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Formiga ‘clona’ machos de outra espécie para conseguir produzir suas próprias operárias

Formiga-cortadeira Messor ibericus

G1 — Campinas e Região · 2026-09-07T13:33:35.000Z

Formiga-cortadeira Messor ibericus

max_devis / iNaturalist

Uma rainha que dá origem não apenas a indivíduos da própria espécie, mas também a machos geneticamente pertencentes a outra. O fenômeno foi identificado em formigas-cortadeiras ibéricas (Messor ibericus) e revela um sistema reprodutivo que desafia uma regra aparentemente básica da natureza: a de que uma fêmea produz descendentes de sua própria espécie.

Publicado na revista científica Nature, o estudo mostrou que rainhas de M. ibericus conseguem “clonar” machos de Messor structor, espécie da qual dependem para produzir a casta de operárias. As duas espécies se separaram evolutivamente há mais de 5 milhões de anos.

“Aqui, relatamos que essa regra foi transgredida pelas formigas Messor ibericus, com fêmeas produzindo indivíduos de duas espécies diferentes”, afirmam os pesquisadores no artigo, em tradução livre.

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Operárias têm duas origens

Para entender o sistema, os cientistas analisaram dados genômicos de 390 indivíduos de cinco espécies europeias do gênero Messor.

O primeiro indício estava nas operárias de M. ibericus. Todas as 164 operárias analisadas foram identificadas como híbridas de primeira geração. A análise de estrutura populacional mostrou proporções praticamente iguais de ancestralidade das duas espécies: em média, 49% de M. ibericus e 51% de M. structor.

A mãe é M. ibericus. O pai, M. structor.

Isso significa que a rainha depende do esperma da outra espécie para gerar as operárias necessárias ao funcionamento da colônia.

espécie de formiga Messor ibericus

clurarit / iNaturalist

O problema é que os pesquisadores encontraram essas operárias híbridas até em regiões onde a espécie paterna não ocorre. Na Sicília, por exemplo, elas foram registradas a mais de mil quilômetros da ocorrência conhecida mais próxima de M. structor.

A resposta para esse paradoxo estava dentro dos próprios formigueiros.

Uma rainha, duas espécies de machos

Os pesquisadores coletaram 132 machos em 26 colônias de M. ibericus e encontraram dois grupos bastante diferentes. Cerca de 44% apresentavam pilosidade densa, enquanto 56% eram praticamente sem pelos.

A genética revelou algo ainda mais surpreendente: os primeiros eram M. ibericus, enquanto os segundos pertenciam geneticamente a M. structor.

Experimentos em laboratório reforçaram a descoberta. Ao analisar 286 ovos ou larvas de cinco colônias, os cientistas encontraram 11,5% contendo exclusivamente o genoma nuclear de M. structor. Em outro experimento, 16 rainhas foram isoladas e seus novos ovos analisados após 24 horas; 9% deles continham exclusivamente DNA nuclear de M. structor.

Formigas da espécia analisada

max_devis / iNaturalist

Os pesquisadores também acompanharam uma colônia comandada por uma única rainha de M. ibericus durante 18 meses. Entre os indivíduos que chegaram à fase adulta reprodutiva, surgiram machos das duas espécies, cuja identidade foi posteriormente confirmada por análises genômicas.

A explicação apontada pelo estudo é um processo chamado androgênese, no qual o embrião recebe seu material genético nuclear apenas do pai. Assim, a rainha utiliza seus ovos para propagar o genoma nuclear do macho de outra espécie.

Uma espécie de ‘domesticação sexual’

A estratégia permite que M. ibericus mantenha dentro de suas próprias colônias uma linhagem clonal de machos de M. structor, que fornece o esperma necessário à produção das operárias.

Dos 164 híbridos analisados, 144 tinham como pais machos da linhagem clonal, enquanto 20 descendiam de machos selvagens de M. structor. Para os autores, o sistema sugere uma trajetória evolutiva na qual M. ibericus inicialmente explorava machos encontrados na natureza e, posteriormente, passou a manter a linhagem necessária dentro das próprias colônias.

Os pesquisadores comparam o fenômeno, com cautela, a uma forma de “domesticação sexual”.

“Ao dependerem dos gametas uma da outra, as duas espécies entrelaçaram seus ciclos de vida, evoluindo do parasitismo sexual para a codependência sexual”, descrevem os autores, em tradução livre.

Segundo o artigo, não havia registro anterior conhecido de fêmeas que precisassem clonar indivíduos de outra espécie. Os autores propuseram inclusive um nome para o fenômeno: xenoparidade (xenoparity).

“Produzir o macho de outra espécie não é um acidente, mas uma exigência do ciclo de vida da fêmea”, afirmam os pesquisadores.

A relação chegou a ser descrita no estudo como um “superorganismo de duas espécies”: dentro de uma mesma unidade reprodutiva convivem indivíduos de espécies, sexos e castas diferentes, cada qual desempenhando um papel no funcionamento e na continuidade da colônia.

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