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Sentir a música, ‘ver’ o palco pelo rádio e fugir do barulho: como funciona a acessibilidade no Rock in Rio

Rock in Rio 2026 conta com serviços de acessibilidade para cegos e surdos

G1 — Brasil · 2026-09-06T08:00:00.000Z

Rock in Rio 2026 conta com serviços de acessibilidade para cegos e surdos

O Rock in Rio 2026 contará com uma série de recursos de acessibilidade voltados ao público de pessoas com deficiência visual, auditiva e com autismo. As iniciativas incluem audiodescrição, interpretação em Libras, experiências táteis para percepção da música, kits sensoriais e uma sala preparada para acolher visitantes em situações de sobrecarga sensorial.

A operação destinada às pessoas cegas e surdas é coordenada por uma empresa especializada em acessibilidade cultural e audiovisual que atua no festival desde 2018.

Confira mais informações sobre o Rock in Rio

Para o público com deficiência visual, o festival disponibilizará audiodescrição nos palcos Mundo, Sunset e Favela. Os interessados devem procurar a Central de Acessibilidade para receber uma pulseira que garante acesso ao serviço.

“As pessoas recebem um radinho e, por meio dele, acompanham a descrição do que acontece no palco. Quantos cantores há, o que estão fazendo. A cada show, eles falam tudo o que está acontecendo”, explica Ana Motta, CEO da All Dub.

Os profissionais responsáveis pela audiodescrição narram elementos visuais da apresentação, como entrada dos artistas, figurinos, cenários, iluminação, efeitos especiais e movimentação dos músicos. O objetivo é permitir que pessoas que não enxergam ou tem baixa visão acompanhem aspectos do espetáculo que normalmente dependem da observação visual.

"Eu narro o que está acontecendo. Narrações que não atrapalham o que está acontecendo sem intervir na música. Detalhes da roupa, da dança, detalhes dele ter jogado uma baqueta e o público gritou. Isso faz a diferença", contou a audiodescritora Ana Paula Rodrigues.

Equipamentos usados no serviço de audiodescrição no Rock in Rio

Cristina Boeckel/ g1

O analista de sistemas Sidney Tobias é fã de festivais, onde ele costuma conhecer bandas novas e acompanhar as que já conhece. No sábado (5), ele esteve na Cidade do Rock para ver o show do Sepultura. Ele usa o serviço de audiodescrição para acompanhar melhor as apresentações.

“Todo show tem muita movimentação de palco, além da identidade visual da banda ou do artista. Sem a audiodescrição eu não teria essa informação. Para mim, não só curtir o som, mas também entender a movimentação de palco e o trabalho do artista, só com a audiodescrição”, contou Sidney.

O dia de festival foi marcado por uma chuva forte. A água atrapalhou o uso dos equipamentos. Ainda assim, Sidney não ficou sem o serviço. A profissional se sentou ao lado dele e foi comentando o que acontecia durante o show.

Durante chuva intensa na Cidade do Rock, audiodescritora narra o que ocorre no palco ao lado de deficiente visual

Cristina Boeckel/ g1

Sentir a música

Para o público com surdez, o festival oferece diferentes formas de acesso à experiência musical. Uma delas é o projeto “Sinta o Som”. Nesse serviço, a pessoa informa previamente qual apresentação deseja acompanhar e tem a oportunidade de vivenciar o show por meio das vibrações sonoras.

“O surdo chega à Central de Acessibilidade e informa qual é o cantor preferido. Ele coloca o nome em uma lista e, cerca de meia hora antes do show, retorna ao local, encontra um intérprete de Libras e é levado para uma área próxima ao palco. Ali, pode sentir a música a partir de uma caixa de som gigante. O intérprete o acompanha e oferece suporte durante toda a experiência”, afirma Ana.

Além da proximidade com as caixas de som, os participantes utilizam um colete sensorial desenvolvido para ampliar a percepção física da música. O serviço tem vagas limitadas por dia.

Colete sensorial que será usado no Rock in Rio

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Thiago Lima, intérprete de Libras, conta que estuda a obra das bandas que interpretará no Rock in Rio antes de show

Outro recurso já conhecido do público é a presença de intérpretes de Libras nos telões dos três principais palcos do festival. A tradução acompanha, em tempo real, as falas e apresentações dos artistas.

Nesta edição, o serviço será realizado por uma equipe de 16 intérpretes que se revezam ao longo da programação. O trabalho exige uma preparação extensa antes do início dos shows.

Os profissionais estudam repertórios, letras, estilo dos artistas, referências culturais e características das apresentações para adaptar o conteúdo à Língua Brasileira de Sinais. A equipe também conta com tradutores e intérpretes capazes de atuar em idiomas como inglês, espanhol e mandarim.

O intérprete Thiago Lima atua nesta edição do Rock in Rio tanto no "Sinta o Som" como na interpretação nos palcos.

"A expressão contribui muito, faz parte dos parâmetros da Libras. O fato de você sentar estudar, se preparar, faz grande diferença. E ser você. Quando se faz o que se ama, faz toda a diferença", disse.

Parte dos intérpretes de Libras que atuam no Rock in Rio

Recursos para pessoas autistas

Entre as novidades voltadas ao público com autismo estão os kits sensoriais, compostos por abafador de ruído, óculos para redução de estímulos visuais e luminosos, além de spinner e stim toy, utilizados como instrumentos de estímulo tátil e auxílio à autorregulação.

Os itens podem ajudar a reduzir os impactos provocados pelo volume do som, pela iluminação intensa e pela grande concentração de pessoas, características comuns em festivais de grande porte.

Segundo os organizadores, a recomendação é que cada visitante leve os recursos que já utiliza em seu dia a dia. Os kits oferecidos pelo evento funcionam como uma alternativa de apoio e estarão sujeitos à disponibilidade.

Para acessar os recursos de acessibilidade, é necessário realizar identificação junto ao festival. No caso das pessoas com autismo, será exigida a apresentação da Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Ciptea) ou de laudo médico para obtenção da pulseira oficial de identificação. De acordo com a organização, cordões adquiridos fora do evento não substituem essa comprovação.

Rock in Rio tem sala sensorial para pessoas com autismo

O Rock in Rio também contará com uma sala sensorial destinada ao acolhimento em momentos de crise ou sobrecarga sensorial.

O espaço terá redução de estímulos sonoros e luminosos e contará com a presença de terapeutas ocupacionais. A proposta é oferecer um ambiente mais tranquilo para que a pessoa possa se reorganizar antes de retornar às atividades do festival.

Segundo Guilherme de Almeida, presidente da Autistas Brasil, a principal inovação é incorporar ao planejamento do evento a perspectiva de quem vive a experiência sendo do espectro autista.

“O importante é transformar a escuta das pessoas autistas em soluções concretas”, afirmou Almeida.

O Rock in Rio será ainda o primeiro festival a receber o Selo “Todos Nós”, criado pela Autistas Brasil para reconhecer instituições que adotam práticas inclusivas. Segundo a entidade, a iniciativa busca reforçar a importância de garantir não apenas o acesso, mas também a permanência e a participação deste público em grandes eventos culturais.

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