era um problema. É o cartão de visita do Corinthians, você olha os meninos e eles estão todos iguais. Isso é organização.

Materiais disponibilizados às categorias de base do Corinthians em condições precárias

Há alguma possibilidade real para a construção de um hotel no CT que atenda as demandas das categorias de base?

— Estamos estudando a possibilidade de trazer uma cozinha para o CT da base. Hoje, o Corinthians aluga o antigo alojamento (no bairro do Tatuapé) para ser um refeitório.

— Vamos fazer uma cozinha industrial no CT da base. Hoje, tem um buffet que é levado diariamente para lá. Com a cozinha, faremos mais rápido e atenderemos nossas necessidades. Isso está sendo estudado, está bem adiantado. Recentemente, apresentei ao presidente um orçamento. É um ganho que teremos para o desenvolvimento dos atletas.

— Depois, partiremos para o hotel. O Corinthians precisa mapear o que é mais importante e, neste momento, o mais importante é a alimentação. Primeiro, temos que pensar na cozinha.

O Corinthians não tem alojamento para os garotos que não são de São Paulo. Hoje, se o clube quer trazer um garoto de outra região do país, a família recebe uma ajuda de custo para a moradia. É isso?

— Imputo no salário uma ajuda de custo ao garoto, mas a decisão é familiar. Se a família não tiver condições de se mudar para São Paulo, infelizmente perco o atleta. Aconteceu isso recentemente com dois meninos, um deles foi para o Red Bull Bragantino. Não tínhamos condição de trazer a família e perdemos o menino.

Executivo da base revela ter recebido "carta branca" do presidente do Corinthians

Qual a sua relação com o presidente Osmar Stabile? A categoria de base do Corinthians sofre algum tipo de influência da política do Parque São Jorge?

— O presidente Osmar me deu autonomia para fazer as coisas aqui dentro. Nunca tive uma interferência política, ele nunca me ligou para dizer para colocar fulano ou ciclano. O presidente está ciente de tudo o que fazemos, todas as decisões que tomo. Tudo o que eu preciso, converso com ele. É uma pessoa muito aberta. Nunca tive, desde que estou aqui, situação de alguém ser obrigado a escalar jogador por questão política ou pedido do presidente.

— Os treinadores estão cientes de que a decisão é deles. Claro que eu estou aqui no dia a dia, vejo o treino, pergunto e converso. É assim que tenho liberdade de cobrar os treinadores. Me sinto tranquilo quanto a isso. Quando cheguei, pessoas que trabalharam aqui me disseram que eu iria sofrer: “cara, te prepara, daqui a pouco vão vir os pedidos políticos” e “tu que vai escolher fazer ou ir embora”. Até agora, não vi nada disso.

— Nas mudanças que fiz no fim do ano passado, havia pessoas com ligação política no clube, e o presidente me deu carta branca. Avisava que a pessoa ‘x’ era ligada a fulano, o presidente perguntava o parecer técnico, nós dizíamos que era pela mudança e ele acatava.

Erasmo Damiani chegou ao Corinthians em outubro de 2025

Cada vez mais, vemos esses meninos das categorias de base com milhares de seguidores nas redes sociais e exposição pública na infância e adolescência. Como o Corinthians lida com essa questão na formação dos garotos?

— Seria utopia dizer que os meninos não usam rede social no Corinthians. A rede social faz parte da sociedade. Nós tentamos conscientizar os meninos que a exposição na rede social pode ser benéfica, mas também pode ser prejudicial para eles. Muitas vezes não são os meninos que administram as redes sociais, são os pais.

— Hoje, muitos pais utilizam as redes sociais para divulgar o filho. Daqui a pouco, um menino tem 50 mil seguidores e os clubes passam a ser pressionados para não perderem um novo craque do futebol brasileiro. Mas, aquilo é real?

— Hoje, toda assinatura de contrato, seja na base ou no profissional, divulgam como “novo craque”, “fenômeno”. Esse menino vai errar um monte, se ele não está preparado, se é tratado como craque sempre, não vai saber lidar. Não estou generalizando, mas há pais que usam os filhos para realizarem os seus próprios sonhos. Às vezes, você tem um filho que gosta de jogar bola. O que você imagina? Seu filho jogando na Seleção, vestindo a camisa do Corinthians, fazendo o gol do título. Isso vai colocando uma pressão em cima do menino que é desnecessária.

Erasmo Damiani alerta sobre riscos do uso das redes sociais nas categorias de base

A relação com os pais é o maior desafio?

— Falo para os pais, principalmente dos garotos de nove a 14 anos, que se um dia o filho não quiser vir treinar, ele precisa ser respeitado. Claro que precisam avisar o Corinthians, mas não precisam vir se não quiserem.

— Na base, os pais cobram muito para que os filhos joguem, mas precisam entender que ser reserva faz parte do processo de formação de um jogador de futebol. O Kaká não jogava no São Paulo, o Cafu foi reprovado em várias peneiras, o Roberto Firmino foi mandado embora do São Paulo duas vezes.

— Aqui no Corinthians, nós construímos duas horas, três horas com os filhos deles. Depois, não temos mais o controle. Tem pais que viraram sócios do Corinthians para assistirem ao treino aqui no Parque São Jorge. O treinador pede para o menino ir para a direita, só que em casa o pai manda o menino ir para a esquerda. O que esse menino faz? Perde a confiança de fazer o que o treinador pede.

— Por que eu proíbo de ver treino na base? O treino é um momento sagrado entre o clube e o menino, não é o lugar do pai estar olhando e palpitando. Nas viagens, alguns pais me pedem para os filhos voltarem com eles, no carro da família. Eu proíbo. Os meninos voltam sempre com a delegação do Corinthians.

— Às vezes, esse menino foi mal e só quer conversar com o amigo dele no ônibus. No carro, com a família, o pai pode comentar de forma negativa e cobrar de forma exagerada esse garoto. Começa a criar uma rivalidade interna, dentro do time, entre meninos que são amigos, porque o pai reclama da postura do filho no campo.

— Hoje, a depressão está no nosso dia a dia. Nessa situação, pode haver depressão por pressão demasiada da família em cima do menino. Falo para os pais que, do portão para dentro, os meninos precisam estar felizes para fazer o que eles gostam.

— Direto, eu vejo os meninos no telefone por 20 minutos ou mais dando atualização para os pais de como foi o jogo, como foi o treino. Tem meninos que desistem porque estão cansados da pressão. Alguns pais acreditam que os filhos serão o Neymar ou o Vinícius Júnior, mas esses são apenas 0,0001%. O sonho do pai acaba prevalecendo à vontade do filho.

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