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O nome de Alejandro Betancourt é familiar para muitos venezuelanos, pois ele está vinculado a várias controvérsias empresariais ocorridas nos últimos 15 anos
G1 — Mundo · 2026-09-06T10:39:57.000Z
O nome de Alejandro Betancourt é familiar para muitos venezuelanos, pois ele está vinculado a várias controvérsias empresariais ocorridas nos últimos 15 anos
Daniel Arce López/BBC
A polêmica em torno do pacto petrolífero com a Venezuela anunciado pelo presidente americano, Donald Trump, na sexta-feira (28/8) só aumenta à medida que surgem novos detalhes.
Trump qualificou o acordo como "o maior da história".
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Além de todas as dúvidas sobre a legalidade da transferência para os Estados Unidos do controle majoritário de 17 jazidas, que abrigam 21,5% das reservas comprovadas de petróleo da Venezuela (o equivalente a cerca de 65 bilhões de barris), soma-se agora a surpresa gerada pela empresa que estará a cargo da sua exploração.
Contra tudo o que se poderia esperar em uma operação desta envergadura, a lista de participantes não inclui gigantes do setor, como a ExxonMobil, ConocoPhillips ou a BP.
No seu lugar, figura a empresa North American Blue Energy Partners (Nabep), registrada em Barbados.
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Existem poucas informações públicas sobre a companhia, que não está presente em outros mercados petroleiros. Mas o que mais chamou a atenção foi o nome do seu diretor.
Alejandro Betancourt López é um empresário venezuelano. Seus negócios milionários com o governo do país, desde os tempos do ex-presidente Hugo Chávez (1954-2013), geraram manchetes e investigações judiciais em pelo menos cinco países, ao longo dos últimos 15 anos.
"A Venezuela conta com enormes recursos naturais, um povo trabalhador e um potencial inexplorado", declarou Betancourt no comunicado em que confirma a participação da sua empresa no acordo.
"Esta transação irá liberar esse potencial, para grande benefício de venezuelanos e norte-americanos", prosseguiu ele.
No comunicado, Betancourt também anunciou que o governo dos Estados Unidos ficará com 35% das ações da Nabep.
Por outro lado, Washington defende o sócio escolhido, afirmando que ele já comprovou ser confiável.
"Nicolás Maduro teria permanecido no poder, não fosse por ele", declarou uma autoridade americana em condição de anonimato ao portal jornalístico Axios.
Betancourt e seus associados obtiveram contratos milionários durante a crise de eletricidade vivida pela Venezuela em 2009
PEDRO RANCES MATTEY/AFP via Getty Images (BBC)
Em entrevista coletiva no palácio de Miraflores (sede do governo da Venezuela), o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, defendeu a escolha de Betancourt como sócio para o acordo.
Ele destacou que se trata, atualmente, do segundo maior produtor privado de petróleo da Venezuela, atrás apenas da Chevron.
"Nos negócios, quando você escolhe um sócio, não se trata de alguém que diga o que é correto, mas sim de quem tenha demonstrado sua capacidade de oferecer resultados", segundo Wright.
"A Nabep demonstrou uma trajetória de grande sucesso na produção de grandes volumes de petróleo na Venezuela."
Já a presidente em exercício do país, Delcy Rodríguez, afirmou que a empresa de Betancourt "produziu na Venezuela, mesmo com sanções muito rígidas" e destacou o fato de que o associado dos Estados Unidos é venezuelano.
Sobre as acusações de corrupção que recaem sobre o empresário, Rodríguez destacou que, "na Venezuela, ele foi absolvido há anos" e que "não há processo nos Estados Unidos".
"Muitas vezes, uma pessoa é julgada na imprensa antes dos tribunais", concluiu a presidente.
Leopoldo Alejandro Betancourt López nasceu na capital venezuelana, Caracas, em fevereiro de 1980, em uma família de classe média.
Ele é economista formado na Universidade de Suffolk, no Estado americano de Massachusetts, segundo o perfil publicado na página do fundo O'Hara Financial. O fundo foi criado por ele para administrar sua fortuna, estimada por órgãos da imprensa internacional em cerca de US$ 2,6 bilhões (cerca de R$ 13,3 bilhões).
No seu currículo, Betancourt atribui seu sucesso ao seu "espírito empreendedor". Mas jornalistas venezuelanos que acompanham seus passos há anos afirmam que tudo começou com suas conexões estabelecidas nas aulas do Instituto Cumbres de Caracas, um colégio religioso particular, localizado na zona leste da capital venezuelana.
"Ele estudou com alguns dos seus futuros sócios, sobretudo com Javier Alvarado Pardi, cujo pai viria a ser presidente da empresa Eletricidade de Caracas, vice-ministro de Energia e diretor da Petróleos de Venezuela (PDVSA), durante o governo de Chávez", explica à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) o pesquisador venezuelano Alek Boyd, que acompanha seus passos desde 2011.
"Em 2009, em plena crise de eletricidade, Alvarado apresentou Betancourt e seus sócios ao seu pai, garantindo que eles poderiam resolver o problema. E ele recebeu 12 contratos milionários, mesmo não tendo nenhuma experiência no setor elétrico", destaca o comunicador, residente em Londres.
A empresa de engenharia Derwick Associates, fundada por Betancourt e um de seus primos, recebeu sem licitação, entre 2009 e 2011, 12 contratos do governo venezuelano para construir 11 novas usinas elétricas e um para modificar uma usina já existente, pelo montante de US$ 5 bilhões (cerca de R$ 25,7 bilhões).
A empresa de engenharia elétrica Derwick Associates, fundada por Betancourt, recebeu contratos para construir 11 novas usinas elétricas
Gerard SIOEN/Gamma-Rapho via Getty Images (BBC)
Pouco depois, surgiria o apelido que designaria a ele e aos seus associados no país.
"Em 2011, o jornalista econômico Juan Carlos Zapata escreveu uma coluna falando sobre certos jovens que, naquele momento, estavam chegando aos 30 anos de idade e faziam grandes negócios com o chamado governo bolivariano. Ele os batizou de bolichicos", recorda à BBC César Batiz, diretor do portal venezuelano El Pitazo, que também investigou as atividades de Betancourt e seus associados.
O termo é uma junção das palavras "bolivariano" e chicos (jovens).
O advogado de Betancourt rejeita a denominação.
"É um termo criado pela imprensa e usado para designar um grupo de pessoas jovens, cujo único ponto em comum é que atingiram o sucesso", declarou à BBC News Mundo o representante do empresário nos Estados Unidos, Jon Sale.
"Antes que começasse a se agrupar com os bolichicos, ele já era rico e vinha de uma família com raízes na Venezuela", acrescenta o advogado.
Ele faz alusão às supostas conexões entre a família de Betancourt e Hermógenes López (1830-1898), que foi presidente em exercício da Venezuela entre 1887 e 1888.
Mas, após a criação do apelido, começaram os questionamentos.
A Derwick garante ter executado todas as obras de eletrificação que foram contratadas. Mas organizações especializadas na luta contra a corrupção, como a Transparência Venezuela e o Projeto de Informações sobre o Crime Organizado e a Corrupção (OCCRP, na sigla em inglês), defendem que vários dos projetos não foram concluídos, ou foram realizados de forma incorreta.
Isso explicaria por que o país continua sofrendo apagões elétricos constantes até os dias de hoje.
É preciso acrescentar que, em um relatório publicado em 2018, a Transparência Venezuela revelou que 11 dos projetos encomendados à Derwick deveriam ter custado US$ 2,1 bilhões (cerca de R$ 10,8 bilhões). Ou seja, o governo venezuelano teria desembolsado 138% a mais que o preço inicial.
Os bolichicos surgiram quando Hugo Chávez era presidente e Rafael Ramírez (esq.) era ministro da Energia e presidente da estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA)
THOMAS COEX/AFP via Getty Images (BBC)
O crescimento do império e seus problemas
Apesar das críticas ao seu desempenho no setor elétrico, as autoridades venezuelanas permitiram que Derwick incursionasse no setor petrolífero por meio da Petrozamora, uma associação estratégica para extração de petróleo no lago de Maracaibo, no noroeste do país. Dela participaram empresas russas, ao lado da PDVSA.
Mas as atividades comerciais de Betancourt não se restringiram exclusivamente à Venezuela.
Em meados da década passada, ele iniciou seu processo de internacionalização, ao adquirir participação na empresa espanhola de óculos de sol Hawkers. Ele se tornou presidente e sócio majoritário da companhia em 2016.
Paralelamente, Betancourt também comprou entidades bancárias na Suíça e no continente africano.
Atualmente, o conglomerado empresarial de Betancourt reúne meia centena de companhias em 16 países, segundo as investigações da Transparência Venezuela.
Ele optou por manter um perfil discreto, evitando as redes sociais e concedendo poucas entrevistas à imprensa, durante sua expansão internacional. Mas, paralelamente, também aumentavam as suspeitas sobre os seus negócios.
Apesar dos questionamentos pela sua atuação no âmbito elétrico, Betancourt conseguiu permissão das autoridades venezuelanas para ingressar no setor do petróleo
Maryorin Mendez/AFP via Getty Images (BBC)
Em 2013, o ex-embaixador dos Estados Unidos na Venezuela Otto Reich entrou com uma ação na Justiça americana contra Betancourt e dois dos seus sócios por "pagarem altas somas a funcionários públicos [venezuelanos] em troca da adjudicação de contratos".
A ação do diplomata foi rejeitada cinco anos depois, mas a decisão não pôs fim aos problemas jurídicos do empresário.
No final da década passada, autoridades judiciais da Espanha, Suíça, Andorra e Estados Unidos abriram diversas averiguações contra Betancourt e outros bolichicos, por sua suposta participação em diferentes tramas de corrupção relacionadas à PDVSA.
Em 2025, o empresário voltou a ocupar as manchetes ao ser detido em duas ocasiões pela polícia britânica em Londres, onde havia se estabelecido nos últimos anos.
Poucos dias depois, autoridades espanholas cumpriram um mandado de busca e apreensão no castelo de Alamín, localizado na província de Toledo, região central da Espanha. Betancourt havia adquirido o castelo anos antes da operação.
As duas ações ocorreram no âmbito de uma investigação sobre suposta lavagem de dinheiro, promovida pela promotoria suíça.
Sobre elas, o advogado de Betancourt deixou entrever que se trataria de ações fabricadas.
"Trata-se de um grupo de jovens empresários de muito sucesso [...]. Alguns infringiram a lei e outros, não, mas colocaram todos no mesmo saco", segundo ele.
A enorme propriedade de Betancourt na província espanhola de Toledo foi alvo de um mandado de busca e apreensão das autoridades judiciais suíças, cumprido pela polícia espanhola
Os motivos de Washington
Mas por que os Estados Unidos escolheram como sócio alguém que desperta este tipo de suspeitas e acusações?
Em entrevista ao jornalista venezuelano Sergio Novelli, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, ofereceu três motivos.
"Ele tem um histórico de poder produzir petróleo", defendeu ele, em primeiro lugar.
Especialistas afirmam que a Nabep extrai hoje cerca de 180 mil barris de petróleo, abaixo dos mais de 200 mil da Chevron. Mas outros afirmam que é preciso examinar estes números com cuidado.
"Ele conseguiu aumentar a produção em Petrozamora [no lago de Maracaibo], mas a verdade é que ele somou todos os poços que controla agora para dizer: Veja o quanto estou produzindo", afirma um especialista no assunto, que pediu para ser mantido no anonimato.
Rubio prosseguiu destacando que "não existia nenhuma investigação contra ele no nosso sistema".
O advogado de Betancourt confirma esta afirmação e destaca que "o governo dos Estados Unidos, através do Departamento de Justiça, investigou a fundo e nunca apresentou acusações".
De fato, Betancourt não foi acusado formalmente nos Estados Unidos. Mas existem reportagens indicando que ele é mencionado em investigações relacionadas à Operação Money Flight, um esquema que levou ao desvio de cerca de US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 6,2 bilhões) da PDVSA, entre 2014 e 2018.
Neste caso, seu primo Francisco Convit aparece como acusado. Ele fugiu de uma prisão venezuelana no ano passado.
Por fim, o terceiro motivo de Rubio: "É um indivíduo que apoiou muito a oposição, por exemplo, durante a época de Juan Guaidó [...] e ficou muito mal com Nicolás Maduro."
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, defendeu a associação com Betancourt, afirmando que ele não tem processos judiciais em andamento nos Estados Unidos, embora existam ações em outros países
AFP via Getty Images (BBC)
Diferentemente de outras pessoas que prosperaram economicamente à sombra do chavismo, Betancourt e seus associados aparentemente não se identificam ideologicamente com o movimento liderado por Hugo Chávez.
"Eles simplesmente observaram uma oportunidade de negócios e aproveitaram", segundo Batiz.
"Ele convidava o irmão de Guaidó, Gustavo, para o seu castelo na Espanha", explica Boyd.
"E, graças a essas conexões durante o primeiro mandato de Donald Trump, ele se aproximou de autoridades americanas, como Mauricio Claver-Carone, ou personalidades próximas de Trump, como Rudy Giuliani", ex-prefeito de Nova York.
"Ele chegou a se envolver com o fracassado movimento para depor Maduro, em 30 de abril de 2019", destaca o jornalista. "Por isso, Maduro determinou represálias contra ele, o retirou do negócio do petróleo e o forçou a se manter entre Madri e Londres."
Em 2022, a proteção de Betancourt na Venezuela foi desfeita, quando o então ministro do Petróleo, Tareck El Aissami, o acusou de participar de uma trama que retirou US$ 4 bilhões (cerca de R$ 20,5 bihões) da companhia petroleira estatal.
Mas seu acusador foi quem acabou sendo preso meses depois, por supostos atos de corrupção.
Diversos órgãos de imprensa indicam que o ex-assessor de Donald Trump e ex-presidente do BID, Mauricio Claver-Carone, passou a ser o principal apoiador de Betancourt em Washington
PATRICK T. FALLON/AFP via Getty Images (BBC)
Lugar e momento certo
Os contatos estabelecidos por Alejandro Betancourt com os Estados Unidos teriam sido fundamentais para reduzir a pressão judicial imposta contra ele pelas autoridades suíças e espanholas, a partir do final de 2025.
Um contato particularmente importante teria sido Mauricio Claver-Carone. Ele atuou como membro do Conselho de Segurança Nacional durante o primeiro mandato de Donald Trump e, até poucos dias atrás, trabalhava como assessor não oficial do presidente americano para assuntos relacionados à Venezuela.
Segundo o jornal americano The Washington Post, naquele mesmo ano, as autoridades americanas solicitaram à Suíça que desistisse do seu pedido de extradição do empresário, apresentado à Justiça britânica.
As autoridades suíças atenderam ao pedido, já que, em maio, um tribunal de Londres suspendeu a proibição de saída do país que havia sido imposta ao empresário, que também tem cidadania italiana.
"O caso foi rejeitado", confirmaram os tribunais de Westminster à BBC.
"A Suíça não apresentou as provas solicitadas pelos juízes ingleses para sustentar seu pedido de extradição e, por isso, a proibição [de saída do país] foi retirada", explicou o advogado de Betancourt. Mas ele reconhece que a decisão não representa o fim das investigações no país alpino.
A suposta contribuição de Betancourt como elo entre Washington e Caracas teria feito com que ele ganhasse mais pontos junto à Casa Branca.
Segundo o portal Axios, nos primeiros minutos após a operação militar que culminou na captura de Maduro e sua esposa, Cilia Flores, o empresário conversou com a então vice-presidente Delcy Rodríguez e a convenceu a conversar com Marco Rubio.
Seu advogado confirmou esta versão.
"Ele atuou como intermediário. Não teve nada a ver com a saída de Maduro, mas, como tinha a confiança de todos, passou a ser intermediário", segundo Jon Sale.
"Ele é muito habilidoso. Sempre consegue estar onde precisa para evitar problemas e ganhar dinheiro", conclui Alek Boyd.