ITATIBA1

Profissão olheiro: como é a vida dos scouts brasileiros em busca de joias para clubes do exterior

Como é a vida de um scout brasileiro trabalhando em clubes estrangeiros

ge — Futebol · 2026-09-07T13:57:17.000Z

Como é a vida de um scout brasileiro trabalhando em clubes estrangeiros

Existe um mercado no futebol brasileiro que está em franca expansão, mas pouca gente sabe disso. As vagas não costumam ser anunciadas em sites de emprego, os profissionais são discretos, evitam entrevistas e redes sociais. O sigilo é parte fundamental do trabalho de um scout.

Antes chamados de olheiros, hoje eles produzem relatórios que vão muito além do que o olho pode ver. E são cada vez mais requisitados por clubes do exterior.

Com as transferências de jogadores movimentando cifras astronômicas e jovens sendo negociados antes mesmo de atingirem a maioridade, times do mundo todo têm contratado scouts no Brasil para garimpar novas joias e minimizar os riscos de seus investimentos.

Há 30 anos esse mercado praticamente inexistia. Hoje, até mesmo clubes de centros menores do futebol ou da segunda divisão da Inglaterra têm representantes em solo brasileiro.

Clubes estrangeiros têm buscado scouts no Brasil

Imagem gerada por IA

Mais do que um olheiro

Se existem plataformas digitais com as mais variadas estatísticas e dados físicos dos jogadores, por que contratar um olheiro? Se é possível assistir a jogos do mundo todo sem sair de casa, qual a vantagem de ter um funcionário do outro lado do oceano?

Os scouts passaram a ser cada vez mais requisitados por fornecer aos clubes informações que nenhuma inteligência artificial se mostrou capaz até o momento. Por exemplo:

como é a estrutura familiar do atleta

é solteiro? tem filhos?

em que contexto social e econômico foi criado

o que faz fora do clube e qual seu desempenho escolar

Tais detalhes são colhidos em conversas com funcionários de clubes, empresários, familiares de atletas e diversas outras fontes do meio do futebol. Habituados ao trabalho de apuração, muitos jornalistas têm migrado para a área de scouting.

– A informação boa é local. Hoje qualquer clube do mundo tem acesso à mesma base de dados e ao mesmo vídeo dos jogadores. Isso virou commodity. O que diferencia é o que o dado não mostra. Em que condições aquele desempenho aconteceu? Como o jogador se comporta quando o jogo já está perdido? Qual o entorno dele, a situação contratual, o clube vende ou não vende? Isso exige alguém aqui que vá ao jogo, que conheça as pessoas e que entenda a cultura do futebol sul-americano, inclusive as suas particularidades de calendário e de negociação – explica Fred Fortes, que comanda a área de scouting do Norwich, da Inglaterra, na América do Sul.

O clube britânico trata a contratação de Gabriel Sara, em 2022, como um caso de sucesso de sua área de scouting, pois o negócio rendeu não apenas ganho esportivo, mas também financeiro. O jogador foi comprado do São Paulo por cerca de 10,5 milhões de euros e, dois anos depois, foi vendido ao Galatasaray, da Turquia, por 18 milhões de euros.

Fred Fortes é scout do Norwich no Brasil

Há clubes que optam por ter um profissional de seu próprio país que viaja periodicamente para o Brasil, como o Borussia Dortmund, da Alemanha. Porém, muitos preferem contratar brasileiros e chegam a montar verdadeiras equipes.

Um exemplo é o Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, que conta com quatro scouts aqui.

– Se a gente precisa abordar um pai de uma criança e conversar, por exemplo, a questão da língua é muito complicada para esses profissionais que vêm de fora. Ter alguém aqui eu também acredito que seja muito mais barato para os clubes – opina Fred Fortes.

Na base, muitos jogos também não são transmitidos, o que torna ainda mais importante a presença de um observador "in loco".

Um scout compartilhou com o ge informações reportadas por ele para o clube que trabalha sobre diferentes jogadores, cujos nomes foram omitidos. Os trechos abaixo ajudam a ilustrar as minúcias investigadas por esses profissionais.

Imagem ilustrativa de relatório de scout obtido pelo ge

Imagem ilustrativa de relatório de scout obtido pelo ge

Imagem ilustrativa de relatório de scout obtido pelo ge

Rotina e remuneração

O dia a dia de um scout consiste em assistir a jogos, colher informações sobre atletas e produzir relatórios. Os profissionais ouvidos pelo ge em condição de anonimato apontaram que entregam, em média, 25 relatórios de jogadores por mês.

Esses materiais são armazenados em sistemas próprios dos clubes, de modo que possam ser consultados anos depois. Ao contratar Bruno Guimarães nesta janela de transferências, por exemplo, o Arsenal tinha relatórios sobre ele desde a adolescência.

Além de elaborar esses documentos, os scouts fazem reuniões online com seus superiores e colegas de equipe e viajam para as sedes de seus clubes. É comum as agremiações promoverem, pelo menos uma vez por ano, encontros entre os olheiros que trabalham espalhados pelo mundo.

À reportagem, os scouts destacaram algumas vantagens de trabalhar para clubes de fora do Brasil:

rotina mais flexível, sem precisar dar expediente no clube

estabilidade no cargo

processos mais bem definidos e melhor compreensão da função

salários mais altos

O câmbio joga a favor de europeus, americanos e asiáticos. Os ingleses, por exemplo, fecham seus contratos em libras, que hoje está cotada em R$ 7. Assim, prestar serviço para um clube estrangeiro pode render ganhos duas a cinco vezes maiores para um scout do que trabalhar para um time do Brasil.

Quem está neste mercado aponta que os clubes nacionais já pagam bons salários para seus chefes de scouting, mas os demais membros do departamento costumam ter vencimentos modestos.

Revolução nos anos 2000

Sandro Orlandelli foi um dos primeiros brasileiros a trabalhar como scout para um clube estrangeiro, no início deste século. Em 2002, ele tinha acabado de ajudar a estruturar a rede de escolinhas de futebol do Corinthians, havia trabalhado na base do São Paulo e sonhava em ser treinador quando recebeu uma oportunidade de estágio no Arsenal.

Após um período em Londres, ganhou a confiança de Arsène Wenger e foi contratado para garimpar talentos na América do Sul. Eram tempos mais modestos e bem menos tecnológicos.

– O desafio qual que era? Acesso aos talentos. A tecnologia ainda era precária, então o trabalho era muito mais pautado em relações. Em cada país (da América do Sul) eu criei a tarefa de ter relações com gente que fazia filmagens em DVD. Então eu sempre viajava com uma mala extra para encher de DVD. Era muito mais orgânico o negócio, você tinha que ser muito mais intuitivo – comenta Orlandelli, que ficou no Arsenal por uma década e hoje trabalha para o FC Dallas, dos Estados Unidos.

Sandro Orlandelli foi um dos primeiros brasileiros a trabalhar como scout para um clube do exterior

A relação com os clubes e a forma como a profissão era vista também mudou bastante ao longo desses quase 25 anos.

– Eu lembro que chegava no Brasil, me apresentava como scout do Arsenal e qual era o receio? "Esse cara vai roubar jogador nosso". Eles não me passavam informação, aliás eu era o último a receber. Eu só queria a escalação ou a data de nascimento de um jogador – relembra Orlandelli.

– Hoje você manda e-mail para o clube, avisa que o scout está indo no jogo e é recebido, fica num lounge. Eu ia na raça. Tentava acesso com algum dirigente e, se ele fosse com a minha cara, ótimo. Senão, "se vira aí, compra ingresso e fica na arquibancada" – complementa o scout, que também passou por Manchester United, CBF, Athletico-PR, Santos e Bragantino.

Boom na última década

Como não há um sindicato ou uma associação de classe bem organizada, é difícil quantificar quantos scouts brasileiros trabalham atualmente para clubes estrangeiros. Mesmo sem dados concretos, é notório o crescimento desse mercado na última década.

A liga inglesa é uma das que mais investe nesse mercado, e mais da metade dos clubes da Premier League têm scout no Brasil. Arsenal, Chelsea e Crystal Palace têm mais de um profissional no país.

Os ingleses têm tradição no scouting e valorizam esse trabalho, mas há outros fatores que contribuem para o "boom" de olheiros no Brasil nos últimos anos.

Um deles foi a saída do Reino Unido da União Europeia, em 2021. Com o Brexit, jogadores italianos, espanhóis, franceses e demais europeus passaram a enfrentar as mesmas restrições de imigração que jogadores de outros países. Nesse cenário, por que não apostar nos brasileiros, que, além do talento, oferecem bom custo-benefício?

Além disso, a competição por jovens talentos só aumentou nos últimos anos. Prodígios como Vini Jr, Rodrygo e Estêvão foram vendidos antes mesmo de completarem 18 anos. Quem consegue identificar um talento mais precocemente sai em vantagem.

– O mercado sul-americano está mais disputado e mais caro do que cinco anos atrás. Com a profissionalização via SAF, os clubes brasileiros hoje competem por jogadores que antes sairiam (do continente) muito cedo e barato. Isso reduziu a margem de arbitragem que a Europa explorava – comenta Fred Fortes.

– Esse crescimento do scouting no Brasil é recente, de uns 10 ou 11 anos, e aconteceu numa velocidade absurda. Eu acho que agora é um caminho sem volta, porque tem o mercado árabe, que agora está explorando muito a América Latina, a MLS e até o Japão, que tem limitação de orçamento, mas também tem um olhar para isso – analisa Orlandelli.

Para quem tem interesse de se tornar um olheiro, a dica de quem trabalha na área é buscar capacitação. Barcelona, Federação Inglesa e ATFA (Associação de Técnicos de Futebol Argentino) ministram cursos bem avaliados no mercado. A CBF Academy também oferece formação em scouting de forma online, com 40 horas de aulas, por R$ 1,8 mil.

Estes cursos entregam não apenas conhecimento, mas também a possibilidade de estabelecer uma rede de contatos, algo fundamental para ingressar neste mercado.

Leia no Itatiba1 →