ITATIBA1

Cartões corporativos nos clubes: quem usa, o que é comprado e por que escândalos se repetem

Cartões corporativos são utilizados para gastos pessoais de dirigentes em clubes

ge — Futebol · 2026-07-24T11:52:33.000Z

Cartões corporativos são utilizados para gastos pessoais de dirigentes em clubes

Se você acompanha o noticiário do futebol brasileiro é bem provável que nos últimos tempos tenha se deparado com manchetes sobre cartões de crédito corporativos. O que era para ser um simples método de pagamento virou símbolo de má gestão e falta de controle dos recursos dos clubes.

Os escândalos mais recentes envolveram ex-presidentes de Corinthians e São Paulo, que usaram a ferramenta para bancar gastos pessoais com viagens, restaurantes, lojas de grife, charutos, salões de cabeleireiro e várias outras despesas sem qualquer relação com o esporte.

Anos atrás, o cartão corporativo do Cruzeiro pagou até despesas em casa noturna de entretenimento adulto. Basta uma rápida pesquisa na internet para localizar diversos casos de denúncias e investigações em outros clubes brasileiros.

Para entender melhor como esse meio de pagamento é utilizado e fiscalizado, o ge procurou os 20 clubes da Série A. Apenas nove responderam às perguntas da reportagem: Atlético-MG, Corinthians, Coritiba, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo, Vasco e Vitória.

Também foram consultados especialistas em governança e dirigentes de clubes, alguns dos quais preferiram falar em condição de anonimato.

Quase todos convergem num mesmo sentido: num mundo cada vez mais digitalizado, os cartões são necessários e o problema não está no uso deles, mas sim na falta de regramento e fiscalização da utilização.

Quem tem e por qual motivo?

Dentre os nove clubes que responderam aos questionamentos do ge, apenas o Internacional informou que o presidente tem cartão corporativo. De acordo com o Colorado, Alessandro Barcellos utiliza a ferramenta de pagamento para "alimentação, hospedagem, transporte e em alguma emergência para uso institucional". Todas as despesas são justificadas, de acordo com a agremiação.

Os demais clubes disponibilizam cartões para diretores, gerentes, supervisores e profissionais de diferentes áreas, como futebol, base, financeiro, patrimônio e até departamento médico e nutrição (caso do Vitória).

Osmar Stabile, presidente do Corinthians, e Harry Massis, do São Paulo, abriram mão do cartão de crédito após escândalos envolvendo os antecessores.

Ao final desta reportagem, o ge apresenta as respostas detalhadas de cada um dos nove clubes que se manifestaram sobre o assunto.

A maioria utiliza o cartão para despesas em viagens, como transporte, alimentação e gastos emergenciais. Um exemplo são as pizzas, lanches e marmitas que os atletas comem no próprio vestiário após os jogos fora de casa.

Também pagam registros de jogadores, softwares e serviços digitais que não aceitam outro método de pagamento. Nenhum autoriza o uso da ferramenta para bancar compras pessoais.

– O cartão em si não é o problema. O problema é quem se utiliza mal dessa ferramenta – afirmou Washington Fonseca, especialista em Direito Corporativo e compliance.

– É muito importante haver regras quanto ao uso do cartão e limites financeiros para a utilização dessa ferramenta para cada cargo. Também é preciso uma fiscalização do departamento financeiro, que é quem vai fazer o pagamento da fatura. Havendo algum tipo de desvio ou de finalidade não atingida, isso deve ser reportado para o setor de compliance para que ele tome medidas, pode ser uma advertência, o desligamento do profissional ou até providências de ressarcimento na esfera cível e penalização na esfera penal – complementou Fonseca, professor de pós-graduação no IBMEC.

Por que escândalos acontecem?

Especialistas e integrantes de clubes ouvidos pelo ge apontam que não basta a existência de regras internas, mas sim de fiscalização rígida para que as normas de conduta sejam cumpridas.

Corinthians e São Paulo, por exemplo, que enfrentaram escândalos recentes, possuem departamento de compliance e Conselho Fiscal e mesmo assim não conseguiram evitar o mau uso do cartão corporativo.

Somente em dezembro de 2025 foi criada uma política de uso do cartão corporativo no São Paulo.

O caráter político na gestão dos clubes de futebol é apontado como um fator que contribui para esse tipo de desvio, de acordo com fontes ouvidas pela reportagem.

O caso do Corinthians é ilustrativo. Em 2021, quando houve compras pessoais no cartão de Andrés Sanchez, o presidente do Conselho Fiscal era João de Oliveira, advogado do dirigente.

Muitas vezes, diretores, gerentes e outros profissionais que deveriam fiscalizar os cartolas são indicados por eles próprios.

– Uma prática recomendada é o controle duplo ou triplo desse tipo de despesa, para que haja responsabilidade compartilhada. O ideal é que a fiscalização e aprovação não fique exclusivamente na mão de uma única pessoa – opinou Washington Fonseca.

Fontes ouvidas pelo ge em condição de anonimato também apontam que os cartões de crédito representam uma fração muito pequena dos gastos mensais de um clube de elite do Brasil e que, como não se consegue fiscalizar compra a compra, as prioridades acabam sendo as contas maiores.

As faturas costumam ser na casa dos milhares de reais, enquanto as despesas são de dezenas de milhões. Porém, de acordo com especialistas em conformidade, isso não justifica a falta de controle.

Em seu Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF), formulado no fim do ano passado, a CBF recomenda a estruturação e implementação de um Programa de Integridade e Conformidade (Compliance) nos clubes, abrangendo, no mínimo, código de ética e conduta, controles internos e canal de denúncias. Porém, trata-se de uma sugestão, não de uma obrigação.

No ano passado, o Coritiba identificou uma falta de controle nas compras feitas com cartão corporativo. O clube tinha 25 cartões ativos com funcionários de diferentes áreas.

– Quando a gente analisou, encontramos até compras de roupas – contou Pedro Menezes, que até maio foi gerente de Suprimentos e Negócio do Coxa.

A solução encontrada foi contratar os serviços da plataforma Paytrack. Compras de valores menores passaram a ser feitas com recursos dos próprios funcionários, que solicitam reembolso online. Já os gastos maiores são feitos de outra forma:

– Os colaboradores têm uma conta digital. Por exemplo: a pessoa vai viajar e tem estimado um custo de R$ 10 mil. Então, o Coritiba deposita nessa conta digital os R$10 mil, e a pessoa vai utilizando os recursos via pix. Depois, precisa apresentar comprovantes para justificar essas compras – explicou Menezes.

Com isso, o Coxa praticamente aboliu os cartões corporativos. O único que ainda é utilizado fica em posse do departamento financeiro, para compras que não aceitam outro método de pagamento, como serviços por assinatura.

Veja abaixo como cada clube diz utilizar e controlar o cartão de crédito corporativo:

Quem utiliza o cartão corporativo?

– Gerente financeiro e gerente de futebol em viagens (apenas uso emergencial).

Quais despesas podem ser pagas com o cartão de crédito corporativo?

– Assinatura de softwares/sistemas e despesas emergenciais em viagens.

Quem controla/fiscaliza os gastos e como funciona a prestação de contas?

– Departamento financeiro.

Há um limite por compra / fatura?

O clube tem regras/punições pré-definidas sobre eventual uso indevido do cartão?

Quem utiliza o cartão corporativo?

– Departamento de registro de atletas, compras e logística do profissional.

Quais despesas podem ser pagas com o cartão de crédito corporativo?

– Passagem aérea, logística e compras para o clube.

Quem controla/fiscaliza os gastos e como funciona a prestação de contas?

– Chefe do departamento (gerente da área) e financeiro.

Há um limite por compra / fatura?

– Sim, na fatura.

O clube tem regras/punições pré-definidas sobre eventual uso indevido do cartão?

– O clube possui seus órgãos reguladores, e casos aparte são julgados pelo Conselho deliberativo, ética e fiscal

Quem utiliza o cartão corporativo?

– Presidente, CEO e Supervisor do departamento de futebol.

Quais despesas podem ser pagas com o cartão de crédito corporativo?

– No departamento de futebol é a logística: alimentação, hotel, transporte (aluguel de ônibus, táxis, etc), demandas de emergência, despesas médicas ou emergências relacionadas a equipe. Já o CEO usa para despesas do clube, que não tem relação com a presidência e nem com futebol, mas cujo a forma de pagamento somente aceita com cartão de crédito. O presidente utiliza para alimentação, hospedagem, transporte e em alguma emergência para uso institucional. Todas as despesas são justificadas

Quem controla/fiscaliza os gastos e como funciona a prestação de contas?

– O controle e fiscalização são feitos pelo departamento financeiro e contábil. O processo de prestação de contas funciona da seguinte maneira:

Emissão de relatório detalhando as despesas e pagamentos efetuados pelo cartão corporativo, onde deve passar pela aprovação dos aprovadores de despesas do departamento a qual esta vinculado o cartão.

Apresentação de notas e justificativas:: Os responsáveis pelo uso do cartão devem apresentar as notas fiscais e justificativas para cada despesa realizada.

Análise e verificação: O departamento Financeiro analisa e verifica as despesas apresentadas, conferindo se estão de acordo com as políticas e procedimentos internos do clube

Aprovação ou Rejeição: Se as despesas estiverem em conformidade, o Departamento Financeiro aprova a prestação de contas. Caso contrário, solicita esclarecimentos ou rejeita a despesa.

Arquivamento: As notas fiscais e justificativas são arquivadas para fins de auditoria e controle interno.

Há um limite por compra / fatura?

– O limite é do próprio cartão (individual).

O clube tem regras/punições pré-definidas sobre eventual uso indevido do cartão?

– Punição é caso a prestação não seja aprovada a despesa deve ser ressarcida ao clube. O uso inadequado terá sanções estatutárias ou de recursos humanos conforme for a despesa.

Quem utiliza o cartão corporativo?

– Um colaborador do departamento de futebol profissional e um do departamento financeiro. Todas as despesas são fiscalizadas pela Controladoria e pelos gestores das áreas citadas. Cabe ressaltar que nenhum dirigente (estatutário ou profissional) possui cartão corporativo, tampouco têm acesso a ele.

Quais despesas podem ser pagas com o cartão de crédito corporativo?

– No departamento de futebol profissional:

Alimentação em viagens da equipe de futebol profissional;

Hospedagem nas viagens da equipe de futebol profissional;

Demais despesas relacionadas a viagens da equipe profissional;

Aquisição de licenças e pagamento de mensalidades de softwares e aplicativos operacionais utilizados pelas diferentes áreas do departamento, como Análise de Desempenho – a maioria das empresas de tecnologia não aceita outra modalidade de pagamento.

No departamento financeiro:

Aquisição de licenças e pagamento de mensalidades de softwares e aplicativos operacionais utilizados por áreas como Administrativo, Gestão, Clube Social e Back Office, entre outras;

Pagamento de mensalidade de canais esportivos;

Pagamentos pontuais a fornecedores que aceitam exclusivamente cartão de crédito como modalidade de pagamento.

Quem controla/fiscaliza os gastos e como funciona a prestação de contas?

– Todas as comprovações das operações realizadas com os cartões corporativos são de responsabilidade dos dois colaboradores designados, bem como dos gestores dos departamentos de Futebol Profissional e Financeiro. A prestação de contas é feita por meio da apresentação das documentações comprobatórias, que são registradas no sistema integrado de gestão e submetidas às aprovações das áreas de controle. Vale enfatizar que, para uso do cartão corporativo, são necessárias as autorizações do gestor do departamento e do diretor de gestão. As despesas dos cartões ainda são checadas periodicamente por auditoria interna.

– Cabe salientar que as faturas dos cartões corporativos somente são pagas após inserção no sistema integrado de gestão e aprovação integral com base nos critérios listados.

Há um limite por compra / fatura?

– Cada cartão possui limite de crédito definido de acordo com as necessidades operacionais do departamento.

O clube tem regras/punições pré-definidas sobre eventual uso indevido do cartão?

– Os documentos enviados para a prestação de contas são analisados e, em caso de falha ou irregularidade, os valores não comprovados devem ser reembolsados ou descontados do salário do colaborador. Dependendo da gravidade do caso, além do ressarcimento, o colaborador pode sofrer as sanções disciplinares previstas, tais quais advertência e suspensão, ou até mesmo ser demitido.

Quem utiliza o cartão corporativo?

– Gerente Financeiro e Coordenador de Futebol Profissional, com critérios claros para utilização.

Quais despesas podem ser pagas com o cartão de crédito corporativo?

– O cartão em poder do Gerente Financeiro é utilizado exclusivamente para o custeio de softwares e ferramentas de TI que exigem o pagamento somente com esta modalidade, assim como taxas de registro de atleta em caso de urgência solicitada pelo Departamento Jurídico (Registro e Transferência de Atletas). Já o cartão em poder do Coordenador do Futebol Profissional é utilizado para o pagamento de custos logísticos somente em jogos em que o Clube é visitante.

Quem controla/fiscaliza os gastos e como funciona a prestação de contas?

– A fiscalização é feita com o suporte do Departamento de Compliance, com prestação de contas detalhada e envio trimestral das respectivas faturas ao Conselho Fiscal.

Há um limite por compra / fatura?

– Há limite para cada cartão e não por compra.

O clube tem regras/punições pré-definidas sobre eventual uso indevido do cartão?

– Além do Código de Conduta, o clube conta com regras claras: o uso indevido pode resultar em medidas disciplinares, que vão desde advertências até medidas mais severas, conforme a política interna, sendo certo que os colaboradores firmam termo se comprometendo com o uso adequado.

Quem utiliza o cartão corporativo?

– Diretor financeiro e executivo de futebol. O atual presidente não quer fazer uso do cartão corporativo por opção.

Quais despesas podem ser pagas com o cartão de crédito corporativo?

– Despesas relacionadas a logística do futebol profissional, assinaturas de software, e despesas emergenciais, seguindo os processos aprovados pela política de uso de cartão.

Quem controla/fiscaliza os gastos e como funciona a prestação de contas?

– Departamento financeiro e controladoria. Através do recebimento das faturas e comprovantes.

Há um limite por compra / fatura?

– Sim, existe limite por cartão, não por tipo de gasto.

O clube tem regras/punições pré-definidas sobre eventual uso indevido do cartão?

– Sim, o São Paulo Futebol tem um manual de conduta para o uso do cartão corporativo. Eventuais irregularidades serão investigadas e os colaboradores que usarem o cartão indevidamente podem ser punidos.

Quem utiliza o cartão corporativo?

– Gerente Financeiro e CFO têm cartão habilitado. CEO e Presidente do Conselho não têm cartão habilitado;

Quais despesas podem ser pagas com o cartão de crédito corporativo?

– Despesas de registro nas federações e investimentos em ativo imobilizado a serem parcelados.

Quem controla/fiscaliza os gastos e como funciona a prestação de contas?

– CEO e CFO no comitê de caixa e aprovação via sistema para confirmação de orçamento disponível.

Há um limite por compra / fatura?

– Sim, na fatura.

O clube tem regras/punições pré-definidas sobre eventual uso indevido do cartão?

– Sim, previstos no código de conduta e contrato com funcionário.

Quem utiliza o cartão corporativo?

– Patrimônio, Futebol Profissional e Base, Departamento Médico e Nutrição.

Quais despesas podem ser pagas com o cartão de crédito corporativo?

– Despesas operacionais e de consumo.

Quem controla/fiscaliza os gastos e como funciona a prestação de contas?

– Área financeira. Existe uma norma interna e mensalmente existe a obrigação de prestação de conta.

Há um limite por compra / fatura?

O clube tem regras/punições pré-definidas sobre eventual uso indevido do cartão?

Leia no Itatiba1 →