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Base da seleção equatoriana, o Independiente del Valle carrega a alcunha de "matador de gigantes". A ascensão meteórica nos últimos anos não é por acaso e acontece como resultado de um investimento principalmente na formação de jogadores.…
ge — Futebol · 2026-09-09T07:00:00.000Z
Base da seleção equatoriana, o Independiente del Valle carrega a alcunha de "matador de gigantes". A ascensão meteórica nos últimos anos não é por acaso e acontece como resultado de um investimento principalmente na formação de jogadores. A ideia vai muito além do desenvolvimento para vendas futuras. Adversário do Flamengo nas quartas de final da Libertadores, o clube se empenha em educação antirracista, dedica recursos à estrutura e tenta repetir a história de Davi e Golias que já conseguiu em 2023.
Del Valle virou potência com formação antirracista e tenta assombrar novamente o Flamengo
A frase "um clube diferente" está presente nos mais diferentes lugares do complexo onde o Del Valle, treina, forma atletas e joga em Sangolquí, cidade ao sul e quase 40 minutos do centro de Quito. Não à toa. Em 2007, a equipe passou por uma total reestruturação de nome, filosofia e investimento. Era o modelo centrado nas categorias de base.
Desde 2019, os equatorianos somam três títulos no continente: duas Copas Sul-Americanas (2019 e 2022) e uma Recopa (2023) vencida contra o Flamengo em pleno Maracanã. Em nove anos, foram da terceira divisão do Equador à final da Libertadores em 2016, quando perderam para o Atlético Nacional na última decisão sem brasileiros ou argentinos. Na luta por uma vaga na semifinal, o Del Valle tenta assombrar novamente os cariocas.
O ge teve acesso ao local que abriga o time profissional, as categorias de base e a equipe feminina. A Ciudad Deportiva Valle de los Sueños fica ao lado do Estádio Banco Guayaquil, onde a equipe manda seus jogos e teve uma construção em tempo recorde de um ano com capacidade para 12 mil pessoas. Não será o caso diante do Fla, que joga no Estádio Olímpico Atahualpa nesta quinta-feira, às 21h30 (de Brasília). Nessa estrutura, são oito campos, dois estádios e um projeto eternamente em desenvolvimento.
CT do Independiente del Valle, do Equador
Perda como aprendizado
O Independiente del Valle, claro, busca conquistas e troféus, carrega planos ambiciosos e quer se manter em crescimento esportivo. Entretanto, se define com a característica principal de usar o futebol como meio de educar e incluir, principalmente reafirmando o compromisso social que tem com todos os envolvidos no dia a dia. Por isso, desenvolveu alguns trabalhos internos para reforçar essa identidade.
Houve um marco para o clube em termos de importância da formação e do acolhimento do clube quando Mauri Quiñónez, um jovem de 18 anos considerado uma das maiores joias que já passaram pela equipe, foi assassinado em 2019 quando foi a Guayaquil visitar a família. No mesmo ano, o Del Valle foi campeão da Sul-Americana e Miguel Ángel Ramírez comemorou usando uma camisa do garoto.
— Ele passou pelo Liverpool, estava perto de ser vendido. A família dele tinha problemas, o irmão vivia em zonas precárias do Equador, era de uma quadrilha e matou um líder de outra rival. Em represália, mataram o Maurício quando ele voltou para casa depois de um jogo. Ele é uma lembrança de que a família e o entorno são importantes. Não triunfa o jogador, triunfa o clube. Não é só você sair de casa, mas sua família se adaptar às novas realidades. Eles são os agentes de mudança real - contou Francisco Quiñonez, funcionário que viu toda transformação do clube.
— Tem que cuidar do entorno e da família. Neste momento conectamos mais coisas. O colégio talvez não dava retorno, criamos coisas voltadas ao social e depois desse caso se preocuparam mais com isso. Os pais são parte do processo, explicam que se o filho não for ao colégio, não pode jogar - completou.
Mauri Quiñónez fazia parte do Independiente Juniors, equipe criada para integrar aqueles jogadores que fazem parte da formação do clube, mas precisam de mais tempo antes de concluírem a transição para o time principal. Anthony Valencia, novo reforço do Flamengo, passou por lá. Para não precisar emprestar esses jogadores a equipes que não têm a mesma estrutura, o Del Valle apostou nessa filial (com quem compartilha o CT).
Homenagem a Mauri Quiñónez, jogador assassinado da base do Del Valle
Um dos projetos tidos com mais carinho e atenção é com relação à educação antirracista. O Independiente del Valle leva o assunto tão a sério que criou um programa chamado Latidos del Valle, iniciado há três anos e parte do departamento IDV Raízes. Ele é feito para dar ferramentas a meninos e meninas não só no ambiente esportivo, mas também na sociedade, identificando o impacto do racismo na vida das pessoas, além de reforçar a importância da identidade e das raízes nesses jovens.
Pensando nisso, há também um espaço dentro do Estádio Banco Guayaquil para provocar uma reflexão sobre o que se pode fazer individualmente contra o racismo. Lá, referências a figuras históricas na luta contra o preconceito como Muhammad Ali e a brasileira Dilma Mendes. O local não é aberto ao público, mas usado para passeios escolares ou visitações relacionadas a patrocinadores.
— Isso nos implicou em um trabalho interno para os funcionários do clube para desaprender muitas práticas racistas e conseguir um entorno seguro aqui dentro. Nesse processo identificamos muitas necessidades que os jogadores tinham, o impacto que tem a violência na vida deles, o racismo. Com tudo isso viemos novas necessidades que o clube precisava atender - explicou Ana Maria Morales, gerente do IDV Raízes.
Espaço no estádio do Independiente del Valle convida a pensar a luta antirracista
Há três principais objetivos. O primeiro que o Independente del Valle seja um lugar seguro para o crescimento dos meninos e meninas. O segundo criar uma identidade fortalecida para dar ferramentas, força e base para enfrentar adversidades, seja com racismo, a migração, uma transferência para equipes de fora do país, problemas familiares, brigas, entre outros. A terceira é de acompanhamento terapêutico.
— Temos uma equipe de psicólogos com acompanhamento personalizado com alguns jogadores, não todos. Vai atender a alguma situação de trauma, abandono, jogadores que sabemos que têm alguma projeção a serem transferidos ou chegar à primeira equipe. Os seis que foram transferidos neste ano já vinham de um processo de acompanhamento aqui onde já vínhamos os preparando para todas as mudanças que iram passar. Vamos trabalhar com eles para que seja um caminho de êxito e voltamos ao tema de identidade. Porque é mais fácil no campo do futebol que a identidade se construa unicamente por ser jogador. Mas o que acontece se você se lesiona ou se passa muito tempo no banco de reservas? Tudo isso vai ser afetado - disse a gerente.
São 250 adolescentes acompanhados diretamente pelo departamento, entre 10 e 19 anos. Participam também jovens que já se formaram no colégio, mas continuam no processo de desenvolvimento da base ou já estão na transição para a equipe principal, além de outros que possam passar por vendas significativas. O trabalho passa por temas ecológicos, de identidade, dos motivos para estarem no clube, o impacto que tem a violência armada na vida deles, entre outros. Nisso também estão estratégias para lidar com situações racistas em jogos.
— Há dois anos o sub-13 foi jogar uma partida, e a torcida os insultou permanentemente. Eles voltaram, falaram com o treinador. Eles já haviam desenhado sua reação, que era uma inspirada em Nico Williams (de colocar dois dedos no braço), fizeram um gol, comemoraram assim, levantaram o punho e voltaram. No segundo tempo fizeram novamente e conseguiram que o árbitro sancionasse a torcida com uma multa. Um dos pontos importantes aqui é reconhecer que a dor que eles vivem com o racismo não é só deles, mas dos companheiros também e que há uma instituição que vai respaldar e apoiar quando acontecer - contou Ana Maria Morales.
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Sustentabilidade e Davi contra Golias
Dentro do CT estão jovens desde o sub-13, que moram, treinam, jogam e estudam no local. Quem se destaca na base ganha um lugar na parede onde o clube lembra seus principais jogadores. Estão por lá Moisés Caicedo, venda mais expressiva da história do clube quando saiu para o Chelsea, William Pacho, do PSG, e nomes mais conhecidos no futebol brasileiro, como Juan Cazares, Junior Sornoza, Alan Franco e, claro, Gonzalo Plata e Anthony Valencia, do Flamengo.
Foram investidos mais de 10 milhões de dólares no CT ao longo dos anos. Mais de 400 jogadores passam por ali diariamente, com acesso a alimentação, escola, médicos. Na maioria dos clubes, uma venda como a de Caicedo por 133,5 milhões de dólares (R$ 723,4 milhões na cotação da época) poderia ter sido usada para buscar grandes reforços, mas não no Del Valle.
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O dinheiro dessa transferência foi para um fundo onde não se toca. O que há de rendimento desse montante é investido na infraestrutura do CT. A prioridade, hoje, é que os jovens que lá estão tenham tudo que precisam e que o clube se torne autossustentável, sem precisar de um aporte externo. Atualmente, o Equador também aprovou a existência das SAFs, mas, no momento, isso não está nos planos do Del Valle.
— Nossa ideia é sermos sustentáveis ao longo do tempo. Muitos amigos nos dizem: "Vocês têm muito dinheiro no banco, por que não contratam dois ou três jogadores e disputam ou ganham a Libertadores?" Mas nada disso garante nada. Temos um orçamento de cerca de 12 milhões de dólares e vamos enfrentar um time com 220 milhões, então, se adicionarmos mais 20 milhões, não fará diferença. Não podemos usar esse fundo para contratar jogadores para o time principal. Será usado gradualmente para alimentação, mensalidades escolares, treinadores das categorias de base, talvez para comprar outra propriedade para continuar desenvolvendo jogadores e para manter as instalações aqui no Equador, em Quito, Guayaquil, Esmeraldas e Santo Domingo - explicou Santiago Morales, gerente-geral do Del Valle.
Anualmente o Del Valle tem um orçamento de 12 milhões de dólares. Só com a equipe principal, incluindo comissão técnica e jogadores, são 8 milhões de dólares anuais. Os equatorianos sabem que estão enfrentando um dos favoritos da Libertadores, mas não têm medo. O exemplo da Recopa de 2023 está vivo na memória e nas paredes do clube.
— Há apenas três anos passamos por isso. Vencemos aqui por 1 a 0. Sabíamos que foi uma diferença muito pequena. Foi um daqueles jogos intensos em que o Flamengo dominou. Nós, principalmente no segundo tempo, nos defendemos bastante. No Maracanã não tinham mais do que 100 pessoas nossas, nos deram dois camarotes. Todo o resto era Flamengo. É incrível a paixão dos torcedores do Flamengo. É um time que admiramos muito. Tínhamos uma grande amizade porque eles são o time que mais enfrentamos em torneios internacionais. Nos jantares habituais com as diretorias de outros clubes, o último deles aconteceu na casa do presidente do clube (Rodolfo Landim na época). Havia uma amizade. Mas 2023 foi épico - lembrou Morales.
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