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Pedido silencioso de socorro durante teleconsulta ao lado de agressor salva mulher do Rio; Anuário aponta alta de feminicídios

O Brasil registrou, em 2025, o maior número de feminicídios desde o início da série histórica do Anuário da Segurança Pública, estudo lançado nessa semana. O documento aponta que foram 1.571 mulheres mortas por razões de gênero, alta de 4%…

G1 — Brasil · 2026-07-25T09:00:18.000Z

O Brasil registrou, em 2025, o maior número de feminicídios desde o início da série histórica do Anuário da Segurança Pública, estudo lançado nessa semana. O documento aponta que foram 1.571 mulheres mortas por razões de gênero, alta de 4% em relação ao ano anterior. Em meio a esse cenário, uma moradora do Rio vítima de agressões dentro de casa viu seu companheiro ser preso em flagrante, após ela pedir ajuda pelo chat de uma consulta por telemedicina, sem que ele percebesse. O homem, que estava no mesmo ambiente da vítima, foi acusado de lesão corporal.

Após alguns minutos de consulta por vídeo, o médico da operadora de saúde percebeu que havia algo errado. A paciente não conseguia explicar o motivo do atendimento, evitava falar e passou a se comunicar apenas pelo chat da plataforma de telemedicina. As mensagens revelaram um cenário de violência doméstica e deram início a uma operação silenciosa para garantir a segurança da mulher sem levantar suspeitas de quem estava ao lado dela. (Veja os detalhes ao longo da reportagem).

O caso aconteceu em junho e ilustra um dos principais alertas do Anuário Brasileiro de Segurança Pública: o feminicídio costuma ser o desfecho de uma sequência de agressões, ameaças e outras formas de violência que poderiam ser interrompidas antes de chegar ao extremo.

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Recorde de feminicídios

Divulgado anualmente pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública reúne informações enviadas pelas secretarias estaduais de Segurança Pública, polícias civis e militares e outras bases oficiais. O levantamento é uma das principais referências do país para acompanhar a evolução da violência e orientar políticas públicas de prevenção e enfrentamento.

Os números mostram que o feminicídio, na maioria das vezes, não acontece de forma repentina. Antes do assassinato, muitas vítimas já passaram por episódios de ameaça, agressões físicas, perseguição, violência psicológica e descumprimento de medidas protetivas.

Foi exatamente esse contexto que cercava a paciente atendida por telemedicina no Rio (o nome da vítima será preservado). Impedida de falar livremente durante a consulta, ela encontrou no chat da plataforma uma oportunidade para romper o silêncio e acionar uma rede de proteção antes que a violência pudesse ter um desfecho ainda mais grave.

O Anuário também mostra que, em 2025:

1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio, alta de 4% em relação a 2024;

as tentativas de feminicídio cresceram 5,9%;

os registros de lesão corporal em contexto de violência doméstica aumentaram 2,6%;

os casos de perseguição cresceram 30,1%;

a violência psicológica aumentou 16,9%;

os registros de descumprimento de medidas protetivas cresceram 16,7%.

O perfil dos casos também ajuda a entender por que tantas mulheres têm dificuldade para denunciar. Nos registros em que a autoria foi identificada, 60,9% dos feminicídios foram cometidos por parceiros íntimos e 18,9% por ex-companheiros.

Além disso, 62,5% dos crimes ocorreram dentro da residência, justamente o ambiente em que muitas vítimas permanecem sob controle do agressor e encontram obstáculos para buscar ajuda, como ocorria com a vítima que conseguiu se livrar do parceiro agressor.

Violência doméstica em alta no RJ

Embora o Rio de Janeiro não tenha acompanhado o crescimento nacional dos feminicídios em 2025, os números do Anuário mostram que a violência contra a mulher continua sendo um desafio no estado. O levantamento registrou uma pequena redução nos feminicídios — de 107 para 105 casos (-1,9%) —, mas aponta aumento em outros indicadores que ajudam a explicar como a violência se mantém presente no cotidiano de milhares de mulheres fluminenses.

Foi nesse contexto que a moradora do Rio encontrou na telemedicina uma oportunidade para pedir ajuda sem despertar a atenção do companheiro. Assim como acontece em muitos casos de violência doméstica, a agressão ocorreu dentro de casa, onde a vítima recebeu socos e chutes na cabeça, no rosto e no abdômen.

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Entre os principais indicadores do estado, o crescimento mais expressivo foi o de registros de descumprimento de medidas protetivas, que passaram de 4.846 para 5.870 em um ano, alta de 21,1%.

O número revela que, mesmo depois de recorrerem à Justiça, muitas mulheres continuam expostas a situações de risco e precisam de uma rede de proteção capaz de agir rapidamente.

Os registros de ameaça contra mulheres também aumentaram, passando de 46.203 para 47.464 ocorrências, crescimento de 2,7%. Já os casos de lesão corporal em contexto de violência doméstica permaneceram praticamente estáveis: foram 42.742 registros em 2024 e 42.363 em 2025.

No Rio de Janeiro, o Anuário mostra que:

105 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025, contra 107 no ano anterior (-1,9%);

os homicídios de mulheres passaram de 248 para 265, alta de 6,8%;

os registros de ameaça cresceram de 46.203 para 47.464 (+2,7%);

os casos de descumprimento de medida protetiva aumentaram de 4.846 para 5.870 (+21,1%);

os registros de lesão corporal em contexto de violência doméstica ficaram praticamente estáveis, passando de 42.742 para 42.363.

Em muitos episódios de violência doméstica, o maior obstáculo não é apenas sofrer a agressão, mas conseguir encontrar um momento seguro para pedir ajuda. No caso da moradora do Rio, essa oportunidade surgiu durante uma consulta médica on-line.

Pedido silencioso pode salvar vidas

O atendimento começou como tantos outros realizados diariamente pelo serviço de telemedicina da Amil. No último dia 28 de junho, uma consulta de urgência foi aberta em nome do marido da paciente. Os dois estavam no mesmo ambiente durante a chamada de vídeo e, aparentemente, nada indicava que aquele seria um dos atendimentos mais marcantes da equipe médica.

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Segundo a gerente médica de Estratégia Clínica e Digital da Amil, Laís Santana Barbosa, a paciente não conseguia evoluir com a consulta. Havia algo na postura dela que chamou a atenção da equipe médica responsável pelo atendimento.

"A gente tem um serviço de telemedicina de urgência que funciona 24 horas todos os dias. Nesse dia foi solicitado um atendimento que chegou em nome do marido da paciente. Eles estavam no mesmo ambiente no momento da ligação por vídeo".

A equipe médica percebeu a dificuldade da paciente em evoluir com a consulta. Era nítido que havia algo errado antes do fim da ligação, mas a paciente não conseguiu dar continuidade ao atendimento e desligou. A equipe fez o registro, mas não teve desdobramentos. A história, porém, não terminou ali.

No dia seguinte, a mulher conseguiu retomar o contato com a equipe por uma nova chamada de vídeo. Mais uma vez, o companheiro permanecia no mesmo ambiente, o que a impedia de relatar o que havia acontecido desde o primeiro atendimento.

Mesmo em silêncio, alguns detalhes começaram a revelar que havia algo muito mais grave por trás da consulta.

"No dia seguinte, a paciente conseguiu retornar a ligação por vídeo e retomou o atendimento. Como o agressor continuava no mesmo ambiente e a ligação era por vídeo, ela não poderia falar diretamente o que tinha acontecido".

"Mas nessa chamada escondida, o médico conseguiu perceber os hematomas e percebeu as agressões. Foi então que eles continuaram o atendimento pelo chat e não mais por chamada de vídeo", contou a médica responsável.

Violência contra a mulher

Foi pelo chat da plataforma que a paciente conseguiu pedir ajuda sem despertar a atenção do companheiro.

Segundo a Amil, ela relatou que havia sido espancada com socos e chutes na cabeça, no rosto e no abdômen e enviou fotografias mostrando as lesões. A equipe concluiu que se tratava de uma situação de risco iminente e acionou imediatamente a rede de proteção.

Laís explicou que a mudança da conversa por vídeo para o chat foi decisiva para que a mulher conseguisse relatar o que estava acontecendo.

"O marido não percebeu o papo pelo chat. E nessa conversa, o médico confirmou que a paciente tinha sido agredida e imediatamente acionou o protocolo para esses casos (ligando para a polícia e outros órgãos de segurança)", contou.

Enquanto o médico permanecia conectado com a paciente, outra equipe da operadora assumiu a articulação com a rede de proteção. Segundo a Amil, o atendimento inicial durou cerca de 15 minutos, tempo suficiente para identificar a violência, acolher a vítima e iniciar o protocolo de emergência.

De acordo com a médica, a paciente permaneceu em contato com a equipe até conseguir sair de casa e ser localizada pela Polícia Militar. O homem foi preso em flagrante por lesão corporal grave. Depois do resgate, a mulher registrou ocorrência, obteve medida protetiva e iniciou os procedimentos para o divórcio com apoio da Defensoria Pública.

O desfecho do caso ainda emociona a médica que participou do atendimento.

"A gente espera que nunca aconteça, claro. Ninguém quer passar por isso. Mas percebendo essa situação e vendo a gravidade da situação, a gente fica muito feliz, muito emocionada com o desfecho. A gente vê na mídia que isso (feminicídio) acontece o tempo todo", se emocionou Lais.

Em seguida, com a voz embargada, ela resumiu o sentimento da equipe diante do atendimento.

"Saber que esse atendimento ajudou a salvar essa mulher, que podia acontecer algo pior, é gratificante. Ter um serviço que pode ser usado como porta de acesso, é muito bom. Esperamos que isso nunca aconteça, mas é emocionante participar e saber que conseguimos atuar de forma muito rápida e dar uma solução pra ela", comentou Laís.

A paciente atendida pela equipe da Amil não foi a primeira mulher vítima de violência doméstica a buscar ajuda durante uma consulta médica sem conseguir dizer, com todas as palavras, o que estava acontecendo.

Segundo a gerente médica Laís Santana Barbosa, situações semelhantes já fazem parte da rotina dos profissionais que trabalham no serviço de telemedicina, embora raramente com um desfecho tão complexo quanto o registrado no caso da moradora do Rio.

"Já aconteceu. A gente recebe muita tentativa de suicídio, com pacientes no ato, com desfechos positivos também. Já teve paciente no momento da ação e que depois do atendimento desistiu."

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Segundo a médica, dificilmente uma vítima de violência doméstica inicia uma consulta dizendo que foi agredida. Na maior parte das vezes, ela procura atendimento por causa da dor provocada pelas lesões ou por sintomas que parecem não ter relação com a violência.

Por isso, além de investigar o quadro clínico, os profissionais são treinados para observar mudanças de comportamento, respostas vagas, hesitação ao falar e sinais físicos que podem indicar uma situação de risco.

"Geralmente, a mulher vítima nunca acha que vai acontecer novamente. Normalmente ela procura o atendimento preocupada com a dor da agressão, mas não fala da agressão em si. O médico precisa perceber essa demanda oculta. O paciente não fala diretamente, mas essas percepções a gente orienta a equipe para ter", explicou.

Na telemedicina, esse olhar precisa ir além do relato do paciente. Um hematoma discreto, uma câmera que muda repentinamente de posição, um olhar constante para fora da tela ou um gesto quase imperceptível podem indicar que há outra pessoa no ambiente e que a vítima não consegue falar livremente.

Em muitos casos, o pedido de ajuda acontece justamente por meios indiretos, como mensagens escritas ou pequenos sinais durante a consulta.

"A forma como o médico aborda é muito importante. Ele deve fazer uma escuta ativa e observar os sinais não verbais. Podem ser sinais muito sutis para informar que o agressor está no mesmo ambiente, uma virada de câmera, um sinal com a cabeça. As vezes as marcas estão escondidas e a paciente tenta mostrar sem chamar atenção", comentou.

Além da observação durante a consulta, a equipe também analisa o histórico de atendimentos. Pacientes que procuram assistência repetidas vezes pelo mesmo tipo de dor, sem uma explicação clínica clara, ou que demonstram comportamento retraído podem exigir uma investigação mais cuidadosa.

Violência contra a mulher, abuso, assédio sexual

Marcelo Camargo/Agência Brasil

Outro comportamento conhecido pelos profissionais é o chamado "sinal da maçaneta". A expressão descreve situações em que o paciente só consegue revelar o verdadeiro motivo da consulta no momento em que o atendimento está terminando, quando se sente mais seguro para falar.

"O paciente chega falado de uma dor de garganta e no final ele diz que quer falar a verdade e acaba desabafando tudo que aconteceu, os casos de violência..."

Para Laís, o principal aprendizado deixado por casos como o da paciente do Rio é que pedidos de socorro nem sempre chegam da forma esperada. Eles podem aparecer em um silêncio, em uma mensagem escrita ou em um gesto discreto.

"O mais importante é saber em um caso desse é que a gente nunca deve tratar uma manifestação de sofrimento como algo menor e o pedido de ajuda pode chegar de diversas formas.", orientou Laís.

"No nosso caso, uma mensagem no site salvou a vida dessa mulher. E um profissional preparado para agir e acolher foi fundamental."

Diferentes formas de pedir ajuda

O pedido silencioso feito durante a teleconsulta não é o primeiro caso a chamar atenção pela criatividade usada por vítimas de violência doméstica para buscar socorro. Em maio deste ano, uma mulher em São Paulo ligou para o telefone de emergência da Polícia Militar e fingiu estar fazendo um pedido de pizza.

A policial que atendeu a ligação percebeu que havia algo errado e passou a fazer perguntas como se estivesse anotando um pedido de entrega. Enquanto isso, conseguiu confirmar o endereço da vítima e acionou equipes da PM.

Quando os policiais chegaram ao local, avisaram por telefone que "a pizza havia chegado". A mulher então conseguiu sair da casa e contou que era vítima de violência doméstica. Segundo a polícia, o companheiro foi preso em flagrante. Dentro da residência, os agentes encontraram um revólver calibre .38 com munições escondido no imóvel.

Mulher simula pedido de pizza ao 190 e é salva de agressor pela PM em SP

Para a médica Laís Santana Barbosa, os dois episódios mostram que não existe um único caminho para romper o ciclo da violência.

"Por exemplo essa pessoa (de São Paulo) teve essa sacada de 'pedir uma pizza' pra polícia. A vítima pode pedir ajuda de várias formas. É importante essa divulgação para mostrar os diferentes canais, como a ligação na polícia ou pelo teleatendimento.", comentou.

Seja por uma ligação para o 190, por uma mensagem escrita durante uma consulta médica, por um gesto discreto ou por uma palavra aparentemente comum, especialistas destacam que o mais importante é que a vítima encontre uma forma segura de acionar a rede de proteção.

Disque 190 para acionar a Polícia Militar em casos de emergência. Caso seja agredida e o autor esteja no local, tente de forma discreta ligar para a polícia. Há códigos como fingir que está pedindo uma pizza ou solicitando algum serviço de comida, ou farmácia.

Disque 180 para acionar a Rede de Atendimento à Mulher em situação de violência

Telefone para o número 100 para denúncias de violação de Direitos Humanos. A denúncia pode ser para você ou para terceiros.

Procure uma delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) quando quiser registrar boletins de ocorrência, solicitar medidas protetivas e pedir exames de corpo delito. Em caso de agressão, é indicado ir o mais rápido possível para maior precisão no exame e possibilidade de prisão em flagrante do autor, que se dá nas primeiras 24 horas após o crime.

WhatsApp do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: (61) 99656- 5008

Unidades do Ministério Público para se informar e pedir ajuda na solicitação de medidas protetivas

Delegacia cria rede de apoio

Uma parceria entre a 37ª DP (Ilha do Governador) e a Universidade Estácio de Sá oferece atendimento psicológico gratuito a mulheres vítimas de violência doméstica. A iniciativa também prevê orientação jurídica, apoio à empregabilidade e, quando necessário, acompanhamento de familiares. O objetivo é fazer com que a delegacia não seja apenas o local da denúncia, mas também o início da reconstrução da vida da vítima.

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