ITATIBA1
Conquista da Sul-Americana em 2017 sobre o Flamengo foi o último título do Independiente
ge — Futebol · 2026-09-03T18:40:04.000Z
Conquista da Sul-Americana em 2017 sobre o Flamengo foi o último título do Independiente
A Libertadores da América é uma bandeira do Independiente, o Rei de Copas. Rebatizou seu estádio, antes conhecido como Doble Visera, com o nome da competição mais importante do continente por ser o maior campeão da mesma. De história riquíssima mundialmente e um dos cinco grandes da Argentina, o Rojo, como é conhecido por lá, vive uma profunda crise institucional, financeira e de resultados. O ge conversou com jornalistas que conhecem bem o clube para tentar explicar por que um gigante anda tão esquecido e alijado das principais disputas de títulos.
+ Ex-Palmeiras reforça St. Louis City na maior transferência entre clubes da MLS
"Olé" tratou como insólitas as vendas do Independiente, enquanto a "TyC Sports" falou em "dia triste"
Três jogadores importantes são vendidos, mas dívidas raspam receitas
As vendas do zagueiro Kevin Lomónaco, ex-Bragantino, do atacante Gabriel Ávalos e de Maximiliano Gutiérrez para Elche, Olimpia e Dínamo Moscou respectivamente, praticamente não geraram grandes recursos porque o clube está asfixiado por dívidas e teve de redistribuir o dinheiro a credores envolvidos nas negociações
Ávalos, principal nome do ataque do Independiente, foi vendido ao Olimpia por U$S 950 mil (R$ 4,84 milhões), metade do gasto para contratá-lo em dezembro de 2023. O problema é que desse valor o clube argentino abate dívidas que tinha com o próprio Olimpia pela compra do lateral-esquerdo Facundo Zabala em 2025 e também contempla futuros compromissos com Ávalos.
A questão de Lomónaco é parecida. O Independiente vendeu 80% de seus direitos econômicos por US$ 5,5 milhões (R$ 28 milhões) ao espanhol Elche no último dia da janela europeia, mas ficará com apenas US$ 1,7 milhão (R$ 8,66 milhões), porque o clube devia ao próprio Elche pela compra do meio-campista Ivan Marcone em 2022 e ao Bragantino pela contratação de Lomónaco em 2025.
Kevin Lomónaco defendia o Bragantino antes de chegar ao Independiente
Ari Ferreira/Red Bull Bragantino
Outra transação em que o Independiente ficará praticamente a ver navios é do ponta Maximiliano Gutiérrez para o Dínamo Moscou. Detentor de 50% dos direitos econômicos, receberia metade dos 7 milhões de euros investidos pelos russos, mas vai ficar só com 1,73 milhão de euros (R$ 10,2 milhões) porque ainda tinha um valor a pagar ao Huachipato, ex-clube de Gutiérrez, no início de 2027.
Por que o Independiente está tão endividado?
Com três participações na Libertadores nos últimos 30 anos (2004, 2011 e 2018), o Independiente foi campeão argentino pela última vez no Torneio Apertura 2002/2003. Àquela altura, o clube já tinha muitas dificuldades financeiras, e o plantel que contava com destaques como Daniel Montenegro, Insúa e Silvera foi rapidamente desmontado pelo mesmo motivo que o atual: dívidas aos montes.
Estádio Libertadores de América - River Plate x Palmeiras
- Um time que ganhou o título de ponta a ponta, mas depois daquele título o Independiente teve uma queda muito profunda, porque esse time se desmantelou muito rapidamente. Depois da consagração, o plantel foi desmontado e praticamente, salvo algumas pequenas ilhas no deserto - que são as duas Sul-Americanas, de 2010 e 2017 -, a torcida não teve mais a possibilidade de ter alegrias.
Os próximos feitos não foram esportivos, mas sim econômicos. O Independiente vendeu Agüero, que se tornaria astro internacional e ídolo gigantesco do Manchester City, e o goleiro Ustari, obtendo receita para construir o Libertadores da América no mesmo lugar onde fora demolido o Doble Visera.
Venda de Agüero possibilitou recursos para a construção do Estádio Libertadores de América
- Em 2006, o clube conseguiu duas grandes vendas. A do Kun Agüero para o Atlético de Madrid por US$ 28 milhões, à época a maior venda do futebol argentino. E do goleiro Oscar Ustari ao Getafe por US$ 8 milhões. Com esse dinheiro, o clube começou a construção do Estádio Libertadores de América Ricardo Bochini (o nome do maior ídolo da história do clube foi anexado em 2019). Começa a construção em 2007 e conclui em 2009, ano da inauguração.
O problema é que a "cancha" (estádio) do Rojo foi muito mais custosa do que o esperado. Um dos grandes orgulhos do torcedor, o Estádio Libertadores da América, construído de 2007 a 2009, virou um dos motivos para o clube estar encalacrado financeiramente. Pelo menos é o que conta Favio Verona, setorista do Independiente no "Olé".
- Com a construção do novo estádio, o clube se endividou, teve que pedir créditos bancários para a construção porque a obra acabou sendo muito mais cara do que estava previsto. Aí acho que é quando começa o ponto de quebra, quando o clube começa a ter um desbalanceamento econômico. A partir daí começa uma crise importante a nível econômica que o o clube arrasta há muito tempo. Os recursos obtidos pelas vendas de Agüero e Ustari não foram bem utilizados. A construção do estádio, somada às recorrentes crises econômicas do país, gerou um endividamento importante. Começou uma crise que foi aumentando ano após anos.
Crise institucional e de representatividade
Fabián Rodríguez, do "C5N" e que cobriu o clube pelo Olé entre 2014 e 2018, aponta as más administrações ao longo dos anos como motivo maior de o Independiente ter perdido protagonismo dentro da Argentina.
- O Independiente está passando pelo período mais longo de sua história sem um título nacional, principalmente devido a administrações ruins de suas diretorias. Há quase 24 anos, o clube vem sendo administrado não da melhor maneira, com inúmeros treinadores contratados sem respeitar os prazos normais, além de compras de jogadores que resultaram em um enorme desperdício de dinheiro. Com o passar do tempo, a paciência dos torcedores está se esgotando - afirma Fabián.
Fabián destaca que o Independiente, heptacampeão da Libertadores, foi considerado por muito tempo o terceiro clube em importância da Argentina, atrás apenas de River e Boca, mas atribui a gestões ruins a impressionante perda de espaço. Cita que o clube flertou com a reconstrução a partir de 2017, quando ganhou a Copa Sul-Americana em cima do Flamengo e foi às quartas de final da Libertadores seguinte, na melhor campanha do clube no torneio desde 1990, mas acabou pondo tudo a perder por investir erradamente em contratações extravagantes após sofrer um novo desmonte.
- A realidade é que hoje a situação atual o coloca abaixo de outros clubes com muito menos história, muito menos poder. Durante esses 24 anos, embora tenha tido alguns sucessos internacionais, como os títulos da Copa Sul-Americana, em 2010 e 2017, e no ano seguinte a 2017, seu melhor desempenho na Libertadores desde 1990, é preciso dizer que o melhor ciclo que viveu até então foi o de Ariel Holan, entre 2017 e 2018. E não souberam aproveitá-lo ao máximo. Por quê?
Independiente comemora o título da Sul-Americana contra o Flamengo no Maracanã
André Durão / GloboEsporte.com
- Talvez porque ali tenham surgido inconvenientes na gestão dos êxitos. Esse sucesso internacional levou a gastos excessivos com contratações de jogadores. E também, por exemplo, ao clube perdeu um pouco o rumo nessa conjuntura econômica quando havia entrado muito dinheiro e não soube como capitalizá-lo. Embora tenha chegado às quartas de final da Copa Libertadores de 2018, a realidade é que a partir daí começou a declinar novamente, não aproveitando aquele ciclo.
Favio Verona afirma que a constante entrada de dirigentes sem experiência dentro da política do Independiente provocou uma crise de representatividade.
- Sofreu nos últimos anos uma grande crise de representatividade, os últimos presidentes não estiveram à altura da instituição. O clube teve diferentes direções, praticamente todas tiveram que enfrentar o problema da crise econômica. Depois de Andrés Ducatenzeiler, último presidente a ser campeão argentino, o clube foi comandado por Julio Comparada, Javier Cantero, que no ano de 2013 sofreu um rebaixamento para a Série B. O clube ficou um ano na Série B. Depois de Cantero, Hugo Moyano, que é um sindicalista conhecido na Argentina e que ficou como presidente por muito tempo. Depois dele assume um presidente que durou somente três meses, Fabián Doman. Um jornalista argentino que ganhou as eleições, mas acabou renunciando muito rápido.
A respeito do comando atual, Favio destaca que o presidente Néstor Grindetti não é do futebol. Por isso, bate na tecla da representatividade e compara alguns dirigentes a aventureiros que tentam comandar o clube sem o mínimo de lastro necessário.
- E o atual presidente, Néstor Grindetti, é um homem da política nacional e que decidiu ser dirigente esportivo. Assumiu há quatro anos, mas não conseguiu cumprir os objetivos de pagar as dívidas do clube. A consequência é a exigência da torcida. A torcida exige de acordo com a história que tem o clube, que é uma história muito grande. Mas o clube não tem capacidade econômica para ter times que pôde ter nas épocas de glória.
- A crise de representatividade existia porque os dirigentes que chegavam ao clube não tinha história e nem ocuparam cargos em diretorias anteriores. Eles eram praticamente paraquedistas que caíam no clube. Em dezembro, o Independiente terá eleições presidenciais, mas já estamos em dezembro, e ainda não se conhecem como estão formadas as chapas com os candidatos que vão concorrer.
Ex-goleiro e campeão de Roland Garros nas eleições presidenciais
Grindetti deixará a presidência do Independiente em dezembro, mas Favio Verona diz que o processo de sucessão ainda é cercado de muitas incertezas.
- Um candidato é Luciano Nakis, muito próximo a Claudio Chiqui Tapia - presidente da federação argentina de futebol (AFA), é um braço direito dele. Ainda não se sabe como vai estar formada sua diretoria, com vice-presidente e dirigentes. Outro candidato é um ex-tenista que ganhou o Roland Garros em 2004, o Gastón Gaudio. Outro é Luis Islas, um ex-goleiro do Independiente. O problema é que todas as listas das chapas ainda estão indefinidas, eles ainda não falaram sobre o projeto esportivo e nem como vão fazer para pagar as dívidas.
Falta de estrutura e tamanho da dívida
Segundo Favio Verona, a dívida do Independiente está avaliada em R$ 127,35 milhões. Embora seja muito inferior à de vários clubes brasileiros, vale destacar que o investimento e a verba oriunda de patrocínios na Argentina é proporcionalmente menor em relação ao nosso futebol.
- O plantel está praticamente sendo leiloado. O clube, por questões futebolísticas e institucionais, tem uma dívida aproximada de U$ 25 milhões (R$ 127,35 milhões), que para o Independiente é uma dívida muito grande porque o clube não tem uma maneira de gerar recursos. Acho que o principal problema que arrasta o clube é a dívida, que não permite traçar um plano para depois ter um time mais competitivo que possar ter longevidade.
Saída de Gabriel Ávalos deixou torcedores do Independiente na bronca
Rodrigo Valle/Getty Images
Para ele, a falta de recursos tem como uma das grandes consequências um atraso em termos estruturais, o que torna o Independiente pouco atrativo a crianças interessadas em jogarem num grande clube.
- A dívida é tão grande que não permite o clube investir na base. Faz muito tempo que o Independiente não revela um jogador de nível internacional, porque não tem o investimento adequado. Habitualmente os jogadores juvenis, que antes iam ao Independiente para mostrar-se, preferem ir a outros clubes da Zona Sul de Buenos Aires que têm mais organização, como Lanús.
- Ou outros clubes de Buenos Aires como o Vélez, que tem uma melhor estrutura do que o Independiente. O Independiente é muito atrasado nesse sentido, não tem recursos econômicos para manter um centro de treinamento de nível e com a infraestrutura adequada. É uma crise estrutural muito grande.
A tradição do Rei de Copas, que venceu todos os campeonatos disputados desde o início da sua história, segue intacta, mas o nível do futebol é incompatível com o tamanho do clube há muito tempo.
- Independiente é um dos clubes com maior tradição, tem sete Libertadores, dois Mundiais, duas Copas Sul-Americanas, mas tem muito, muito tempo que caiu como instituição. Há uns 25 ou 26 anos está sumido numa crise muito grande a nível de gestão, econômico e futebolístico como consequência da situação institucional e econômica do clube. Então um clube que tem sete Copa Libertadores somente conseguiu se classificar para a Libertadores desde 2002 até o presente três vezes. Somente três. As conquistas da Sul-Americanas de 2010 e 2017 foram um deserto de futebol durante esse período da crise - afirma Favio.
Independiente campeão da Libertadores em 1984
- Em 2002, classificou como campeão argentino, depois em 2010 e 2017 como campeão da Sul-Americana. Ou seja, desde 2002, nunca conseguiu vaga na Libertadores via classificação do Campeonato Argentino porque nunca conseguiu ficar entre os três melhores. Isso obviamente demonstra a crise pela qual passa o clube. Quando o clube conseguiu formar bons times, como o de 2017, conduzido por Ariel Holan, se desmantelou muito rapidamente pela necessidade de vender jogadores para pagar dívidas.
Favio Verona e Fábian Rodríguez convergem de que uma mudança radical é necessária para que uma torcida hoje tão carente volte a sorrir. Ambos concordam que o Rojo, heptacampeão da Libertadores, está inserido num negativo ciclo vicioso.
- A torcida tem um nível de exigência que responde à história do clube, mas o clube não tem recursos econômicos para ter um time competitivo. As diretorias fazem dívidas para comprar jogadores que estejam à altura da história do clube, mas esses jogadores não ficam por muito tempo porque o clube não tem os recursos para pagar os salários posteriormente. Isso é uma roda que gira há muito, muito tempo no Independiente - disse Favio.
- Todos esses elementos que estou descrevendo para vocês criaram um coquetel que finalmente explodiu em um clube que hoje, embora seja o maior vencedor da Copa Libertadores da América, só disputou três edições da competição nos últimos 30 anos - encerrou Fabiá.
O Independiente ocupa a sétima colocação do Grupo A do Campeonato Argentino, com 10 pontos em sete jogos. O Instituto de Córdoba lidera a chave com 17 pontos.