ITATIBA1

Cabeleireira trans converte resistência em trabalho e luta por oportunidades no AC: 'Continuo existindo'

Cabeleireira trans converte resistência em trabalho e luta por oportunidades no Acre

G1 — Brasil · 2026-09-13T11:00:00.000Z

Cabeleireira trans converte resistência em trabalho e luta por oportunidades no Acre

Nós existimos e fazemos parte dessa sociedade que até hoje nos recrimina, nos oprime, não nos dá oportunidade.

Aos 47 anos, a cabeleireira trans Antonella Machado de Albuquerque carrega uma trajetória marcada por desafios, mas também pela construção de caminhos para si e para outras pessoas. Empreendedora e militante há mais de 20 anos pelos direitos da população LGBTQIAPN+, ela encontrou na área da beleza uma forma de conquistar autonomia profissional e, na atuação social, uma maneira de transformar a própria experiência em luta coletiva.

🏳‍🌈 Neste domingo (13), Rio Branco celebra a 20ª edição da Parada do Orgulho LGBTQIAPN+. O evento faz parte da programação da Semana da Diversidade que integra o calendário cultural do estado e traz atividades voltadas à educação, empreendedorismo, juventude, esporte e cultura voltadas à população LGBT+.

Depois de mais de duas décadas na militância, Antonella diz que olhar para a própria trajetória também significa lembrar das pessoas que ficaram pelo caminho.

“Com essa parada agora dos 20 anos, isso representa muito para a gente. A militância é 20 anos de luta, 20 anos de resistência, são 20 anos de lágrimas. Quantos amigos e amigas a gente perdeu no decorrer desses 20 anos?”, questionou com emoção.

Natural de uma família de três irmãos, Antonella conta que precisou enfrentar o preconceito desde o processo de afirmação de sua identidade. Para ela, as dificuldades enfrentadas pela população trans ainda seguem presentes desde então, principalmente no acesso ao trabalho e à saúde.

“A vida da pessoa trans nunca é fácil mesmo. A sociedade nunca nos aceita e não nos dá a oportunidade, principalmente na parte de empregabilidade, no atendimento à saúde. Às vezes a gente procura o atendimento à saúde e não respeitam a nossa identidade de gênero, nosso nome social. Na parte de empregabilidade é pior, porque não dão a oportunidade de emprego para a gente, por mais qualificada que a pessoa seja”, desabafou.

Antonella Machado de Albuquerque tem 47 anos, é cabeleireira trans e reforça o combate à transfobia

Empreendedora retifica nome e gênero em documentos após 4 anos no Acre: 'Lutando há muito tempo'

'Caminhando para a mudança', diz 1ª mulher trans a se formar em Educação Física na Ufac

'É nosso direito poder estudar', diz primeira travesti formada em psicologia em universidade no Acre

Escritora trans do AC lança coletânea de poesias baseada em desilusão amorosa e experiências de vida: 'Livro dolorido'

Com estudo sobre violência contra travestis, atriz é a 1ª aluna trans a concluir mestrado no Acre

Foi diante das portas fechadas no mercado de trabalho que Antonella decidiu construir o próprio caminho. Há 22 anos, ela atua profissionalmente como cabeleireira e mantém seu trabalho na área da beleza, atividade esta que começou a aprender também como uma forma de driblar o preconceito.

“Eu comecei a aprender, no caso, por preconceito mesmo, porque eu trabalhava nos salões. A maioria dos salões aqui em Rio Branco dificilmente aceitava pessoas travestis e transexuais para trabalhar na área da beleza. Por mais que seja uma super profissional, eles têm alguns salões que não aceitam por preconceito mesmo. Não colocam no quadro de funcionários”, descreveu.

A escolha pela profissão, no entanto, não ocorreu apenas pela necessidade de encontrar uma fonte de renda. A empreendedora diz ter identificado na área um talento que decidiu aperfeiçoar ao longo dos anos.

“Eu escolhi o ramo da beleza por essa oportunidade e pelo dom. Não é porque você é gay ou trans que você já tem o dom de ser cabeleireiro, de cortar um cabelo, de fazer uma colorimetria. Você tem que ter o dom mesmo, e eu vi que eu tinha”, afirmou.

Antonella Albuquerque atua na área da beleza há mais de 20 anos; ela argumenta que talento conta muito para esta profissão

O primeiro curso profissionalizante que Antonella fez foi há 22 anos, em uma formação voltada para pessoas de baixa renda. Desde então, ela continuou buscando capacitações específicas, ampliando a experiência profissional e até passou a incluir a formação de outras mulheres.

Em 2024, por exemplo, ela participou de um curso de cabeleireiro destinado a dez mulheres em situação de vulnerabilidade social, sendo cinco trans e cinco cisgêneros. A iniciativa representa uma das formas encontradas por Antonella para fazer com que o conhecimento adquirido ao longo da carreira seja também uma ferramenta de transformação para outras pessoas.

“Foram três meses, elas ganharam bolsa e, na finalização do curso, ganharam seus kits profissionais para começar a ter uma renda extra, para ver se saíam um pouco dessa vulnerabilidade social, das noites, das esquinas”, relembrou.

Trabalho da associação

Além do trabalho como empreendedora, Antonella ocupa atualmente a presidência da Associação das Travestis, Mulheres e Homens Trans do Acre (Attrac), entidade que atua na defesa e no acolhimento da população trans no estado.

Segundo ela, a aproximação com o movimento social ocorreu durante o próprio processo de transição. Antonella conta que começou participando de reuniões e conheceu outras mulheres que já atuavam na militância, até assumir uma posição de liderança na associação.

“A Atrrac entrou na minha vida quando eu estava fazendo transição. Eu participava sempre das reuniões. Certa vez eu conheci a Raissa, que infelizmente não está mais nessa terra, e estava vendo o trabalho da associação e dela. Foi uma mulher travesti que eu conheci. Aí comecei a ficar à frente da associação com outras companheiras, porque a gente sozinha não faz nada. A gente tem um conjunto coletivo”, descreveu.

Antonella Albuquerque é presidente da Associação das Travestis e Mulheres e Homens Transexuais do Acre

À frente da entidade, que integra a Rede Trans Brasil, Antonella também participa de ações e projetos voltados à população trans em âmbito estadual e nacional, além de iniciativas relacionadas à saúde e aos direitos da população trans.

Atualmente, a cabeleireira está envolvida no projeto Travessia 2.0, voltado à realidade de pessoas trans privadas de liberdade. A proposta, de acordo com ela, é compreender as condições de vida dessa população dentro do sistema prisional e contribuir para que sejam garantidos atendimento e tratamento dignos.

Para Antonella, a associação também cumpre uma função de representatividade e acolhimento diante de situações de violência e discriminação. Ela relembra ainda o caso da morte de Fernanda Machado, amiga dela assassinada a pauladas em 2020, em Rio Branco.

“A importância da associação para a sociedade é mostrar que nós existimos, que fazemos parte dessa sociedade que até hoje nos recrimina, nos oprime, não nos dá oportunidade. Sofremos transfobia. Então, a associação dá essa representatividade, esse acolhimento no que a gente puder fazer para se acontecer algum caso. Nós tivemos o último caso de homicídio aqui já tem uns anos. Infelizmente foi com a minha amiga Fernanda Machado, que ela se foi, [assassinada] a pauladas”, destacou.

Ao longo da atuação, a empreendedora descreve que a entidade também desenvolve ações sociais, como cortes de cabelo e atividades de apoio, além de estabelecer parcerias com órgãos públicos e instituições que podem contribuir na garantia de direitos.

Antonella também participa de movimentos nacionais de luta ao preconceito contra pessoas trans

Luta e resistência

A própria história de Antonella também se tornou símbolo de uma conquista pessoal. Há cerca de 12 anos, ela foi uma das primeiras mulheres travestis do Acre a fazer a retificação de nome e gênero em seus documentos, em um período em que o procedimento ainda dependia de decisão judicial.

A conquista, porém, não apagou as experiências de preconceito vividas ao longo da vida. Antonella relata episódios de violência física e situações de desrespeito mesmo em espaços onde deveria ser atendida com dignidade.

As lembranças ainda causam sofrimento e, segundo ela, deixam traumas psicológicos que não desaparecem facilmente.

“Preconceito, agressão física eu já passei e várias vezes. Já fui espancada, arrastada pelos cabelos, chutada, levei carreira [sic.] de cinco homens. Não gosto nem de lembrar dessas partes da minha vida porque ficam sequelas no nosso psicológico mesmo. A gente não esquece nunca o sofrimento quando a gente passa. É muito triste [...] Nessa época eu vi a morte à minha frente, mas Deus me protegeu”, lamentou.

Antonella Albuquerque luta contra o preconceito e pelos direitos de pessoas trans no Acre

Ao falar sobre as perdas, a emoção toma conta de Antonella. Apesar disso, ela reforça que continuar a ocupar espaços é parte da luta que escolheu seguir.

“A gente continua lutando e resistindo para sobreviver. Essa sociedade ainda é complicada. Eles querem que a gente ocupe espaços, mas temos o direito de ocupar todos os espaços que a gente quiser, porque somos cidadãos”, afirmou.

Atualmente, além de manter a atuação profissional na área da beleza, Antonella diz que utiliza a própria experiência para incentivar outras pessoas trans a buscarem independência, educação e espaço no mercado de trabalho.

Ao tentar resumir sua própria história, Antonella escolhe três palavras que, segundo ela, representam tudo o que viveu e ainda vive: resistência, luta e sobrevivência.

“Eu falo que sou sobrevivente. A luta diária continua. Eu continuo existindo, continuo lutando e não estou aqui para parar”, finalizou.

Reveja os telejornais do Acre

Leia no Itatiba1 →