ITATIBA1
Alvo de pesca ilegal, "pepinos-do-mar" têm papel essencial nos ecossistemas marinhos
G1 — Brasil · 2026-09-14T14:06:26.000Z
Alvo de pesca ilegal, "pepinos-do-mar" têm papel essencial nos ecossistemas marinhos
Quando se fala em contrabando, massas gelatinosas do mar que passam a vida comendo e defecando provavelmente não são a primeira coisa que vem à mente. Mas um grupo de criaturas disformes conhecidas como pepinos-do-mar está no centro de um mercado clandestino do tráfico de animais, movimentando 200 milhões de dólares (R$ 1 bilhão) por ano.
Conhecidos, de forma alternada e enganosa, como pepinos-do-mar ou peixes-da-areia, eles na verdade não são nem pepinos nem peixes, mas equinodermos. Em outras palavras, animais marinhos invertebrados com pele ou um revestimento rígido.
Encontrados em abundância ao redor das Ilhas Andamão — a porção de terra mais oriental da Índia —, eles são tão importantes do ponto de vista ecológico que, sem eles, a zona entremarés "não seria um ecossistema, mas apenas um conjunto de rochas quebradas", afirma o biólogo local Sangamesh Uday.
As cerca de 1,5 mil espécies de pepino-do-mar existentes no mundo têm um importante papel de reciclagem. Elas comem material orgânico, incluindo bactérias e microalgas, decompõem esse material e excretam areia limpa e oxigenada.
Agora no g1
Isso mantém nutrientes vitais, como nitrogênio e fósforo, em circulação e reduz doenças nos corais. Também aumenta os níveis de alcalinidade dos oceanos, o que ajuda a desacelerar a acidificação, que vem se tornando um problema à medida que o aumento dos níveis de gases de efeito estufa na atmosfera faz com que os oceanos se aqueçam.
Uma iguaria afrodisíaca
Para o próprio prejuízo, os pepinos-do-mar também são considerados uma iguaria, especialmente na China e no Sudeste Asiático. Registros históricos mostram que eles já eram comercializados entre pescadores indonésios e comerciantes chineses há 800 anos.
Eles são usados em sopas, servidos em conserva como acompanhamento ou transformados em medicamentos tradicionais.
"Pepinos-do-mar" viraram ingredientes para culinária e medicina tradicional em países asiáticos
Embora existam algumas evidências científicas de que o ômega-3 que contêm seja um antioxidante e anti-inflamatório útil, sua popularidade se deve principalmente ao fato de terem um formato bastante fálico — e, por isso, serem considerados afrodisíacos.
Desde a década de 1980, a pesca comercial de pepinos-do-mar se expandiu globalmente, impulsionada principalmente pela melhoria do acesso, pelo aumento da renda e pela maior demanda no Leste Asiático.
Embora muitos países tenham proibido a prática, alguns, como Sri Lanka e Madagascar, permitem a pesca e a aquicultura. Das pescarias de pepino-do-mar existentes, 70% tornaram-se superexploradas em todo o mundo.
Na mira até da Yakuza japonesa
A combinação do aumento da demanda com as complexidades legais chamou a atenção de organizações criminosas de pequeno e grande porte.
Há relatos de que alguns dos maiores cartéis mexicanos e até mesmo a Yakuza do Japão diversificaram seus portfólios, utilizando pepinos-do-mar e outras criaturas marinhas para manter o fluxo de dinheiro.
Esses grupos ilícitos atuam em todos os aspectos da cadeia de abastecimento — desde a extorsão de pescadores até o contrabando final de pepinos-do-mar capturados ilegalmente através das fronteiras. Eles exploram regulamentações ambientais frágeis e a falta de conhecimento oficial sobre as regras e as espécies.
Os pepinos-do-mar às vezes são declarados como carregamentos legais de peixe ou contrabandeados para países que permitem o comércio da espécie. Para Teale Phelps Bondaroff, um dos principais especialistas em crimes envolvendo pepinos-do-mar, o maior treinamento das autoridades é fundamental.
"Embora muitos agentes da lei possam estar atentos a drogas, armas ou produtos de origem animal contrabandeados mais conhecidos, como marfim, chifres de rinoceronte ou barbatanas de tubarão, os pepinos-do-mar podem passar despercebidos", disse ele à DW.
A empreitada dos caçadores ilegais
O governo indiano começou a regulamentar os pepinos-do-mar na década de 1980 e introduziu uma proibição da sua pesca em 2001, quando percebeu o impacto do comércio ilícito sobre as populações locais.
Desde então, a Índia se tornou o país com as proteções mais rigorosas para a espécie. Qualquer pessoa que capture um exemplar pode enfrentar uma pena de sete anos de prisão, a mesma aplicada pela caça ilegal de um tigre ou elefante. Como resultado, os pepinos-do-mar próximos às Ilhas Andamão têm prosperado de modo geral.
Já no oceano ao redor de Mianmar, cerca de 50 quilômetros mais ao norte, o cenário é diferente.
A guerra civil birmanesa afetou gravemente os meios de subsistência locais, e agentes do mercado clandestino se aproveitam da instabilidade para oferecer valores comparativamente mais altos por uma carga de barco de pepinos-do-mar capturados ilegalmente.
À medida que a quantidade desses animais nas águas locais diminui, os caçadores ilegais seguem para o sul.
Não se trata, porém, de uma atividade fácil. Eles precisam escapar da guarda costeira, da marinha e da polícia indianas, evitar os pescadores locais e até mesmo densas populações de crocodilos.
Os caçadores sobrevivem dos peixes, mergulham em apneia utilizando mangueiras do tipo hookah para respirar e passam meses racionando o diesel para garantir que tenham combustível suficiente para voltar para casa, evitando as autoridades de Mianmar e piratas que tentam roubá-los.
Não raro, eles são presos pela polícia regional de Andamão e Nicobar, cujos oficiais vêm sendo ensinados a vasculhar as ilhas de manguezais à sua procura.
Como acabar com o comércio ilegal?
Pelo menos 50 pessoas foram presas no último ano, algumas com apenas 16 anos e outras na faixa dos 60. Várias retornaram pela segunda ou terceira vez, correndo o risco de serem novamente encarceradas após terem cumprido suas penas.
Apesar dos esforços das autoridades indianas, o número de caçadores ilegais que chegam à região, ano após ano, permanece estável.
Outros tipos de comércio semelhantes, como o de barbatanas de tubarão, foram desacelerados graças à sensibilização sobre sua crueldade e seus impactos sobre o ecossistema, o que tornou a prática menos socialmente aceitável.
Por isso, Bondaroff considera necessário soar o alarme globalmente. "A solução deve incluir a conscientização dos consumidores sobre os danos causados pela extração insustentável e ilegal de pepinos-do-mar e o combate à fraude envolvendo frutos do mar."
Outras sugestões incluem a abertura, pela Índia, de pequenas áreas de suas águas onde os pepinos-do-mar possam ser pescados legalmente ou a introdução da aquicultura comunitária, que seria mais fácil de regulamentar e beneficiaria os pescadores locais.
"Isso exige articulação e compartilhamento de informações entre governos e órgãos de aplicação da lei", acrescenta Bondaroff. "E trabalhar em conjunto para enfrentar os complexos crimes financeiros que viabilizam os crimes envolvendo pepinos-do-mar."
Esta reportagem contou com o apoio do Pulitzer Center.