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A primeira fase da Série C do Brasileirão chegou ao fim no dia último sábado (29), com as disputas pela classificação e pela permanência acirradas até o último minuto. Na tabela, diversos casos prometem redesenhar o “mapa das SAFs” das…
ge — Futebol · 2026-09-04T03:12:58.000Z
A primeira fase da Série C do Brasileirão chegou ao fim no dia último sábado (29), com as disputas pela classificação e pela permanência acirradas até o último minuto. Na tabela, diversos casos prometem redesenhar o “mapa das SAFs” das principais divisões do futebol brasileiro.
Nesta temporada, a Série C esteve composta por 9 clubes constituídos como sociedade anônima do futebol (SAF), representando quase metade dos clubes participantes: AD Confiança, Amazonas FC, Botafogo-PB, Brusque FC, Ferroviária-SP, Figueirense FC, Ituano FC, Maringá FC, Inter de Limeira (recém aprovada).
As histórias das SAFs na Série C foram das mais diversas, mas com um bom número de casos positivos. Dos oito classificados para a segunda fase - quando se formam dois grupos quadrangulares - estiveram nada menos que cinco SAFs, justamente nas cinco primeiras posições: O Botafogo-PB se classificou em primeiro lugar, acompanhado, respectivamente, por Brusque FC, Ferroviária-SP e Maringá FC.
Na segunda fase, ficarão duas SAFs em cada grupo, aumentando as chances de acesso para a Série B, aumentando a quantidade de clubes sob o novo modelo na segundona, que já conta com 9 casos em 2026.
A novata Inter de Limeira ficou em 5º lugar, mas é um caso à parte: teve a constituição e venda da sua SAF aprovada há menos de uma semana, adquirida pelo empresário Enrico Ambrogini, junto outras figuras, com os ex-jogadores Roberto Carlos e Ronaldo Nazário.
Na parte negativa, a SAF do Confiança terminou entre os dois rebaixados (novidade desta edição), com somente 13 pontos e na lanterna. O clube sergipano vendeu a sua SAF para o grupo LG2, capitaneado por Rodolfo Landim, ex-presidente do Flamengo.
Dos demais casos, o Ituano escapou do rebaixamento, o Amazonas ficou pelo meio da tabela e o Figueirense fracassou outra vez em se classificar.
Além desses nove clubes, cabe ressaltar, a Série C contou também o catarinense Barra FC, que atua no modelo de sociedade limitada e pertence a um grupo alemão - e escapou do rebaixamento na reta final.
Cinco anos de SAF
As SAFs surgiram no Brasil a partir da promulgação da Lei nº 14.193, 5 de agosto de 2021. O modelo evoluiu rapidamente, chegando a 143 clubes atualmente, de acordo com dados da pesquisa Mapa da Expansão das SAFs no futebol brasileiro (junho 2026), realizada Observatório Social do Futebol.
Esse período foi marcado por diversas polêmicas, especialmente nos clubes mais populares que adotaram o modelo, como Vasco, Botafogo, Atlético-MG e Coritiba. Nas divisões inferiores, casos “bem-sucedidos” (Athletic, Novorizontino) se misturam com “fracassos” significativos (América-RN, Portuguesa-SP) - situações, claro, sempre provisórias.
A transformação de clubes em SAF é um tema recorrente na mídia esportiva brasileira e entre os torcedores. Enquanto muitos clamam pela mudança do modelo jurídico, impulsionados por decepções com o atual modelo associativo, outros, já inseridos no modelo, questionam as escolhas feitas pelos investidores.
Além disso, vale destacar que em apenas 5 anos desde a aprovação da lei (não necessariamente da transformação jurídica dos clubes) algumas dessas SAFs já foram vendidas mais de uma vez, estando atualmente numa segunda gestão.
Mapa da Expansão das SAFs
Não faltam questões para serem discutidas quanto às SAFs que existem no território brasileiro, mas aqui o destaque fica para a série C, que está chegando ao fim e tem um grande número de SAFs.
Vale ressaltar que um novo formato foi aprovado para o Brasileirão Série C no início de 2026, junto com outras diversas mudanças no calendário do futebol brasileiro. Nessa temporada, a mudança vem sendo mais discreta para os participantes da Série C, mas até 2028, o campeonato passará a contar com 28 clubes no total.
Com a novidade, somente dois clubes foram rebaixados esse ano, enquanto seis foram promovidos da série D: ASA de Arapiraca, ABC FC, SE Gama e Uberlândia EC conseguiram a vaga direta, ao alcançarem as semifinais. Nos playoffs, disputados entre os derrotados na quartas-de-final, Goiatuba e Nacional-AM conseguiram as vagas.
Dos seis clubes promovidos, apenas o Uberlândia é uma SAF. Curiosamente, o Gama, o clube mais tradicional do Distrito Federal, é um dos oito casos registrados de SAFs que chegaram a ser constituídas, mas foram extintas (por razões diversas). O clube hoje tem a sua gestão concedida para um grupo privado, mas ainda não restabeleceu uma SAF.
A mudança do formato da base da pirâmide do futebol brasileiro está explicada detalhadamente em outro texto desta coluna, mas aqui vamos nos ater ao fato de que futuramente teremos mais clubes na terceira divisão e ao que isso significa para as SAFs.
Por razões lógicas, o crescimento contínuo do número de SAFs no território brasileiro é uma das causas do recorde de clubes do modelo nessa divisão: quanto mais SAFs no país, mais SAFs em todos os campeonatos.
Um recorte que demonstra esse crescimento é o aumento do número de SAFs a cada ano desde 2022: 32 em 2022; 27 em 2023; 33 em 2024; 34 em 2025; 13 em 2026 (até julho). Esses dados são fornecidos pelo Observatório Social do Futebol a partir do gráfico “Expansão das SAFs no futebol brasileiro”, que permite a visualização do crescimento anual e mensal do modelo no país.
Expansão das SAFs
Mesmo sem considerar o surgimento de novas SAFs no país, pode-se imaginar o aumento do número de SAFs na Série C nos próximos 2 anos, devido ao novo formato do campeonato. Como a Série D está recheada de SAFs, e a mobilidade agora é maior, é provável que muitas consigam o acesso nos próximos anos.
Com isso, vale olhar o desempenho das Sociedades Anônimas na “divisão de entrada” do futebol brasileiro. Em 2026, 21 SAFs disputaram a Série D, mas apenas o Uberlândia conseguiu o acesso.
Diferentemente do que ocorreu na Série C, o desempenho das SAFs na Série D não foi tão positivo. Das 21 SAFs, apenas 8 alcançaram a terceira fase (32 avos), critério que garante a participação na temporada seguinte (também uma novidade da CBF iniciada nesta temporada).
Pode ser um pouco difícil de encontrar dados sobre as SAFs brasileiras e de acompanhar o surgimento das novas, além de saber quais competições cada uma disputa. No escopo da pesquisa do Observatório Social do Futebol, foi lançado o Almanaque das SAFs, que reúne todas os casos encontrados no período, apresentando seus principais dados em uma espécie de catálogo, facilitando a visualização de todas as informações.
Almanaque das SAFs, do Observatório Social do Futebol
Todos esses dados demonstram a quantidade de SAFs nas séries C e D do campeonato nacional, mas mostram que seus desempenhos não são necessariamente positivos e que os clubes não são magicamente melhorados pela adoção do modelo.
Portanto, é possível que tenhamos cada vez mais SAFs na Série C, mas não necessariamente isso acontecerá a partir do desempenho dos clubes da Série D. Talvez o aumento aconteça somente pela transformação ou surgimento de novos clubes do modelo, visto que o desempenho dos clubes da divisão de acesso não foi tão positivo.
Vale ressaltar que, das 143 SAFs existentes até o momento, um grande maioria é constituída de clubes que não estão sequer na primeira divisão estadual (portanto, não alcançarão a Série D em breve) e muitas outras não estão inscritas em competições profissionais (são clubes de formação).
O “Painel das SAFs” é um projeto de pesquisa em desenvolvimento no âmbito do Observatório Social do Futebol, realizado pelo autor do blog, atualmente pesquisador pós-doutorado no PPGCom/Uerj, em parceria com Jonathan Ferreira, doutorando em Geografia pela Unesp-Rio Claro; Vinícius Alvim, doutorando em Sociologia pela Unicamp e Victor Formaggini, formado em Ciências Sociais e mestrando em Educação Física pela Unicamp; Isabella Topfer e Matheus Espíndola, graduandos de jornalismo pela UERJ; Murilo Ávila e Rafael Sabino, graduandos de economia pela UERJ.
* Texto elaborado e redigido em parceria com Isabella Topfer, sob supervisão de Irlan Simões