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Do peixe à energia: como o calor recorde dos oceanos pode encarecer alimentos e afetar turismo

Boias robóticas usadas para monitorar os oceanos ajudam cientistas a acompanhar mudanças na temperatura e na circulação da água em tempo real.

G1 — Brasil · 2026-09-14T08:00:00.000Z

Boias robóticas usadas para monitorar os oceanos ajudam cientistas a acompanhar mudanças na temperatura e na circulação da água em tempo real.

Scripps Institution of Oceanography/UC San Diego

O calor recorde dos oceanos já começa a representar um problema econômico: ameaça a oferta de peixes, pode pressionar o preço dos alimentos, reduz o potencial turístico de áreas costeiras e aumenta os riscos para estruturas de geração de energia.

O alerta de cientistas ocorre após os mares registrarem, em agosto, uma temperatura média de 21,07 ºC, igualando o recorde de março de 2024.

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"O calor prolongado nos oceanos não é apenas um problema ambiental", afirmou Tom Pickerell, especialista em biologia marinha e diretor do programa de oceanos do World Resources Institute (WRI), durante uma apresentação à imprensa.

Segundo Pickerell, um oceano mais quente afeta a pesca e o abastecimento de alimentos, danifica recifes e praias que sustentam o turismo, coloca pressão sobre infraestruturas energéticas e contribui para fenômenos meteorológicos extremos que atingem comunidades costeiras e empresas.

Para o biólogo, o tema deveria preocupar também os ministros das Finanças. A questão será um dos principais assuntos da COP31, conferência do clima da ONU que será realizada em novembro, em Antália, na Turquia.

Menos peixe pode significar comida mais cara

Um dos efeitos econômicos mais diretos do aquecimento dos mares aparece na pesca. As ondas de calor marítimas podem provocar doenças e mortalidade de espécies ou fazer com que os peixes migrem para regiões mais frias. Com isso, áreas de pesca podem ser fechadas ou passar a ter uma oferta menor.

"As ondas de calor marítimas podem levar ao fechamento de áreas de pesca devido a doenças, mortalidade de espécies ou simplesmente porque os peixes se deslocam para regiões mais frias do oceano. Isso pode custar milhões ou até bilhões de dólares às comunidades afetadas, além de ter consequências nos preços dos alimentos", explicou Kathryn Smith, da Associação Britânica de Biologia Marinha.

O efeito pode se espalhar pela cadeia. Menos pescado disponível significa impacto para quem captura o peixe, mas também para indústrias de processamento, exportadores, comerciantes e consumidores.

Um exemplo citado pelos cientistas ocorre no Marrocos. Segundo Pickerell, o aumento da temperatura das águas contribuiu para a diminuição das populações de sardinha no país. "Isso provocou a proibição das exportações e escassez no mercado europeu", afirmou.

A lógica é semelhante à de outros choques de oferta: quando um produto fica mais escasso, os preços podem subir, especialmente quando há poucas alternativas para substituir aquela produção.

Turismo também sente o impacto

O problema não fica restrito aos alimentos. Recifes de coral estão entre os ecossistemas mais afetados pelas ondas de calor marítimas. O aumento da temperatura provoca o branqueamento dos corais e pode levar à degradação desses ambientes.

Além do impacto ambiental, isso representa um risco para regiões cuja economia depende do turismo associado a praias, mergulho e observação da vida marinha.

Quando um recife perde parte de sua biodiversidade ou sua aparência é alterada, o impacto pode chegar a hotéis, restaurantes, agências de turismo, operadores de mergulho e trabalhadores que dependem desses visitantes.

É um exemplo de como uma mudança que começa no oceano pode atingir atividades que, à primeira vista, parecem distantes da questão climática.

Energia e infraestrutura também entram na conta

O aquecimento dos mares também pode afetar a infraestrutura energética. Um dos exemplos recentes ocorreu na França, onde reatores nucleares ficaram parados devido à proliferação de águas-vivas.

Os animais podem interferir nos sistemas que utilizam água do mar para o funcionamento das usinas. Eventos desse tipo mostram outro canal de impacto econômico: além de reduzir a produção, interrupções podem aumentar os custos de operação e exigir medidas de adaptação das empresas.

O aumento da temperatura dos oceanos também contribui para a elevação do nível do mar. A água se expande quando esquenta, o que aumenta a pressão sobre cidades e infraestrutura localizadas em áreas costeiras.

Para países e comunidades insulares particularmente vulneráveis, isso significa mais necessidade de investimentos em proteção, adaptação e reconstrução.

Agosto empatou recorde de temperatura

A temperatura média dos oceanos, sem considerar as regiões polares, chegou a 21,07 ºC em agosto, segundo o observatório europeu Copernicus. O número iguala o recorde registrado em março de 2024.

Além disso, o verão de 2026 no hemisfério norte, entre junho e agosto, foi o mais quente desde 1993, segundo o Copernicus Marine Service.

O período foi influenciado pelo fenômeno natural El Niño, que se soma ao aquecimento global provocado pela atividade humana.

"O motor do calor recorde é a mudança climática; é a tendência de longo prazo", afirmou Zachary Labe, climatologista do centro de pesquisa Climate Central.

Segundo Labe, os oceanos acabaram de passar por uma sequência de "100 dias de calor recorde" para esta época do ano. A estimativa é baseada em dados, alguns ainda preliminares, sobre a temperatura da superfície dos oceanos compilados pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).

"Acredito que continuaremos falando de temperaturas recordes, tanto na atmosfera como nos oceanos, pelo menos até 2027", acrescentou.

Problema tende a exigir mais adaptação

Para os cientistas, há poucas soluções imediatas além de acelerar as políticas de combate às mudanças climáticas.

O desafio econômico está também na capacidade de adaptação. Empresas, governos e comunidades costeiras precisam se preparar para mudanças que podem afetar simultaneamente produção, infraestrutura e renda.

"Em terra, sempre podemos instalar ar-condicionado para nos refrescar. Mas a adaptação dos oceanos e da vida marinha não é tão simples e continua sendo muito limitada", lembrou Claire Bergin, pesquisadora da Universidade de Maynooth, na Irlanda.

* Com informações da agência AFP

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