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Machos de cobra coral são flagrados em 'dança de combate' na Bahia

Corais-verdadeiras são flagradas em 'dança de combate'; cena é confundida com acasalamento

G1 — Brasil · 2026-09-11T14:22:39.000Z

Corais-verdadeiras são flagradas em 'dança de combate'; cena é confundida com acasalamento

Duas cobras corais-verdadeiras (Micrurus sp.) foram flagradas entrelaçadas no quintal de uma casa em Monte Gordo, distrito de Camaçari (BA). À primeira vista, a cena parecia um acasalamento — e foi exatamente o que pensou a artista Luciana Tavares de Farias, de 51 anos, ao registrar o momento.

Mas a interação tinha outro significado. Conforme apuração do Terra da Gente, os animais estavam em uma disputa territorial ou reprodutiva entre dois machos, comportamento conhecido como “dança de combate”.

Luciana havia acabado de chegar de Salvador quando a mãe percebeu a presença das serpentes no quintal e a chamou para ver os animais. Um pedreiro que trabalhava no local chegou a pegar uma enxada, mas a artista pediu que as cobras não fossem mortas. Em seguida, pegou o celular para registrar a cena.

“Naquele momento, só vi beleza e peguei o celular para registrar as duas cobrinhas se enrolando. Inicialmente, achei que elas estavam acasalando”, conta.

A interpretação mudou depois que o vídeo começou a repercutir nas redes sociais. Biólogos especialistas que viram a gravação entraram em contato com Luciana e explicaram que as serpentes estavam em combate — uma interação que pode ser confundida com acasalamento.

Corais-verdadeiras são flagradas em 'dança de combate'; cena é confundida com acasalamento

Luciana Tavares de Farias

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Ao perceber as cobras no quintal, Luciana conta que sua principal preocupação foi evitar que os animais fossem machucados. Ela não se sentiu ameaçada durante o registro e interpretou a movimentação como uma cena de reprodução.

“Minha reação foi realmente a de registrar a cena e proteger os animais”, afirma.

A artista vive há cerca de um mês na casa em Monte Gordo, onde mantém um quintal com plantas e ainda organiza os espaços após a mudança. Segundo ela, a relação com a natureza também está ligada ao trabalho artístico que desenvolve.

Luciana produz mandalas e conta que encontra inspiração nas formas e nos elementos naturais. A casa, batizada de Casa das Lunas (@casadaslunas), surgiu de um projeto que pretende unir arte, contato com a natureza, acolhimento e atividades voltadas ao feminino e ao autoconhecimento.

O encontro com as corais-verdadeiras acabou se tornando um episódio inesperado nessa relação com o ambiente.

“Como na minha narração eu falava sobre acasalamento, isso gerou uma polêmica nos comentários. No fim, entendi que era um duelo de machos e acabei aprendendo bastante sobre as cobras corais”, relata.

O que é a dança de combate da cobra coral?

De acordo com Karina Banci, herpetóloga — especialista em répteis e anfíbios — e pesquisadora do Laboratório de Ecologia e Evolução do Instituto Butantan, os animais registrados são corais-verdadeiras do gênero Micrurus, possivelmente da espécie Micrurus ibiboboca.

A dança de combate ocorre quando dois machos disputam uma fêmea, que poderia estar próxima ao local da briga, ou pode indicar uma disputa por território.

“Durante a interação, os animais entrelaçam os corpos e um deles tenta subjugar o outro usando principalmente a cabeça e a parte anterior do corpo”, explica a herpetóloga.

Embora seja possível identificar machos e fêmeas em algumas espécies de serpentes por características morfológicas, isso não é tão evidente nas corais-verdadeiras. No caso do registro, o próprio comportamento é o principal indicativo de que se trata de dois machos.

Acasalamento raro de cobras corais 'verdadeiras' é flagrado em parque de São Carlos

Lau Menezes/Arquivo pessoal

Como diferenciar uma briga de um acasalamento?

A confusão feita por Luciana não é difícil de acontecer. Nas duas situações, as serpentes podem aparecer próximas e entrelaçadas, mas a posição dos corpos e os movimentos ajudam a diferenciar os comportamentos.

No combate, os machos ficam enrodilhados um no outro e fazem movimentos vigorosos para tentar subjugar o rival. Um deles usa a cabeça e a parte anterior do corpo para pressionar o adversário e tentar “abaixá-lo” em direção ao chão.

Já no acasalamento, macho e fêmea tendem a apresentar as porções posteriores dos corpos entrelaçadas. Durante a cópula, o macho utiliza o hemipênis — órgão reprodutor masculino das cobras —, que é inserido na região cloacal da fêmea.

Dessa forma, é possível observar a olho nu que partes das duas serpentes se “conectam” durante o acasalamento. A situação pode ser vista em imagens de uma matéria do g1 São Carlos, que registrou duas cobras-corais se reproduzindo em um parque.

Comportamento ocorre em outras serpentes

A chamada dança de combate não é um comportamento exclusivo das corais-verdadeiras. De acordo com Karina, já existem registros da interação em outras espécies de serpentes.

Entre os exemplos estão cobras-cipós, caninanas, jiboias-arco-íris e, principalmente, cascavéis.

“É interessante notar que, no caso de espécies que realizam combate, os machos costumam ser maiores do que as fêmeas, ou ao menos são tão grandes quanto elas”, explica a pesquisadora.

Registros como esse revelam comportamentos da natureza que muitas vezes passam despercebidos. Entre movimentos, disputas e interações que ainda despertam a curiosidade de pesquisadores, os animais guardam uma série de mistérios que ajudam a compreender melhor a vida ao nosso redor.

Para quem observa, cada encontro inesperado também pode ser uma oportunidade de descobrir mais sobre a complexidade da natureza.

*Sob supervisão de Rodrigo Peronti.

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