ITATIBA1
O presidente da Argentina, Javier Milei, cumprimenta a guarda presidencial montada durante a cerimônia de abertura da 138ª exposição anual da Sociedade Rural, em Buenos Aires.
G1 — Mundo · 2026-09-12T08:00:00.000Z
O presidente da Argentina, Javier Milei, cumprimenta a guarda presidencial montada durante a cerimônia de abertura da 138ª exposição anual da Sociedade Rural, em Buenos Aires.
Mariana Nedelcu / Reuters
O galpão está às escuras, as máquinas estão desligadas e caixas de mercadorias encalhadas se acumulam. A fábrica de sapatos Kioshi, que tinha 120 funcionários em 2023, conta hoje com apenas 14. O cenário virou símbolo da crise enfrentada por parte da indústria argentina e alimenta o debate sobre o modelo do presidente Javier Milei.
Enquanto o governo do presidente ultraliberal destaca a queda da inflação e a desregulamentação da economia, empresários alertam para a perda de empregos, a concorrência desleal e a retração do consumo.
"O mercado interno está morto, as pessoas não têm dinheiro para consumir, dificilmente vão comprar calçados", diz Emmanuel Fernández, diretor da Kioshi, localizada em Esteban Echeverría, nos arredores de Buenos Aires.
A isto se soma uma "avalanche de importação", acrescenta.
Agora no g1
Na semana passada, a União Industrial Argentina (UIA) pediu medidas diante da abertura econômica e da perda de aproximadamente 90 mil empregos na indústria desde agosto de 2023.
Em junho, a indústria argentina operava com cerca de 40% de capacidade ociosa. A produção manufatureira caiu 5% entre junho e julho, o maior recuo em 16 meses, segundo dados oficiais divulgados na terça-feira (8).
No mesmo dia em que o setor industrial apresentou a reivindicação, o presidente ultraliberal afirmou que sua política de austeridade e desregulamentação "não é negociável".
Desde que Milei assumiu o cargo, em dezembro de 2023, cerca de 30 mil empresas fecharam as portas, segundo dados do setor.
O presidente afirma que os empregos perdidos em um setor serão criados em outros, capazes de competir internacionalmente.
Mas, para Emmanuel Fernández, o governo está "em uma bolha", pois "tudo o que se vê é que as pessoas que ficam sem emprego vão trabalhar nos aplicativos".
Da fábrica à Uber
Em Zárate, cidade industrial a 90 km de Buenos Aires, Miguel Márquez olha com tristeza para o portão da fábrica de produtos químicos Clariant, onde trabalhou por 20 anos, até o fechamento da unidade, em 2025.
O capim cresce entre as placas de cimento do estacionamento vazio. Já não se ouve o barulho das máquinas, apenas o canto dos pássaros.
Márquez conta que apenas dois dos 42 demitidos conseguiram um emprego formal. Os demais, como ele, hoje com 62 anos, sobrevivem de trabalhos informais, como dirigir para aplicativos.
A Clariant fabricava insumos para a indústria petroleira durante o auge da jazida de Vaca Muerta, mas decidiu passar a importar os produtos de sua fábrica no Brasil e encerrar a operação na Argentina.
"Como não têm nenhuma restrição, convém a eles trazer do Brasil", explicou Márquez.
A economia argentina cresceu em 2025, impulsionada pelos hidrocarbonetos, pela mineração e pelo agronegócio. Mas a retração do comércio e da indústria afeta as grandes cidades, onde vive a maior parte da população.
Desde 2023, a Argentina perdeu mais de 240 mil empregos formais no setor privado.
Após a reivindicação da UIA, o ministro da Economia, Luis Caputo, afirmou que seu papel é "defender os interesses de 48 milhões de argentinos, não de determinados empresários".
"Me parece imoral e injusto que os argentinos tenham que pagar por bens de menor qualidades duas, quatro, dez vezes o seu valor", destacou, em defesa da abertura.
Mas os empresários da indústria afirmam que o cenário é desfavorável.
"Ninguém quer não competir, mas também você tem que ter condições para competir", disse à AFP Alejandro Mayer, vice-presidente da fábrica de circuitos Ernesto Mayer, na periferia norte de Buenos Aires, hoje com a metade de suas máquinas desligadas.
Mayer destaca que há um "atraso cambiário" que encarece os produtos locais em dólares. A isso se somam juros elevados sobre o crédito e uma carga tributária que, segundo ele, impede a competição com produtos de países como a China, embora a eficiência seja semelhante.
Milei reduziu a inflação, que estava em três dígitos quando assumiu a Presidência, para 33,8% na comparação interanual em julho, um dos principais resultados econômicos reivindicados por seu governo.
Mas "a economia não pode ser medida apenas pela evolução da inflação, temos que olhar para a atividade", disse o presidente da UIA, Martín Rappallini.
Além da concorrência dos produtos importados, os empresários da indústria apontam a fragilidade do consumo.
A poucos quarteirões da Mayer, a fábrica de cordas para instrumentos Martin Blust, que emprega dez pessoas, fecha às sextas-feiras por falta de encomendas. "Não há inflação porque não há compras", afirma sua sócia, Gloria Aparicio.
Segundo diversas pesquisas, emprego e salários superaram a inflação como principal preocupação dos argentinos, um sinal de alerta para Milei, que tentará a reeleição em 2027.
Na Kioshi, Fernández testemunha essa angústia. Seus funcionários pedem antecipações salariais para conseguir pagar o transporte até a fábrica.
Estão "frustrados e irritados", diz. E isso "se percebe na vontade e também se nota na rua".