ITATIBA1

Varnhagen: historiador e Visconde sorocabano ajudou a criar a imagem de D. Pedro I como herói da Independência

Historiador de Sorocaba ajudou a criar a imagem de D. Pedro I como herói da Independência

G1 — Brasil · 2026-09-07T13:24:43.000Z

Historiador de Sorocaba ajudou a criar a imagem de D. Pedro I como herói da Independência

A declaração do "grito da independência" ocorrido no dia 7 de setembro de 1822 está registrada oficialmente no livro "História da Independência do Brasil", escrito pelo historiador sorocabano Francisco Adolfo de Varnhagen, ainda no século XIX. A obra faz parte do primeiro trabalho nacional que se dedicou a montar uma biografia do país.

A pedido do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), entre os anos de 1854 e 1857, Varnhagen se dedicou a pesquisar documentos que contassem a formação deste território que, até então, havia sido transformado em colônia e depois em império. É por esta fonte que a memória de um dia vivido há 204 anos se mantém na história que contamos do Brasil.

Conhecido também como Visconde de Porto Seguro, Francisco Adolfo de Varnhagen é um nome importante na construção da ideia de uma nação brasileira. Seu trabalho como historiador representa uma forma de narrar o país que ainda perdura no imaginário social do Brasil.

Francisco Adolfo de Varnhagen é reconhecido como "primeiro historiador" brasileiro

Fundação Alexandre de Gusmão / Reprodução

O Brasil segundo Varnhagen

Pedro Carvalho, historiador sorocabano, explica que a obra de Varnhagen tem seu valor para o desenvolvimento acadêmico do país. Isso porque o Visconde foi o primeiro pesquisador a escrever sobre o Brasil através de documentos oficiais, encontrados durante os anos de pesquisa em Portugal.

"Ele foi inovador por ter sido pioneiro em pensar história como uma disciplina científica, por meio de fontes documentais e oficiais. Tem a característica importante de sua historiografia que é o contexto em que ela é produzida. Hoje temos claro que ele conta o processo civilizador a partir da visão do colonizador, pois é a narrativa que ele representou. Mas de toda forma ela é inovadora, em certa medida, porque foi uma das primeiras iniciativas que a gente teve de contar a história do Brasil por meio de documentos", diz Pedro.

O professor sorocabano também explica que a encomenda das obras por parte o IHGB segue uma proposta do estabelecimento de uma cultura brasileira que se desprendia da influência portuguesa.

"A gente se tornou independente em 1822 e como parte dessa independência, o Instituto vem com essa missão de construir na mente das pessoas a ideia de que o Brasil é uma nação, é um país bom de se viver e que tem uma história a ser contada".

Pedro Carvalho é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP)

Pedro Carvalho / Arquivo pessoal

É também a partir deste contexto que os livros de Varnhagen descrevem um Brasil através de personagens heroicos. É por meio de seus escritos que, por exemplo, o relato do dia sete de setembro tem os detalhes da atuação de Dom Pedro I.

"Regressando o jovem herói à cidade e indo essa noite ao teatro, repetiu-se aí o brado de 'Independência ou Morte', deram-se vivas à Independência, e poeta houve, batendo palmas, recitou uns versos em que já conceituou o príncipe de 'primeiro imperador do Brasil'” .

Dom Pedro I representado no quadro 'Independência ou Morte', de Pedro Américo

O Brasil, segundo Varnhagen, era uma nação destacada pela presença de um herói que representava a todos. Em outro trecho do capítulo em que relata a jornada do príncipe a São Paulo e a proclamação da independência, o historiador narra a reação dos apoiadores de Dom Pedro I, exaltando-o como defensor do país.

Trecho do livro 'História da Independência do Brasil', de Francisco Adolfo de Varnhagen

Fundação Alexandre de Gusmão / Reprodução

Pedro Carvalho explica o porquê deste olhar de Varnhagen: "No século XIX, pensar essa independência é pensar em Dom Pedro I como o grande herói. E a gente sabe depois que ela não é exatamente um grande feito exclusivo dele. [...] Mas Varnhagen está escrevendo num contexto de início do segundo reinado, que foi necessário criar uma sensação de que essa monarquia é grandiosa e que o Brasil não existiria sem esse grande herói".

Revolução Liberal de 1842: entenda o movimento que transformou Sorocaba na capital de São Paulo

Passeios de trem histórico passam a ser realizados todo fim de semana em Sorocaba

'Repensar Sorocaba': grupo organiza 1ª edição de bienal que promete promover debates e exposições sobre a própria cidade

Um Visconde sorocabano

Filho de Frederico Luís Guilherme de Varnhagen e de Maria Flávia de Sá Magalhães, Francisco nasceu no dia 17 de fevereiro de 1816, quando a família vivia na Real Fábrica de Ferro de Ipanema, época em que a fábrica e todo o território da fazenda pertenciam ao município de Sorocaba (SP). O historiador faleceu aos 62 anos em Viena, na Áustria.

Restos mortais de Visconde de Porto Seguro estão em monumento no Largo do São Bento, no centro de Sorocaba

TV TEM / Reprodução

Em alguns de seus trabalhos, Varnhagen assinou a autoria valorizando o endereço natal. Em sua maior obra, o livro "História Geral do Brasil", o crédito está reconhecido como de "um sócio do Instituto Histórico do Brasil, natural de Sorocaba".

Além de pesquisador, Varnhagen também atuou como diplomata em diferentes países da América do Sul e Europa, representando o Brasil durante o período imperial. Em 1874 recebeu os títulos de Barão e Visconde de Porto Seguro.

📜 Polêmicas no testamento do Visconde de Porto Seguro

Há dez anos, os restos mortais do Visconde estão preservados em um monumento no centro da cidade de Sorocaba. A localização desta homenagem é alvo de polêmicas em torno da discussão sobre as reais vontades de Varnhagen, expostas em um testamento.

Retirada do monumento da avenida General Osório foi acompanhada pelo secretário de Serviços Públicos, Oduvaldo Denadai em 2016

Zaqueu Proença / Secom

De acordo com o Centro de Memória de Ipanema, Varnhagen teve dois documentos diferentes com o registro de seus desejos pós-morte. O primeiro testamento continha a solicitação de ser velado em Sorocaba. No entanto, este documento foi invalidado após Varnhagen se casar com a aristocrata chilena Carmen Ovalle y Vicuña.

No segundo ofício, ele pediu para que fosse enterrado na cidade em que viesse a falecer. Essa vontade foi respeitada, visto que o corpo do Visconde de Porto Seguro ficou por anos em um cemitério de Viena, antes de ser levado ao Chile por uma vontade da viúva.

Contudo, neste mesmo documento havia um pedido especial: Varnhagen queria que em até dois anos após sua morte, um monumento fosse levantado para ele na antiga Fazenda Ipanema.

Uma carta de 1879, escrita por um amigo do historiador e resgatada pelo Centro de Memória de Ipanema, mostra as orientações retiradas de "parte do testamento" pedindo a construção da cruz de ferro no topo do morro.

Até os dias atuais o monumento é um dos principais cartões postais da Floresta Nacional de Ipanema, em Iperó (SP).

Monumento a Varnhagen na Floresta Nacional de Ipanema

Centro de Memória Ipanema / Reprodução

Já os restos mortais de Varnhagen chegaram a Sorocaba em 1978, no centenário de sua morte. Na ocasião a Prefeitura de Sorocaba conseguiu autorização para realizar o traslado dos restos mortais do historiador sorocabano que estava sepultado em Santiago.

Um busto do Visconde foi colocado na Praça Edmundo Valle, na Avenida General Osório, onde ficou por 38 anos, até que foi novamente levado a um novo endereço.

Em 2016 os restos mortais de Varnhagen foram transportados para o Largo São Bento, em frente a igreja de Sant'Ana e próximo ao monumento de Baltazar Fernandes, bandeirante reconhecido como fundador da cidade de Sorocaba.

Restos mortais de Visconde de Porto Seguro estão em monumento no Largo do São Bento, no centro de Sorocaba

Secom / Divulgação

Initial plugin text

Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí

VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

Leia no Itatiba1 →