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Alimento do amanhã, tecnologia do hoje

Quando o sol ainda está nascendo, o dia do produtor rural Jacir Macedo Cheffer começa. Todas as manhãs, às 5h15, levanta ao lado de sua esposa, Eliane Duffeck Cheffer, e caminha em direção à ordenha para cuidar dos animais que dão vida à…

G1 — Brasil · 2026-09-11T14:13:16.000Z

Quando o sol ainda está nascendo, o dia do produtor rural Jacir Macedo Cheffer começa. Todas as manhãs, às 5h15, levanta ao lado de sua esposa, Eliane Duffeck Cheffer, e caminha em direção à ordenha para cuidar dos animais que dão vida à propriedade em que reside. O local, de 15 hectares, fica em uma área rural a cerca de 30 quilômetros do centro de Cascavel, no Oeste do Paraná.

O casal conta com a ajuda da filha, Aline Duffeck Cheffer, de 21 anos, que cresceu no campo, envolvida nos afazeres agrícolas desde cedo. Ao todo, são 92 animais na propriedade, mas a principal fonte de renda da família é a pecuária leiteira, movida graças às 47 vacas da raça Jersey.

Essa vida é a herança que Jacir recebeu do pai, que comprou o local em 1974. Desde então, o amor pela agropecuária é passado de geração em geração.

Jacir está há 30 anos atuando na área e vivenciou como as práticas e os utensílios disponíveis eram muito diferentes comparados aos atuais. Com o passar do tempo, os recursos e as tecnologias foram aprimorados, uma realidade que afeta diretamente todos os profissionais rurais, que precisam se adaptar.

Há muito com o que se preocupar quando se trata da alimentação dos animais destinados ao agronegócio. São eles que fornecem vários dos nutrientes que chegam às casas da população. Os processos e cuidados são diversos, e a nutrição funcional é essencial para manter uma dieta equilibrada e saudável, resultando em um produto final com maior qualidade para consumo, venda e exportação, seja de leite, ovos, carne ou qualquer produto de origem animal.

A rotina no campo começa cedo e acompanha o movimento da propriedade.

O veterinário Adriano Ramos Cardoso, coordenador do curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário FAG, explica que uma dieta ideal é baseada em três pilares: genética, nutrição e sanidade. “Se houver sanidade, uma nutrição com todas as dietas balanceadas chegando ao mesmo tempo, energia, todos os aminoácidos essenciais, minerais, vitamina e água, você tem uma dieta balanceada ideal”, elucida.

Para que essa evolução da nutrição seja cada vez mais perceptível, há um fator de suma importância: a tecnologia. Não é de se surpreender que o século XXI seja repleto de avanços tecnológicos em todas as áreas e, com o agronegócio, não seria diferente.

A inserção de ferramentas decorrentes da IA (Inteligência Artificial) se fez presente como um auxílio aos produtores rurais, um meio para facilitar o dia a dia e contribuir com a qualidade do serviço.

Tecnologia no campo

Na propriedade da família Cheffer, a tecnologia é incorporada gradualmente à rotina do campo.

A propriedade da família de Jacir conta com o apoio técnico do IDR-Paraná, o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná, há cerca de 10 anos. Atualmente, quem realiza o trabalho no local é o extensionista Endrigo Antônio Carvalho.

O técnico conta que os serviços se intensificaram a partir de 2018, momento em que a metodologia de trabalho adotada pela Extensão Rural previu a necessidade do serviço a partir da denominação de Unidades de Referência. Com isso, foram levadas ao local novas tecnologias, com o objetivo de servir de referência e compartilhar os resultados com outros produtores.

Endrigo realiza duas visitas mensais, uma para tratar de questões de gestão e outra para o âmbito técnico. Ele explica que, no local, é usada forragem cortada e silagem de milho na alimentação dos animais. “Para concentrado, é utilizada uma ração comercial, complementada com farelos (soja e milho), aveia branca, grão inteiro e outros alimentos que o produtor produz dentro da propriedade”, completa.

Próximos passoe sclarece ainda que, no caso das vacas, o alimento é baseado estritamente na necessidade nutricional, aspecto que varia conforme o peso, período de lactação, potencial de produção, escore de condição corporal e ambiência.

“Várias tecnologias são utilizadas, ainda que não automatizadas e informatizadas, como o uso de pastagens melhoradas, de alta qualidade e adaptadas à região, análise e correção de solo, adubação de manutenção das pastagens, uso de híbridos de milho para silagem adequados para a região e nutrição animal individualizada por vacas”, explica o extensionista.

Inovação como chave da produtividade no agronegócio

Segundo o coordenador do curso de Inteligência Artificial do Centro Universitário FAG, Sérgio Mota, a produção de rações está cada vez mais dependente de dados, incluindo aspectos como clima, ingredientes, saúde animal e mercado.

“A IA já é aplicada em grandes players mundiais de nutrição animal para ajustar formulações em tempo real, prever demandas nutricionais específicas de aves (independente do tipo de criação), reduzir custos e perdas na produção. A nutrição funcional ganha força: não apenas alimentar, mas para promover saúde, resistência a doenças e qualidade final da carne/leite/ovos”, esclarece.

Mota relata ainda que, entre os principais benefícios do uso da IA, estão a diminuição de desperdícios de insumos, a redução de emissão de gases e o uso mais eficiente de subprodutos agrícolas.

Nutrição, sanidade e manejo caminham juntos para garantir a qualidade da produção.

Já diante da produtividade, a tecnologia apresenta uma melhor conversão alimentar, com menos ração para o mesmo ganho de peso, prevenção de doenças via nutrição preventiva, reduzindo o uso de antibióticos, e qualidade superior da carne, leite e ovos, atendendo ao consumidor final.

Para cada dado, a tecnologia analisa diferentes aspectos a fim de recomendar formulações personalizadas para determinado lote ou região:

Dados zootécnicos: peso, conversão alimentar, mortalidade e ganho médio diário;

Dados ambientais: temperatura, umidade e densidade populacional;

Dados de ingredientes: composição nutricional, variação de safras, disponibilidade e custo;

Dados de saúde: biomarcadores de imunidade e microbiota intestinal;

Dados de mercado: preço de insumos e demanda de proteína animal.

Como exemplos, diante dos diversos recursos disponíveis para investir, Mota recomenda ferramentas que servem para facilitar a vida no campo.

“Há plataformas de formulação inteligente, aquelas que usam IA para balancear nutrientes e custo, sensores IoT em granjas, que captam dados em tempo real do ambiente, consumo e movimentação, modelos preditivos, que simulam cenários de crescimento e produtividade, a Machine Learning, aplicada à nutrição funcional, que identifica quais combinações de ingredientes (óleos, fibras, probióticos, enzimas) apresentam o melhor efeito sobre o bem-estar animal, e a integração com ERPs agrícolas (Enterprise Resource Planning ou Planejamento de Recursos Empresariais), que conectam gestão de estoque, compras e vendas”, exemplifica.

Em meio à paisagem rural, tecnologia e tradição caminham juntas.

Endrigo, por sua vez, explica como o uso da tecnologia já impacta na sustentabilidade da produção de Jacir: “[...] a IA permite oferecer a quantidade e qualidade exata de nutrientes que cada vaca necessita, gerando menor desperdício de nutrientes, reduzindo o excesso de proteína ou energia na dieta, diminuindo a excreção de nitrogênio e fósforo no esterco e na urina, com impactos positivos, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa, com menos fermentação entérica e menor produção de metano por litro de leite produzido. Além de melhor aproveitamento dos recursos naturais: como pastagens, concentrados e suplementos minerais, diminuindo a pressão sobre o solo e a água.”

O cenário atual do uso da IA na produção agrícola apresenta uma perspectiva positiva a partir, principalmente, de investimentos na coleta de dados, com sensores e softwares de gestão, parcerias com empresas de nutrição e capacitação técnica para interpretar relatórios de IA.

O coordenador do curso de Inteligência Artificial recomenda ainda começar com ferramentas simples, para então evoluir para plataformas mais complexas. “Em resumo, o uso de tecnologias de ponta na produção de animais em grande escala é um mercado promissor, que tem ampliado o alcance dos produtores aos mercados mais exigentes. Entretanto, o elevado investimento e a necessidade de infraestrutura tecnológica nas propriedades e conectividade ainda limitam o acesso em muitas regiões do Brasil”, explica.

O manejo adequado dos animais é parte essencial para garantir saúde, bem-estar e qualidade na produção.

De acordo com o extensionista, os planos futuros para os negócios de Jacir continuam: “Vamos avaliar a adoção de equipamentos para distribuição automática de ração, raspadores automáticos de esterco, indicadores zootécnicos automatizados e sensores ambientais. Estes são alguns dos planos para médio e longo prazo”, conta.

O produtor continuará estudando e aprimorando sua propriedade rural para se adaptar às novas tecnologias. Fica para a filha Aline seguir o mesmo caminho, para que, no futuro, a herança da família esteja cada vez mais atualizada diante das ferramentas disponíveis na modernidade.

Texto produzido por Emanuele Moreira, acadêmica do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, sob orientação da professora Julliane Brita, para a 24ª edição da Revista Verbo, veiculada na 5ª edição do City Farm FAG.

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