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Espetáculo 'Peça Única'.
G1 — Brasil · 2026-09-09T10:00:02.000Z
Espetáculo 'Peça Única'.
Espetáculo com DNA 100% sul-mato-grossense retornou a Campo Grande para uma única apresentação nesta terça-feira (8), depois de agitar plateias de outras oito cidades pelo país. 'Peça Única' leva ao palco todo o glamour, a irreverência e a potência dos pioneiros da cultura ballroom em Mato Grosso do Sul, a House Hands Up.
Primeira house de cultura ballroom do Estado, a Hands Up também é a primeira House do país a integrar a programação do Palco Giratório, projeto nacional do Sesc de circulação de artes cênicas.
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A montagem reúne nove performers da House em um espetáculo que escolhe não falar sobre as dores, mas sobre a potência, a beleza e a resiliência da população LGBTQIAPN+, que também encontra nos holofotes uma forma de existir, resistir e ocupar espaços.
Um dos aspectos mais marcantes da criação foi a decisão dos dois diretores, Roger Pacheco e Marcos Mattos, de não construir o espetáculo a partir da violência e do sofrimento frequentemente associados às experiências dessa comunidade.
“A gente não quis falar sobre dor. Normalmente, quando vamos para espetáculos que tratam dessa temática ou da nossa comunidade, sempre existe uma coisa de falar sobre morte, perda e sofrimento. E a gente falou: não”, afirma Marcos, diretor artístico do espetáculo.
No lugar da dor, a montagem escolheu trabalhar com conceitos como poder, beleza, luxo, performance e resistência.
“A gente foi encontrando esse lugar do poder, da beleza, do luxo, de ocupar esses espaços. A gente tem uma performance de alto nível. São bailarinos que estão no mercado de trabalho, nesse ecossistema da cultura, e isso também nos interessa.”
Para ele, a potência do espetáculo está justamente em apresentar outras possibilidades de representação.
“A cultura Ballroom nos proporciona uma cultura de poder, de empoderamento. Não é poder no sentido de superioridade, mas no melhor sentido: o poder do empoderamento”, destaca.
Em “Peça Única”, a cultura Ballroom é levada para dentro do espaço teatral por meio de uma dramaturgia que mistura dança, moda, performance e elementos da cultura LGBTQIAPN+.
Marcos conta que o espetáculo não pretende contar uma história linear. A proposta é construir uma experiência formada por diferentes camadas e momentos da cultura Ballroom.
“O espetáculo tem uma dramaturgia muito atravessada. A gente fala sobre o universo da moda, que está muito ligado à Ballroom por conta das categorias. A gente mergulha no universo do Vogue e mistura isso com a cultura Ballroom”, explica.
Espetáculo 'Peça Única' em Campo Grande.
Da pista para os palcos do país
Ao longo da circulação, a Hands Up passou por cidades como Poconé (MT), Porto Alegre (RS), Canoas (RS), Caxias do Sul (RS), Recife (PE), Petrolina (PE), São Paulo (SP) e Santa Luzia (MG). Depois de Campo Grande, ainda estão previstas apresentações em Belém (PA) e São Luís (MA).
Para Roger, ocupar esses palcos representa também uma oportunidade de dar visibilidade à cena Ballroom de Mato Grosso do Sul, que, apesar de já contar com uma trajetória de cerca de uma década, ainda é pouco conhecida fora do Estado.
“Está sendo muito incrível, porque tem tudo muito a ver com a House e com o momento que a gente está passando. Em quase três décadas de Palco Giratório, que é um dos projetos mais importantes de artes cênicas da América Latina, é a primeira vez que uma House de Vogue entra nesse processo”, afirma.
A participação no projeto também tem um significado que ultrapassa os palcos. Para alguns integrantes, a circulação representa a primeira oportunidade de viajar de avião, conhecer outras cidades e apresentar o próprio trabalho para públicos de diferentes regiões do país.
Espetáculo 'Peça Única'.
“Muitas pessoas da nossa House nunca andaram de avião, nunca se hospedaram em hotéis bacanas e não teriam oportunidade de mostrar o trabalho incrível que a House tem. Estar tendo esse reconhecimento e essa projeção está sendo muito legal”, relata Roger.
Segundo ele, a circulação tem funcionado como uma vitrine para os artistas e para a própria cena Ballroom sul-mato-grossense. Além das apresentações, integrantes da House já passaram a ser convidados para participar de júris e de outros eventos ligados à cultura Ballroom.
“Em todos os lugares que a gente está passando, estamos trocando muito com a cena, e esse reconhecimento está acontecendo. Esse palco está funcionando como uma vitrine para fazer com que a nossa comunidade Ballroom MS ganhe muito mais força e seja reconhecida em nível nacional.”
Público se aproxima da Ballroom
A recepção do público também tem surpreendido os integrantes. Antes da circulação, havia o receio de que a presença de pessoas LGBTQIAPN+, negras e trans no elenco pudesse provocar resistência ou episódios de preconceito. A experiência, porém, segundo o coreógrafo, tem sido muito diferente.
“Eu confesso que a gente chegou um pouco na defensiva, achando que a recepção não seria boa, que teria resistência, transfobia, racismo ou qualquer coisa. Então fomos preparados para isso. Mas está sendo totalmente ao contrário. Estamos sendo muito bem acolhidos pelo público”, conta.
Em Santa Luzia, em Minas Gerais, o grupo teve uma experiência especialmente marcante ao apresentar o trabalho para um público formado majoritariamente por pessoas idosas.
Espetáculo 'Peça Única' em Campo Grande.
A curiosidade despertada pelo espetáculo também tem feito com que os espectadores permaneçam para os bate-papos após as apresentações. Conforme Roger, o público busca entender não apenas a dança, mas a própria estrutura da cultura Ballroom.
“Eles querem saber o que é House, por que a gente se denomina família, o que é aquilo que acabaram de ver. A Ballroom não é só dança. Ela tem categorias estéticas, como desfile, moda, look, face e runway. O público fica querendo mais, querendo entender mais e saber onde acessar.”
Entre o público que foi conferir o espetáculo na noite desta terça-feira (8) estavam as irmãs Júlia Maia, maquiadora e lojista, e Bruna Maia, tatuadora. Júlia já havia acompanhado apresentações da Hands Up, enquanto Bruna teve seu primeiro contato com o espetáculo.
Júlia conta que conheceu a cultura Ballroom depois de se mudar de Três Lagoas para Campo Grande, há cerca de três anos. Antes disso, já tinha contato com o movimento por meio de séries e conteúdos disponíveis em plataformas de streaming. Ao descobrir que havia uma cena Ballroom em Mato Grosso do Sul, decidiu acompanhá-la de perto.
“Eu achei incrível. Tanto os figurinos quanto a história. Eles ocupam bastante o palco, e o roteiro de dança e a técnica são impressionantes. Eles são muito técnicos. Toda a produção de iluminação e as músicas escolhidas... É uma coisa muito contagiante. Eu adoro assistir. Sempre que posso vir, eu venho.”
Agora no g1
Para as irmãs, a existência de uma cena Ballroom em Mato Grosso do Sul também representa uma forma de ampliar a diversidade cultural do Estado. Em um território frequentemente associado ao agronegócio e visto como conservador, elas consideram importante que manifestações artísticas LGBTQIAPN+ encontrem espaço e público.
“Com toda certeza, acho que é o início de muita coisa. Eu acredito que vai abrir caminho. Eu acho que é representatividade mesmo. Quando uma pessoa inicia, acaba puxando outras pessoas. Talvez alguém que esteja assistindo ali queira estar fazendo também. Acho que é um consumo de cultura mesmo, que pode mudar vidas. Por que não?”, afirma Júlia.
O Palco Giratório
Além de “Peça Única”, outros cinco espetáculos integram a II Mostra Palco Giratório Sesc MS, em Campo Grande, ainda esta semana. Todas as apresentações são gratuitas.
Para mais informações e acesso aos ingressos, basta acessar este link.
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