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PIM registra faturamento de R$ 121,76 bilhões entre janeiro a junho de 2026
G1 — Brasil · 2026-09-10T21:20:14.000Z
PIM registra faturamento de R$ 121,76 bilhões entre janeiro a junho de 2026
O Amazonas subiu três posições no Ranking de Competitividade dos Estados de 2026. Passou do 17º para o 14º lugar, tornou-se o estado mais bem colocado da Região Norte e ficou, ao lado do Ceará, entre as duas unidades da Federação que mais avançaram na classificação geral.
O resultado merece ser reconhecido, pois aponta uma evolução apoiada principalmente nos pilares de potencial de mercado, segurança pública e sustentabilidade social. Mas o mesmo levantamento revela uma contradição que não pode ser ignorada: apesar da melhora geral, o Amazonas continua na 27ª e última posição do país em infraestrutura.
A 15ª edição do estudo foi divulgada em 27 de agosto pelo Centro de Liderança Pública (CLP), com pesquisa técnica da Tendências Consultoria. O ranking avalia as 27 unidades da Federação por meio de 100 indicadores, organizados em dez pilares.
A infraestrutura tem peso de 11,3% na classificação geral - o terceiro maior entre os pilares - e reúne dez indicadores relacionados a telecomunicações, combustíveis, saneamento, voos diretos, energia elétrica, rodovias e fibra óptica. Portanto, não trata apenas de estradas. A pesquisa mede um conjunto de condições que influencia a vida da população e também a capacidade de uma economia atrair, receber e manter investimentos.
Nove dos indicadores de infraestrutura utilizam dados referentes a 2025. A exceção é o custo do saneamento básico, baseado em informações de 2024.
Também é necessário interpretar a evolução geral com algum cuidado. O relatório informa que quatro indicadores do ranking passaram por ajustes metodológicos em 2026. No caso do Amazonas, o pilar de potencial de mercado avançou cinco posições, enquanto o indicador de qualidade do crédito para pessoa física subiu 21 colocações. O próprio estudo ressalva, porém, que o cálculo desse indicador foi alterado nesta edição.
Isso não invalida o avanço do estado, mas recomenda cautela: subir no ranking representa uma melhora em relação às demais unidades da Federação e não significa, necessariamente, que todos os indicadores tenham evoluído na mesma intensidade.
Indústria em expansão
O Amazonas vive um momento marcado por novos projetos e movimentos de expansão industrial. Nos primeiros seis meses de 2026, o Polo Industrial de Manaus (PIM) faturou R$ 121,76 bilhões e registrou média mensal de 130.903 empregos, segundo a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). As exportações alcançaram US$ 391,04 milhões no período.
Novas linhas de produção, ampliações de fábricas e projetos em segmentos como duas rodas, eletroeletrônico, informática, componentes, energia e alimentos mostram que Manaus continua no radar de empresas nacionais e estrangeiras.
Em 14 de agosto, durante a 324ª Reunião Ordinária do Conselho de Administração da Suframa (CAS), foram aprovados 25 projetos industriais e de serviços para a Zona Franca de Manaus. Caso sejam implantadas conforme os planos apresentados, as propostas deverão reunir investimentos estimados em R$ 335,3 milhões e gerar 859 postos de trabalho em até três anos.
Há, portanto, uma dinâmica econômica positiva. O problema é que o crescimento da indústria não ocorre isolado do território, pois cada fábrica que amplia a produção também aumenta a demanda por energia estável, conectividade, transporte de trabalhadores, armazenagem, circulação de insumos e escoamento de produtos.
Quando a infraestrutura não acompanha essa dinâmica, o custo aparece em algum ponto da cadeia. Pode surgir na conta de energia, no combustível, no frete, no tempo perdido durante o transporte, na necessidade de manter estoques maiores ou na demora para entregar um produto ao mercado consumidor.
Nem tudo é negativo
A última colocação não significa que o Amazonas tenha desempenho ruim em todos os indicadores. O levantamento aponta resultados positivos em algumas áreas: o estado aparece em 4º lugar no custo da energia elétrica, em 5º na qualidade dos serviços de telecomunicações e em 9º no custo do saneamento básico. Também ocupa a 12ª posição na disponibilidade de voos diretos.
Esses resultados ajudam a equilibrar a análise e mostram que o estado possui ativos importantes. Ainda assim, indicadores de custo precisam ser interpretados com atenção. Uma tarifa comparativamente menor de energia ou saneamento não significa, por si só, que o serviço tenha ampla cobertura ou qualidade satisfatória.
No caso da energia, essa diferença é particularmente evidente. Embora ocupe o 4º lugar no indicador de custo, o Amazonas está na última posição em acesso à energia elétrica e aparece em 15º lugar na qualidade do fornecimento.
Os pontos mais frágeis têm grande peso sobre um território extenso, marcado por baixa densidade populacional, longas distâncias e forte dependência dos rios.
O Amazonas aparece em 27º lugar no acesso à energia elétrica e no alcance do backhaul de fibra óptica, infraestrutura de transmissão de dados necessária para levar conectividade de alta capacidade aos municípios. Está em 26º na qualidade das rodovias, em 25º no custo dos combustíveis, em 22º na acessibilidade dos serviços de telecomunicações e em 15º na qualidade da energia elétrica, indicador no qual perdeu seis posições em relação à edição anterior.
É importante compreender também o significado da nota zero atribuída ao Amazonas no pilar. Trata-se de uma pontuação normalizada, usada para comparar o desempenho relativo dos estados. Não significa que o Amazonas não tenha infraestrutura, mas que apresentou o menor resultado entre as 27 unidades da Federação na combinação dos dez indicadores avaliados.
O dado se torna ainda mais preocupante porque não representa uma queda isolada. O Amazonas já ocupava a última posição em infraestrutura na edição de 2025. A permanência no fim do ranking indica que os avanços registrados em outras áreas ainda não conseguiram alterar um dos problemas mais persistentes do estado.
A geografia explica, mas não responde por tudo
É preciso considerar as particularidades amazônicas. Um ranking nacional aplica parâmetros comuns a estados com realidades territoriais muito diferentes. No Amazonas, a rodovia não pode ser considerada a única resposta para a logística. Rios, aeroportos regionais, portos, conectividade digital e sistemas descentralizados de energia exercem funções que, em outras regiões, são assumidas predominantemente pelas estradas.
O próprio desenho do levantamento também estabelece um limite para a interpretação do resultado. Entre os dez indicadores de infraestrutura, não existe uma avaliação específica das hidrovias, da capacidade dos portos ou da qualidade do transporte fluvial. Em um estado no qual os rios funcionam como caminhos para passageiros, mercadorias e comunidades inteiras, essa ausência deixa uma dimensão importante fora da comparação.
Isso não invalida o diagnóstico do ranking, mas mostra que ele não alcança toda a complexidade da infraestrutura amazonense.
As particularidades regionais, entretanto, não explicam sozinhas a última colocação. Rondônia ocupa o 7º lugar nacional em infraestrutura, enquanto o Amapá aparece na 10ª posição. São estados com dimensões, populações e redes logísticas diferentes, o que impede comparações automáticas. Ainda assim, os resultados mostram que pertencer à Região Norte não conduz necessariamente às últimas posições.
A geografia ajuda a dimensionar o desafio, mas não pode servir como justificativa permanente para a ausência de planejamento e de soluções adaptadas à região.
Crescer exige preparar o caminho
A expansão do PIM torna essa discussão urgente. Manaus pode continuar aprovando projetos, atraindo marcas e ampliando linhas de produção, mas a competitividade de longo prazo dependerá também do que existe fora dos muros das fábricas.
O incentivo fiscal é decisivo para compensar as desvantagens relacionadas à localização da ZFM. Contudo, quanto maiores forem os gargalos de energia, logística e conectividade, maior será o esforço necessário para sustentar essa compensação.
A infraestrutura precisa ser pensada como parte da política industrial. Isso envolve melhorar os acessos ao Distrito Industrial, ampliar a capacidade portuária, modernizar a navegação e os aeroportos regionais, garantir energia confiável, expandir a fibra óptica e reduzir a vulnerabilidade logística durante as secas severas.
Preparar a infraestrutura para o crescimento industrial também significa olhar para quem movimenta diariamente o Polo. Transporte coletivo, segurança viária, drenagem, iluminação e melhores acessos ao Distrito Industrial afetam a produtividade das empresas, mas, antes disso, determinam quanto tempo e em que condições milhares de trabalhadores chegam às fábricas e retornam para casa.
Também é necessário planejamento integrado entre os governos federal, estadual e municipal, além de diálogo com a Suframa, empresas, trabalhadores e entidades do setor produtivo. Projetos isolados ajudam, mas dificilmente alteram uma posição construída pela combinação de tantos fatores.
O avanço do Amazonas do 17º para o 14º lugar na classificação geral mostra que o estado possui capacidade de melhorar. A liderança entre os estados do Norte também é relevante. Mas permanecer na última posição em infraestrutura pelo segundo ano consecutivo, justamente quando o Polo Industrial recebe novos investimentos e amplia linhas de produção, funciona como um alerta.
Se o Polo cresce, é preciso criar condições para que esse crescimento seja sustentável, competitivo e capaz de espalhar seus benefícios pelo restante do Amazonas. A indústria tem avançado. Agora, a infraestrutura precisa acompanhar esse movimento.
Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.