ITATIBA1
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta terça-feira (8) o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial da corporação, Leandro Almada da Costa.
G1 — Política · 2026-09-08T11:52:51.000Z
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta terça-feira (8) o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial da corporação, Leandro Almada da Costa.
A decisão impõe ainda a abertura imediata de procedimentos investigatórios criminais e administrativo-disciplinares na Corregedoria da PF para apurar as circunstâncias de produção de relatórios de inteligência que monitoravam autoridades.
Mendonça determinou também a suspensão de qualquer produção ou compartilhamento de relatórios de inteligência voltados a analisar a atuação funcional de magistrados, da advocacia pública ou da atividade de polícia judiciária.
O ministro solicitou a convocação de uma sessão virtual extraordinária da Segunda Turma do STF para referendar a decisão ainda nesta terça.
Agora no g1
'Monitoramento sistemático e coleta dirigida'
De acordo com a decisão de André Mendonça, o diretor-geral da PF encaminhou ao ministro Alexandre de Moraes, no âmbito do Inquérito das Fake News, ao menos seis "relatórios de inteligência" produzidos de forma sigilosa entre 3 e 31 de agosto de 2026.
A peça processual revela que o próprio ministro relator vinha sendo submetido a um monitoramento ilícito e sistemático por parte da inteligência policial há mais de 30 dias.
Além de Mendonça, o advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, também foi alvo de monitoramento e de "coleta dirigida" de informações.
Os relatórios elucubravam que a atuação de Messias em não recorrer de decisões judiciais nas operações "Sem Desconto" e "Compliance Zero" visava preservar "relação política com o relator".
O documento da PF classificava a confiança daquela análise de cenário como "baixa", mas justificava que o caso "autoriza monitoramento e coleta dirigida".
LEIA MAIS: Em meio à crise no STF, desfile de 7 de Setembro tem conversas reservadas e encontros entre autoridades
Montagem com fotos do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do ministro do STF André Mendonça
Andressa Anholete/Agência Senado e Gustavo Moreno/STF
Análises sob 'matriz religiosa comum' e críticas internas
Mendonça descreveu como "surreal" e "abjeta" a acusação de que a conduta do advogado-geral da União e do relator de não acatar solicitações da PF poderia ser explicada pelo fato de possuírem "matriz religiosa comum" e terem tido apoio de igrejas evangélicas em suas candidaturas ao STF.
Os relatórios também continham o que o ministro qualificou como "escancarada realização de juízo correicional" sobre as decisões jurisdicionais do STF, sobre o mérito técnico da AGU e até mesmo sobre o trabalho investigativo de outros delegados e agentes da própria Polícia Federal.
Segundo a decisão, uma das unidades de inteligência (UADIP) realizava um rigoroso escrutínio crítico do trabalho de delegados em investigações ativas.
RELEMBRE: PF diz a Moraes em relatório que Mendonça manifestou intenção de afastar diretor da corporação
Documentos apócrifos e manifestação de entidades
A fragilidade técnica dos relatórios foi apontada pelo ministro como "autoevidente".
André Mendonça registrou que os documentos eram apócrifos, não tinham timbre, brasão, assinatura ou numeração, o que os tornava um "nada jurídico" que descumpria a Doutrina Nacional de Inteligência de Segurança Pública (DNISP).
Os próprios autores do material inseriram advertências de que as análises eram "sem valor probatório" e possuíam "confiança agregada baixa".
A produção do material provocou reações imediatas de categorias técnicas.
A União dos Profissionais de Inteligência de Estado da Abin (Intelis) publicou nota esclarecendo que a Inteligência de Estado "não se confunde com investigação criminal, tampouco com a elaboração de peças destinadas à formação de juízo acusatório".
Por sua vez, o presidente da Associação de Delegados da Polícia Federal (ADPF) declarou que a circulação do documento fora da corporação era "totalmente irregular" e manifestou estranheza com o fato de uma unidade de inteligência fazer esse tipo de análise.
Vazamento de investigações sigilosas
Outro ponto considerado de extrema gravidade pelo relator foi o vazamento de informações sigilosas decorrente da publicização desses relatórios.
O material continha detalhes sobre investigações em andamento e pendentes de decisão judicial envolvendo os políticos Antonio Rueda e ACM Neto.
Mendonça enfatizou que a divulgação prévia revelou as potenciais medidas cautelares aos alvos, "frustrando completamente a sua eficácia e prejudicando efetivamente as investigações".
As suspeitas contra o diretor-geral
A crise que culminou no afastamento de Andrei Rodrigues começou a se desenhar no início de setembro de 2026.
Em 2 de setembro, o Partido Novo acionou o STF solicitando providências para preservar a independência de investigações contra o diretor-geral da PF.
No dia seguinte, a legenda pediu a prisão preventiva de Andrei Rodrigues, alegando indícios de sua participação em uma suposta rede de influência criminosa liderada por Daniel Vorcaro.
Mensagens telefônicas do aparelho celular de Vorcaro faziam referências diretas ao nome "Andrei", identificado pela PF como o diretor-geral.
A decisão de Mendonça também transcreve uma fala da jornalista Monica Waldvogel, da GloboNews, veiculada em 3 de setembro de 2026.
Segundo a jornalista, o próprio Andrei Rodrigues teria lhe confirmado que a PF elaborou cerca de cinco ou seis relatórios de inteligência para "consumo próprio e acervo" sobre o que consideravam irregularidades na condução de provas pelo ministro André Mendonça.
Conforme o relato, esses relatórios foram posteriormente solicitados por Alexandre de Moraes e embasaram a denúncia.