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Do Banco Master ao plenário do STF: entenda o histórico da crise e o que esperar do julgamento sobre Moraes

Mendonça, Moraes e Fachin

G1 — Política · 2026-09-15T03:00:00.000Z

Mendonça, Moraes e Fachin

O Supremo Tribunal Federal (STF) realiza nesta terça-feira (15), a partir das 10h, uma sessão plenária extraordinária para julgar o caso envolvendo o relatório da Polícia Federal (PF) sobre as mensagens trocadas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes.

A reunião, convocada pelo presidente da Corte, ministro Edson Fachin, será transmitida ao vivo pela TV Justiça e terá acesso presencial restrito ao plenário.

O julgamento é considerado inédito na história do tribunal por colocar em análise a conduta de um integrante da própria Corte.

Às vésperas da sessão, o ambiente nos bastidores do STF permanece cercado de indefinições sobre o quórum e os cenários de votação.

Abaixo, o g1 apresenta a cronologia completa da crise e explica ponto a ponto o que estará em discussão.

STF se prepara para sessão inédita no Plenário amanhã

1. A origem da crise: Banco Master, mensagens e o filme 'Dark Horse'

A crise teve início no começo de setembro de 2026, com o levantamento do sigilo de relatórios da PF elaborados no âmbito das apurações sobre fraudes financeiras no Banco Master.

Entre os documentos, um relatório da PF identificou 52 mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes entre dezembro de 2023 e novembro de 2025 — data em que o empresário foi preso pela primeira vez.

Segundo a PF, Vorcaro e Moraes se encontraram presencialmente oito vezes e o banqueiro pediu ajuda ao ministro para conter apurações da corporação e do Ministério Público Federal contra a instituição financeira, chegando a perguntar, dois dias antes de sua prisão, se deveria deixar o país.

O documento da PF também afirmou que Moraes atuou na análise e edição de um contrato de R$ 130 milhões assinado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, pertencente a Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

Quebra de sigilo revela detalhes de contrato de Vorcaro com a esposa de Moraes

Paralelamente, os desdobramentos das investigações sobre o Banco Master atingiram frentes políticas e o financiamento do filme "Dark Horse", uma cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A PF deflagrou operações para apurar o suposto direcionamento de emendas parlamentares a entidades culturais e produtoras ligadas à obra — como o Instituto Conhecer Brasil (ICB), a Academia Nacional de Cultura (ANC) e a Go Up Entertainment, da produtora Karina Ferreira da Gama.

As apurações envolveram citações ao ex-deputado Mario Frias, ao senador Flávio Bolsonaro (apontado pela PF como interlocutor direto da cobrança de repasses de R$ 62,8 milhões a Vorcaro), a orientações do deputado Eduardo Bolsonaro sobre gestão de recursos nos EUA, e a uma lista com nomes de parlamentares encontrada na churrasqueira do senador Ciro Nogueira.

Além disso, em investigações conexas no exterior, o ministro André Mendonça autorizou o bloqueio de R$ 1,7 bilhão em bens e ativos de bancos ligados a Vorcaro, incluindo obras de arte de Pablo Picasso e Jean-Michel Basquiat, imóveis e embarcações de luxo.

Os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça durante sessão plenária do STF no dia 17 de outubro de 2024

2. A escalada do conflito: Moraes acusa Mendonça de 'escolha seletiva' e exige apuração

A divulgação dos relatórios provocou uma reação imediata de Alexandre de Moraes e expôs uma fratura aberta no Supremo.

Em ofícios formais encaminhados ao presidente Edson Fachin, Moraes acusou o ministro André Mendonça — então relator das investigações do caso Master — de realizar um "levantamento seletivo" e um "direcionamento subjetivo" na liberação dos documentos sob sigilo.

Moraes argumentou que Mendonça disponibilizou apenas 15 procedimentos de forma parcial ao tribunal, suprimindo e omitindo 180 peças e arquivos digitais do sistema eletrônico da Corte.

Para Moraes, essa liberação fracionada teve como objetivo promover a "proteção ostensiva de determinado grupo político" e repetiu uma conduta ilegal de direcionamento de acordos de delação premiada e investigações de ofício contra alvos predeterminados.

Diante disso, Moraes apresentou acusações formais contra Mendonça e cobrou de Fachin três providências:

o levantamento total e irrestrito do sigilo de todos os procedimentos do caso Master;

o julgamento conjunto no Plenário do processo sobre suas mensagens com Vorcaro com o relatório que reúne acusações sobre a conduta de Mendonça nas operações "Sem Desconto" e "Compliance Zero" (que apontam suspeitas de assimetria, abuso de autoridade e direcionamento contra o próprio Moraes e contra o presidente do Senado, Davi Alcolumbre);

a intimação de todos os ministros do STF e magistrados citados nos autos para prestarem informações e garantirem a defesa das prerrogativas do Judiciário.

Mendonça rebateu as acusações, negando qualquer atitude seletiva. Ele afirmou ter tornado públicos todos os procedimentos principais relacionados às conversas de Moraes e justificou que a manutenção do segredo sobre trechos específicos foi uma medida prudente para proteger investigações em andamento e preservar dados pessoais, bancários e fiscais de terceiros.

Alexandre de Moraes (à esquerda), ministro do Supremo Tribunal, e Daniel Vorcaro, ex-presidente do Banco Master.

3. A batalha pelas provas e pelo fim do segredo

Nos dias que antecederam a sessão, os ministros Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes pediram acesso integral às provas extraídas do celular de Daniel Vorcaro.

Eles argumentaram que o Plenário não poderia deliberar com base em "sínteses parciais".

Inicialmente, André Mendonça argumentou que mantinha apenas uma cópia de segurança criptografada em seu gabinete para preservar a cadeia de custódia e que abrir os dados "tumultuaria o julgamento".

No entanto, o ministro Cristiano Zanin determinou diretamente à Polícia Federal a entrega de uma cópia idêntica do aparelho aos gabinetes.

Na segunda (14), a PF confirmou ter compartilhado o acervo digital completo com os gabinetes de Zanin, Gilmar e Moraes.

Além disso, a Procuradoria-Geral da República (PGR) manifestou-se favorável aos pedidos de Moraes e Zanin para a derrubada total do sigilo sobre a rede de pagamentos do Banco Master e outros procedimentos conexos, defendendo a transparência irrestrita dos autos.

Diversas manifestações cruciais da PGR no processo — incluindo pedidos de liberação de sigilo e acesso a provas — vêm sendo assinadas pelo vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand Filho, que atua na apuração em conjunto com Gonet — já que o nome de Gonet também aparece no relatório da PF que teve o sigilo quebrado por Mendonça.

Ele, inclusive, é alvo de um procedimento do Conselho Superior do Ministério Público Federal que analisa citações a Gonet em mensagens atribuídas a Vorcaro.

4. A divisão dos processos decidida por Fachin

Ao reorganizar a pauta da Corte no fim de semana, o presidente Edson Fachin tomou uma decisão estrutural:

Sessão exclusiva para o caso Moraes: Fachin manteve a sessão desta terça (15) destinada unicamente à análise do procedimento que trata das mensagens entre Vorcaro e Moraes.

Adiamento do caso Mendonça: Fachin negou o pedido feito por Moraes para julgar simultaneamente as acusações apresentadas contra a conduta de Mendonça.

O presidente explicou que este segundo processo ainda possui prazos abertos de instrução e agendou sua apreciação para o dia 23 de setembro.

5. O que esperar da sessão de terça: rito, quórum e cenários de votação

Na segunda-feira (14), a Presidência do STF informou oficialmente o rito detalhado da sessão.

Como relator da matéria, caberá a Fachin abrir os trabalhos apresentando um resumo dos fatos e delimitando o objeto do julgamento.

Depois, a Procuradoria-Geral da República (PGR) poderá se manifestar, seguida de eventuais sustentações orais.

Após essas manifestações, o relator apresentará seu voto.

Em seguida, os ministros votarão na ordem prevista no regimento.

Por fim, o presidente proclamará o resultado.

A análise do mérito: Os ministros vão decidir se as mensagens reunidas pela PF justificam a abertura de alguma apuração contra Moraes.

Mesmo que o relatório seja anulado por questões formais, o plenário avaliará se os elementos são suficientes para determinar uma nova análise dos dados.

Tese do "vício de origem" e envio a novo subprocurador: a PGR já defendeu formalmente a anulação e o arquivamento do relatório da PF por vícios formais na sua elaboração — produzido a pedido de Mendonça sem provocação do Ministério Público ou da PF e sem aviso à Presidência.

Nos bastidores, avalia-se a possibilidade de Fachin declarar a nulidade do relatório por falha de origem, mas propor que os dados sejam remetidos a um novo subprocurador-geral (diferente de Paulo Gonet) para analisar se há elementos para abrir uma investigação formal.

Gonet foi citado no relatório da PF e delegados da corporação chegaram a pedir que ele se declarasse impedido de atuar nas apurações, mas a expectativa é que o PGR participe da sessão.

Acesso às provas do celular e nova quebra de sigilo: nesta segunda-feira (14), os ministros Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes receberam da Polícia Federal a cópia integral dos dados do celular de Daniel Vorcaro.

Interlocutores avaliam que esses ministros podem usar o acervo para fundamentar pedidos de adiamento ou apontar impedimentos de colegas.

Além disso, a pedido de Moraes e com parecer favorável da PGR, o ministro André Mendonça retirou o sigilo da PET 15645, que detalha a rede de pagamentos do Banco Master.

Discussão sobre o quórum: há intensa discussão interna sobre se Alexandre de Moraes e André Mendonça devem votar ou se abster.

A avaliação predominante nos bastidores é de que o ideal seria a não participação de ambos para evitar constrangimentos e questionamentos sobre a imparcialidade do julgamento.

O ministro Dias Toffoli também não deve votar, por ter se declarado suspeito em desdobramentos do caso Master.

As apurações sobre o Banco Master também citaram o ministro Dias Toffoli e sua relação com uma empresa de sua família, o que o levou a deixar a relatoria do caso no começo do ano e a se declarar suspeito em desdobramentos conexos.

Questões preliminares e racha de votos: Aliados de Moraes pretendem apresentar questões de ordem logo no início da sessão para tentar barrar a discussão de mérito.

No cenário atual de bastidor, interlocutores estimam um placar apertado, indicado em cerca de 4 a 3 a favor da abertura de algum tipo de apuração sobre as mensagens.

Possibilidade de pedido de vista x antecipação de votos: Não está descartado que um ministro — possivelmente Gilmar Mendes, logo após o voto de Fachin — peça vista (mais tempo para analisar os autos).

Se houver vista, o prazo regimental de 90 dias empurraria o desfecho do julgamento para fevereiro do ano seguinte.

Diante dessa hipótese, o grupo alinhado a Mendonça articula a antecipação de votos logo após o posicionamento de Fachin para registrar e tornar pública a existência de maioria pela abertura de investigação antes de eventual paralisação.

6. Impacto na eleição de 2026, pesquisa Quaest e reação dos Poderes

A crise no STF extrapolou os muros do Judiciário e passou a impactar diretamente a disputa pela Presidência em 2026.

A imprensa internacional -- como o britânico Financial Times -- apontou a turbulência no tribunal como um fator que pode ter peso decisivo na eleição brasileira. O cenário provocou reações dos pré-candidatos ao Planalto.

Em pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira (14) — contratada pela TV Globo e pelo jornal "O Globo" —, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera a simulação de primeiro turno com 36% das intenções de voto, seguido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que registra 31%. Na sequência aparecem Cury (7%), Renan (4%), Caiado (4%) e Zema (1%).

Na simulação de segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro — investigado pela PF em apurações ligadas ao Banco Master e ao filme Dark Horse —, o senador figura numericamente à frente do atual presidente, em cenário de empate técnico.

Diante do desgaste das instituições, Lula defendeu publicamente a discussão de uma reforma no Poder Judiciário, enquanto o deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) propondo mandatos de 10 anos para ministros da Corte.

Na sociedade civil, 198 autoridades, juristas e empresários — incluindo ex-ministros dos governos Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff — assinaram um manifesto em apoio ao presidente Edson Fachin, classificando o episódio como a mais grave crise da história do tribunal e cobrando transparência e apuração rigorosa dos fatos.

O que dizem os citados

Alexandre de Moraes: argumentou em ofícios oficiais que houve "escolha seletiva" e omissão de 180 documentos eletrônicos na divulgação das investigações. Defendeu a liberação integral das provas, solicitou nesta segunda (14) o fim do sigilo sobre a rede de pagamentos do Master (PET 15645) e sustentou que o acesso à totalidade dos dados demonstrará a ausência de qualquer irregularidade.

André Mendonça: negou ter atuado de forma seletiva e afirmou ter tornado públicos todos os procedimentos principais. Declarou que a manutenção de sigilo sobre trechos específicos foi uma medida prudente para proteger investigações em andamento, atendeu ao pedido de Moraes e da PGR nesta segunda (14) ao liberar a PET 15645 (sobre rede de pagamentos do Master), e ressaltou que a cópia do celular de Vorcaro em seu gabinete funcionava como contraprova lacrada.

Edson Fachin: ressaltou que "a gravidade dos fatos não autoriza atalhos". O presidente do STF manteve a sessão de terça-feira focada unicamente na análise do procedimento de Moraes (PET 16.662), adiando o processo sobre a conduta de Mendonça para 23 de setembro, e recebeu apoio formal de um manifesto assinado por 198 autoridades e juristas em prol da institucionalidade da Corte.

Procuradoria-Geral da República (PGR): defendeu a anulação do relatório elaborado sob supervisão de Mendonça por vício de formação, deu parecer favorável nesta segunda (14) ao fim do sigilo da rede de pagamentos do Master e reiterou que todos os ministros devem ter acesso irrestrito às mídias para garantir o livre convencimento do colegiado.

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