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Mulher perde R$ 30 mil e relata violências após viver 3 meses com golpista
G1 — Brasil · 2026-09-15T08:30:34.000Z
Mulher perde R$ 30 mil e relata violências após viver 3 meses com golpista
Um encontro pelo Tinder terminou em três meses de violência e pelo menos R$ 30 mil de prejuízo para uma mulher de 39 anos, em Campo Grande. Segundo a vítima, o homem, suspeito de mentir sobre a própria identidade, ganhou a confiança dela e dos filhos e, aos poucos, passou a controlar o dinheiro, o celular, a relação com a família e até decisões básicas dentro de casa.
Ela também relata ter sido agredida e obrigada a manter relações sexuais pelo menos quatro vezes por dia. Divorciada havia cerca de dois anos e com vida financeira estável, a mulher ainda diz que foi obrigada pelo suspeito a registrar boletins de ocorrência contra a própria mãe, o pai, o irmão e o ex-marido.
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O homem que ela conhecia como Wellington Vieira da Silva, de 29 anos, é, segundo a polícia, Heliton Vargas Portela, de 31 anos. Ele foi preso e teve prisão preventiva mantida nesse domingo (13).
A mentira só começou a desmoronar na sexta-feira (11), dentro da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam). Ela havia ido até lá, mais uma vez a mando do namorado, para acusar o ex-marido e o irmão.
A polícia desconfiou da história, conseguiu conversar com ela longe do celular, que era monitorado pelo suspeito e revelou quem estava vivendo na casa dela. Segundo a polícia, o suspeito estava a poucas quadras da delegacia, dentro do carro, com a filha de 8 anos da vítima, quando foi preso.
Ao g1, a mulher contou que descobrir que havia sido enganada desde o início foi também o momento em que percebeu que poderia sair daquela relação.
“Na verdade, eu senti um alívio. [...] Eu já estava pedindo para Deus me tirar ele dali.”
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Do 'mar de rosas' ao isolamento
Os dois se conheceram em maio. No Tinder, ele se apresentou como Wellington Vieira da Silva e disse ter 29 anos. Segundo a mulher, o primeiro mês foi um “mar de rosas”: ele era carinhoso com ela e com os filhos e, em pouco tempo, passou a morar com a família.
Depois, o comportamento mudou. O namorado passou a dizer que ela e os filhos corriam risco. Afirmava que o ex-marido havia contratado criminosos para matá-los e chegou a dizer que poderiam colocar fogo na casa.
Ao mesmo tempo, em que alimentava o medo, apresentava-se como a única pessoa capaz de protegê-los. “Só ele que podia sair com vida dali. Então ele tinha que ficar com nós.”
A mulher conta que trocou de número e de aparelho celular, perdeu liberdade para sair e passou a ser monitorada. Segundo o boletim de ocorrência, o suspeito também mostrava supostas conversas da mãe e do ex-companheiro com ataques contra ela. A polícia registra que as imagens podem ter sido criadas com inteligência artificial.
Aos poucos, ela se afastou da família. Afirma ter registrado BOs contra a mãe, o pai, o irmão, o ex-marido e o ex-cunhado por determinação do namorado.
A mãe chegou a desconfiar da identidade dele e tentou descobrir quem era o homem, mas já não conseguia falar com a filha.
Violência dentro de casa
O controle também atingiu os filhos. Um deles tem deficiência física e mental e precisa de cuidados. Segundo a vítima, o namorado restringiu a participação dela nessa rotina e outro filho, de 15 anos, passou a assumir parte das tarefas.
Dentro da própria casa, ela diz que precisava avisar até quando queria ir ao banheiro ou levantar durante a madrugada para cuidar do filho.
“Tudo eu tinha que perguntar. Tudo eu tinha que falar para ele.”
A mulher relata ainda ter sido agredida três vezes e sofrido violência sexual. Segundo ela, era obrigada a manter relações sexuais pelo menos quatro vezes por dia.
No boletim ao qual o g1 teve acesso, o caso foi registrado como sequestro e cárcere privado, falsa identidade, denunciação caluniosa, violência psicológica contra a mulher e estelionato.
R$ 30 mil em três meses
Além das outras formas de violência, a mulher afirma ter perdido pelo menos R$ 30 mil.
Ela recebia cerca de R$ 11 mil mensais de pensão alimentícia. Conforme o BO, o namorado assumiu o controle do celular com os aplicativos bancários e passou a movimentar as contas e fazer saques.
Para ela, dizia que o ex-marido havia parado de pagar a pensão. Também afirmava ter dinheiro retido pela Receita Federal e prometia comprar uma casa para o casal quando os valores fossem liberados.
A mentira cai na delegacia
Na sexta-feira, a mulher foi à Deam para acusar o ex-marido e o irmão de terem apontado armas contra ela. Segundo o próprio relato posterior da vítima, a história não aconteceu e havia sido determinada pelo namorado.
A delegada percebeu inconsistências. A polícia também tinha conhecimento de uma denúncia feita pelo Ligue 180 que apontava a própria mulher como vítima de Heliton.
O suspeito acompanhava o atendimento pelo telefone. Quando conseguiu conversar reservadamente com a delegada, a mulher deixou o aparelho do lado de fora. Foi então que viu fotos de Heliton preso e descobriu a verdadeira identidade dele.
Ela contou que os BOs contra os familiares haviam sido feitos sob pressão e voltou na denúncia que acabara de registrar.
Do lado de fora, Heliton aguardava com a filha de 8 anos dela. Policiais localizaram o suspeito e entregaram a criança à mãe. Com ele, foram encontrados R$ 2.885 em espécie, dinheiro que, segundo a vítima, pertencia a ela.
Quem era o homem que ela conhecia como Wellington
Segundo informações repassadas pelo Tribunal de Justiça, Heliton aparece em processos criminais em Campo Grande, Ponta Porã, Nova Andradina e Maracaju. Há ainda cartas precatórias de Nova Londrina (PR) relacionadas a violência doméstica.
Em março deste ano, ele foi condenado a 6 anos e 4 meses de prisão por roubo com uso de faca, em Maracaju. A decisão estava em fase de recurso.
Naquele caso, segundo o processo, a vítima foi ameaçada e obrigada a acessar o banco, contratar um empréstimo e transferir R$ 25 mil para Heliton.
Liberdade e recomeço
Depois da prisão, ela voltou para casa e tenta reconstruir a relação com a família e a rotina com os filhos.
Ainda sente medo. Mas, quando perguntada sobre o que sente agora que o homem não está mais dentro de casa, não hesita: “De liberdade.”
A primeira mudança foi simples: dormir sozinha. “Foi a primeira coisa que eu fiquei alegre. De não ter ninguém ali, de levantar a hora que você quer, dormir a hora que você quer.”
E, quando perguntada sobre o que pretende fazer daqui para frente, resume: “Seguir minha vida com meus filhos. Viver, viver.”
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