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Caminho de Moisés: entenda fenômeno que 'abre' mar em Maragogi (AL)

Caminho de Moisés: entenda fenômeno que 'abre' mar em Maragogi (AL)

G1 — Brasil · 2026-09-06T07:00:01.000Z

Caminho de Moisés: entenda fenômeno que 'abre' mar em Maragogi (AL)

Em Maragogi, no Litoral Norte de Alagoas, uma faixa de areia aparece no meio do mar durante a maré baixa e desaparece poucas horas depois com a subida da água. O fenômeno forma o chamado Caminho de Moisés, na Praia de Barra Grande, e chama a atenção de turistas que visitam a região.

O nome faz referência à passagem bíblica em que Moisés ergue o cajado e o mar se abre para a passagem do povo. Em Maragogi, porém, o efeito é provocado pela dinâmica natural das marés e pela presença de um banco de areia.

“É contemplar aquele mar maravilhoso à sua frente e, à medida que a maré vai baixando, ver surgir um caminho, uma faixa de areia branquinha, cercada por diferentes tons de azul dos dois lados”, descreve a guia de turismo Juliana Alves.

Juliana trabalha na área há 27 anos e conta que o local ganhou o apelido durante a pandemia de Covid-19, em referência ao relato bíblico em que o mar se abre para a travessia de Moisés e de seu povo. “Popularmente, por meio de pescadores, guias e moradores locais, esse nome ficou conhecido”, explicou ao g1.

O banco de areia tem entre dois e três quilômetros de extensão e fica em uma praia pública, com acesso gratuito. Para garantir um passeio seguro e vislumbrar o caminho, é preciso planejamento.

Dicas para visitar o Caminho de Moisés:

Consulte a tábua de marés: O ideal é que a maré esteja bem baixa, preferencialmente entre 0,0 e 0,2 metro.

Atenção ao relógio: Comece a caminhada com antecedência em relação ao ponto mais baixo da maré.

Hora de voltar: Retorne, no máximo, 1h30 após a baixa-mar.

O cuidado com o horário é fundamental. Juliana alerta que o avanço da água acontece primeiro na parte mais próxima à praia, cortando o caminho.

“Às vezes, a pessoa está mais para dentro do mar e não percebe que a maré já está enchendo. Ela vai avançando da margem para dentro. Por isso, uma hora ou uma hora e meia depois da maré baixa já é o momento ideal para voltar e não ser surpreendido”, alertou a guia.

Como se forma o Caminho de Moisés?

Caminho de Moisés em Maragogi (AL)

Apesar do nome, a explicação está na dinâmica natural do litoral. Segundo Bruno Ferreira, professor de geografia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e especialista em geomorfologia costeira, o caminho é uma barra arenosa — um depósito de areia que se estende da praia em direção ao mar.

No Litoral Norte de Alagoas, essa formação é favorecida pela presença dos recifes, que também ajudam a formar as famosas piscinas naturais da região. Eles funcionam como barreiras e reduzem a força das ondas.

“Nas áreas protegidas pelos arrecifes, a energia das ondas diminui, a hidrodinâmica perde força e os sedimentos se acumulam, formando essas barras alongadas em direção ao mar”, explicou Bruno.

Na prática, o Caminho de Moisés não "surge" do nada. O banco de areia permanece no local o tempo todo, mas fica submerso durante a maré alta. Conforme o nível do mar diminui, a areia reaparece, criando a ilusão de que o mar está se abrindo.

🌖Influência da lua e da maré baixa

Caminho de Moisés é resultado da combinação entre a existência de um banco de areia, a ação das ondas e a variação das marés.

A lua tem papel importante no fenômeno, pois sua atração gravitacional influencia as marés. Os melhores momentos para observar o caminho são durante as chamadas marés de sizígia, quando há maior variação no nível do mar.

“Nesses ciclos, a maré pode chegar a zero ou muito próximo disso. A barra arenosa aflora totalmente e o tempo de visitação aumenta expressivamente”, detalhou o professor.

Essas marés ocorrem nos períodos de lua nova e lua cheia. Já nas chamadas marés de quadratura (quartos crescente e minguante), a diferença entre a maré alta e a baixa é menor, fazendo com que parte do banco de areia continue coberta pela água.

🏝️Preservação do banco de areia

Faixa de areia em Maragogi.

Mesmo parecendo fixo na paisagem, o Caminho de Moisés está em constante transformação. Bancos de areia são formações dinâmicas, moldadas pelo vento, ondas e correntes, e podem mudar de formato em períodos curtos.

A interferência humana, no entanto, pode acelerar alterações negativas. Segundo o especialista da Ufal, a visitação intensa sem controle, a ocupação inadequada da faixa de praia e intervenções em rios que transportam sedimentos podem alterar o equilíbrio natural.

Em um cenário de perda intensa de areia, o Caminho de Moisés poderia diminuir e até deixar de apresentar as condições atuais de visitação.

“O Caminho de Moisés pode continuar sendo um ponto turístico bonito e atrativo, mas sua manutenção na paisagem necessita de respeito aos processos naturais e às áreas que fornecem essas areias”, disse Bruno.

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