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‘Ranking’ de alunas: entenda o que é objetificação sexual e como ela aparece na internet
G1 — Brasil · 2026-09-04T10:12:27.000Z
‘Ranking’ de alunas: entenda o que é objetificação sexual e como ela aparece na internet
Conceitos como red pill e misoginia crescem nos debates da internet e em discursos de ódio contra as mulheres. Outro termo ganhou repercussão recentemente em Presidente Prudente (SP), após estudantes de uma universidade privada serem vítimas de "objetificação sexual".
Isso porque imagens de estudantes retiradas de redes sociais, sem autorização, e distribuídas em um grupo fechado de aplicativo de mensagens, foram utilizadas em um “ranking” de termos de teor sexual e depreciativo. O caso foi divulgado em 21 de agosto deste ano.
Entre os comentários ofensivos e classificações, havia termos como "deliciosíssima", "comível" e "arrebentaria". No grupo de mensagens, diversos alunos faziam comentários a respeito da lista. "Tirei as lésbicas e as gordas", disse um deles.
Ao g1, a Polícia Civil informou na quarta-feira (2) que, até o momento, 12 boletins de ocorrência foram registrados, envolvendo 16 vítimas, cujos relatos estão sendo analisados pela equipe responsável pela apuração dos fatos.
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Afinal, o que é objetificação sexual?
Elaine Rampazo, presidente da Comissão sobre Crimes Sexuais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), descreve que a objetificação sexual ocorre quando alguém trata uma pessoa apenas como “um mero objeto de desejo, e não como um ser humano com todas as suas capacidades e sentimentos”.
“O ranking sexual é o maior exemplo de objetificação sexual, pois os agentes utilizaram fotos das mulheres, desconsiderando toda a humanidade delas, agindo como se elas fossem apenas objeto de desejo deles”, aponta a especialista.
Diferentemente do assédio sexual, em que o crime ocorre a partir de uma posição de hierarquia do agente causador sobre a vítima, e da sexualização, quando uma pessoa tem atributos ou atitudes ampliadas com o intuito de dar um caráter sexual àquilo que originalmente não é sexual, a objetificação desumaniza a pessoa.
“O ser humano é totalmente desconsiderado, sendo apenas um instrumento de utilidade sexual”, alerta Elaine Rampazo.
Herança histórica de misoginia
A psicóloga Isadora Zambrano reforça como a internet pode facilitar a produção e o compartilhamento de conteúdos misóginos, mesmo que tais ideias já estejam presentes na sociedade há muito tempo.
“Em grupo, esse comportamento é reforçado por um efeito de validação mútua. Além disso, o distanciamento oferecido pela tela dá a ilusão de anonimato e impunidade”, explica.
Situações assim podem ser acompanhadas por justificativas como “era só uma brincadeira” ou “todo mundo fez” pelo autor ou autores da objetificação.
“A frase ‘era só uma brincadeira’ coloca a vítima em uma posição de invalidação, pois desqualifica os sentimentos dela em relação ao desrespeito sentido e vivenciado, como se a situação não devesse ser levada a sério”, afirma a psicóloga.
Já no caso da justificativa de que “todo mundo fez”, Isadora afirma que o termo se aproveita da herança histórica e da presença estrutural da misoginia: “Pois a própria normalização desse comportamento acaba funcionando como justificativa em si mesma.”
Isadora se formou em psicologia na mesma universidade em que a situação constrangedora ocorreu. “Como ex-aluna, sei que a faculdade aborda o tema em palestras e matérias, mas isso não tem sido suficiente para minimizar esses comportamentos. É necessário ter protocolos claros que garantam punições efetivas para esse tipo de conduta.”
No entanto, até o momento, a objetificação sexual, por si só, não é considerada crime, segundo a advogada especialista Elaine Rampazo. “Porém, o que é feito com isso pode, sim, ser considerado crime.”
Quando pode ser considerado crime?
A presidente da Comissão sobre Crimes Sexuais da OAB afirma que, se o agente compartilha imagens não consentidas dessa pessoa e essas imagens contêm sexo, nudez, pornografia ou até caráter libidinoso, tratando-a como objeto de desejo:
Se não houver nudez, sexo e pornografia, e as imagens da vítima forem utilizadas pelo agente com conotação sexual, para satisfazer desejos sexuais seus e/ou de terceiros sem consentimento:
“A diferença é o consentimento. Não é porque uma pessoa manda voluntariamente um 'nude' para alguém que essa pessoa pode compartilhar com terceiros”, reforça a especialista.
Além disso, Elaine Rampazo aponta que o fato de uma pessoa ter fotos na internet, para um determinado contexto, não autoriza outras a utilizá-las de modo diverso: “Principalmente, no intuito de satisfazer desejo sexual.”
Já para quem presenciar esse tipo de situação, a orientação é, em vez de compartilhar ou simplesmente ignorar, como no caso do ranking sexual sofrido pelas alunas, denunciar o fato.
“Ele deve informar a vítima e as autoridades policiais para que o crime seja adequadamente apurado. Lembrando que quem compartilha também pode sofrer as consequências”, completa.
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O caso está sendo investigado pela Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Presidente Prudente. Segundo a Polícia Civil, as diligências investigativas prosseguem com a finalidade de reunir elementos que contribuam para o completo esclarecimento do caso.
Até a última atualização desta reportagem, não havia previsão para o início das oitivas e depoimentos. As autoridades reforçaram que, por se tratar de investigação em curso, demais informações não poderão ser divulgadas neste momento, a fim de não prejudicar os trabalhos policiais.
Em nota oficial, a Universidade do Oeste Paulista (Unoeste) informou que abriu uma apuração interna prioritária para identificar os autores da lista e aplicar as punições disciplinares previstas no regimento da instituição.
“A Unoeste repudia qualquer forma de exposição, assédio, constrangimento ou desrespeito à dignidade. A instituição está acolhendo as acadêmicas envolvidas e reforça a importância de não compartilhar o conteúdo para não ampliar os danos às vítimas”, informou a universidade em nota.
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