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Cientista político Juliano Domingues analisa cenário das eleições em Pernambuco
G1 — Brasil · 2026-09-04T06:00:00.000Z
Cientista político Juliano Domingues analisa cenário das eleições em Pernambuco
Daqui a um mês, serão abertos os locais de votação para o 1º turno das eleições 2026, no dia 4 de outubro. Em Pernambuco, as primeiras semanas de corrida eleitoral dos postulantes ao governo do estado foram marcadas por articulações políticas e uma intensa batalha judicial, incluindo trocas de acusações sobre "gabinetes do ódio" e panfletos apócrifos (saiba mais abaixo).
A disputa é polarizada pela governadora e candidata à reeleição, Raquel Lyra (PSD), que lidera as pesquisas, e pelo ex-prefeito do Recife João Campos (PSB), que, nas últimas sondagens, aparece em segundo lugar. Pelos números, há possibilidade de o pleito ser decidido logo na primeira rodada de votação (veja vídeo acima).
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Apesar de ter oito candidatos concorrendo ao comando do Palácio do Campos das Princesas, as candidaturas de Raquel Lyra e João Campos somam quase todas as intenções de voto nas pesquisas e promovem um embate direto. Para o cientista político Juliano Domingues, a disputa já tem "cara de 2º turno".
"É um campanha de 1º turno que tem cara de 2º. Isso por conta dessa concentração de intenção de voto entre duas das principais candidaturas. Então, existe, sim, a possibilidade da eleição ser definida no 1º turno justamente pelo fato de as intenções de voto estarem concentradas", afirma.
Em toda a história de Pernambuco, desde a redemocratização com as eleições estaduais de 1982, houve 2º turno em apenas duas ocasiões: em 2006 e em 2022. Em outras sete disputas, o resultado foi definido na primeira etapa. As eleições de 1982 e 1986 foram realizadas antes da obrigatoriedade de 2º turno, quando nenhum candidato ultrapassou os 50% de votos válidos.
Para Juliano Domingues, as chances de a disputa de 2026 ir ao 2º turno se devem ao menor potencial de crescimento das candidaturas, que aparecem entre 1% e 2% nas pesquisas. "Na medida em que essas candidaturas conseguem abarcar uma fatia maior do eleitorado, diminuem então as chances da eleição ser decidida no 1º turno", afirmou.
O mapa das pesquisas
O g1 reuniu as duas pesquisas publicadas pelos institutos Datafolha e Quaest após 16 de agosto, data oficial do início da campanha eleitoral de 2026. Em ambas, a governadora e candidata à reeleição Raquel Lyra lidera com vantagem acima da margem de erro.
Pesquisas para o governo de Pernambuco - 1º turno 2026
Na sondagem da Datafolha, divulgada em 21 de agosto, a vantagem de Raquel Lyra sobre João Campos é de sete pontos percentuais no 1º turno: 47% x 40%. Já na pesquisa Quaest, de 25 de agosto, a distância é de oito pontos percentuais em favor da governadora no 1º turno: 44% x 36%.
Nos dois institutos, o percentual de Raquel Lyra supera a soma de todos os adversários. De acordo com o cientista político Juliano Domingues, esse número é importante porque uma eleição é decidida em fase única quando um candidato reúne sozinho a maioria dos votos válidos, que é quando votos brancos, nulos e a abstenção não são contabilizados.
"Raquel aparece com 52% dos votos válidos, apenas dois pontos acima do necessário. Considerando a margem de erro de três pontos, ela tanto pode estar acima quanto abaixo dos 50%. As candidaturas menores somam cerca de 6% dos votos válidos. Se crescerem alguns pontos, poderão levar a eleição ao 2º turno. Além disso, 25% dos entrevistados não mencionam espontaneamente um candidato, embora a indecisão caia para 4% quando os nomes são apresentados. Portanto, o 1º turno está no horizonte, mas depende da capacidade de Raquel de conservar sua votação atual. A questão central do último mês será menos saber quem lidera e mais saber se a governadora permanecerá acima dos 50% dos votos válidos", explica.
Os dois candidatos também aparecem com índices próximos no requisito "rejeição". No Datafolha de 21 de agosto, 32% dos entrevistados afirmaram que "não votariam de jeito nenhum" em João Campos e 29% disseram o mesmo em relação a Raquel Lyra. Já na Quaest de 25 de agosto, a diferença entre a rejeição dos candidatos é maior: 40% dos entrevistados afirmaram que "conhecem e não votam" em João Campos e 34% disseram que "conhecem e não votam" em Raquel Lyra.
Os institutos de pesquisa também avaliaram no período a avaliação do governo de Raquel Lyra. Tanto no Datafolha, como na Quaest, a candidata à reeleição aparece com altos índices de aprovação. No Datafolha, 50% avaliaram a gestão da governadora como boa ou ótima, 30% como regular e 18% como ruim ou péssimo. A mesma pesquisa mostrou que 66% aprovam o trabalho de Raquel Lyra como governadora e 29% desaprovam.
Na mais recente pesquisa Quaest, 46% dos entrevistados avaliaram o governo de Raquel como positivo, 33% como negativo e 16% como regular. Ainda de acordo com este instituto, 68% aprovam a gestão e 24% desaprovam.
Estratégia e propaganda eleitoral
Raquel Lyra (PSD) e João Campos (PSB)
Com uma disputa altamente polarizada, Raquel Lyra e João Campos dedicaram o início da campanha ao material nas redes sociais. Nas redes sociais, João Campos é o postulante com o maior número de seguidores entre os candidatos ao governo estadual neste ano.
Na soma de Instagram, Facebook, X, TikTok e YouTube, o candidato do PSB tem 4,4 milhões de seguidores contra 2,8 milhões da governadora e candidata à reeleição. No duelo de narrativas digitais, Raquel Lyra tem apostado no uso do termo "mainha", enquanto João Campos tem se associado fortemente ao presidente Lula (PT), candidato à reeleição.
Para o cientista político Juliano Domingues, Raquel Lyra tem apostado em uma ampliação de sua base eleitoral, sem se comprometer na polarização nacional entre lulistas e bolsonaristas.
"[Raquel Lyra] procura explorar sua condição de governadora, a aprovação da gestão e sua força no interior, ao mesmo tempo que evita uma vinculação exclusiva a um dos polos da eleição presidencial. [...] Sua estratégia tem sido eficiente porque combina consolidação de uma base com penetração no campo adversário", afirma.
Em relação a João Campos, Domingues observa que a tentativa de vinculação ao presidente Lula ainda encontra limitações.
"João lidera no Datafolha entre os petistas por 52% a 37% e entre os eleitores que preferem o PT por 59% a 32%. Isso demonstra que a associação com Lula produz efeitos concretos. Entretanto, Raquel mantém uma penetração expressiva nesse campo: recebe o voto de 37% dos que se consideram petistas e de 32% dos que preferem o PT. Portanto, João lidera o eleitorado lulista, mas não o monopoliza", analisa.
Na mídia tradicional, o guia eleitoral no rádio e na TV começou no dia 28 de agosto. O ex-prefeito do Recife tem mais tempo fixo no horário eleitoral e o maior número de inserções (comerciais), seguido de perto pela governadora.
O tempo da candidata foi alvo de uma disputa no Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE). A Federação PSDB - Cidadania, que declarou apoio à Raquel Lyra em convenção estadual, teve o apoio anulado pelo diretório nacional.
O imbróglio foi resolvido às vésperas do início da propaganda no rádio e na TV com decisão do TRE-PE por manter a federação na coligação da candidata do PSD. A presença da federação é fundamental para definir a quantidade de tempo de propaganda eleitoral a que cada candidato tem direito.
Neste ano, apenas as candidaturas de Ivan Moraes (PSOL), João Campos e Raquel Lyra possuem o direito à propaganda no rádio e na TV, já que suas coligações partidárias conseguiram superar a cláusula de barreira determinada pela Justiça Eleitoral. Na estreia na TV, os candidatos apostaram em estratégias diferentes na busca pela atenção do público.
Batalha judicial e panfletos apócrifos
Desde o início oficial da campanha eleitoral, João Campos e Raquel Lyra travam uma intensa disputa judicial no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O centro do embate entre as duas candidaturas é a suspeita de um "gabinete do ódio" que teria uma estrutura de ataques aos adversários.
As duas candidaturas afirmam ser alvo de "gabinetes do ódio" e de ações coordenadas de "milícias digitais". De acordo com o TRE, pelo menos duas ações cautelares relacionadas à atuação de grupos nas redes sociais foram abertas. Segundo o tribunal, os dois processos têm como objetivo a "produção e a preservação de provas" e tramitam em segredo de Justiça.
No fim de agosto, a equipe jurídica da Frente Popular de Pernambuco, coligação de João Campos, entrou com uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) junto ao TRE para investigar suspeitas de irregularidades que envolvem abuso de poder político e abuso de poder econômico. O documento, disponível na plataforma de consulta pública na Justiça Eleitoral na internet, possui mais de 500 páginas.
Em nota, a campanha da governadora candidata à reeleição Raquel Lyra rebateu as acusações feitas pelo adversário. No texto, a coligação Pernambuco de Coração afirma que, "a poucas semanas da eleição, o PSB continua usando suas velhas práticas, trocando o debate de propostas por uma coletiva de acusações".
Além disso, a campanha de Raquel Lyra denunciou a divulgação de cartazes apócrifos que a acusavam de ter matado o marido, o empresário Fernando Lucena, para ganhar a eleição de 2022. Ela registrou um boletim de ocorrência, segundo nota da coligação Pernambuco de Coração. Fernando morreu no dia da votação do turno da eleição após passar mal na casa onde morava, em Caruaru.
"Em um dos cartazes, a imagem de Raquel aparece acompanhada da frase 'ela matou o marido para ganhar a eleição'. Em outro, a governadora é retratada ao lado de Elize Matsunaga e Flordelis, sob a expressão 'matadoras de maridos'", afirmou a chapa da candidata na nota.
Em nota, a coligação Frente Popular de Pernambuco, de João Campos, repudiou o conteúdo divulgado pelos cartazes e disse ter acionado a Justiça Eleitoral, por meio do Ministério Público Eleitoral, para requerer a imediata investigação do caso. O ex-prefeito do Recife se manifestou sobre o caso através de um vídeo publicado no Instagram.
Para o cientista político Juliano Domingues, o acirramento da disputa provoca a extensão do embate para além da disputa de propostas:
"A judicialização é esperada em uma eleição competitiva, especialmente quando as campanhas disputam não apenas votos, mas também a legitimidade do adversário. Os instrumentos jurídicos fazem parte da democracia e são necessários diante de possíveis irregularidades. O problema começa quando o debate eleitoral é progressivamente substituído por denúncias, representações e acusações recíprocas. Nesse caso, a campanha corre o risco de deixar em segundo plano as diferenças entre projetos de governo", disse o professor.
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