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Maria Ressa, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz
G1 — Economia · 2026-09-15T15:18:49.000Z
Maria Ressa, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz
A inteligência artificial pode reduzir a autonomia da humanidade se não forem aprovadas leis para limitar seu avanço, afirmou Maria Ressa, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz.
A jornalista filipino-americana, vencedora do Nobel da Paz de 2021 em reconhecimento, entre outros fatores, ao seu trabalho sobre o poder das grandes empresas de tecnologia, atua como copresidente do painel científico internacional da ONU sobre IA. O grupo estuda como a tecnologia está transformando a vida das pessoas em todo o mundo.
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Segundo Ressa, a tecnologia já capturou a atenção das pessoas por meio das redes sociais e depois passou a explorar a necessidade humana de conexão e intimidade. Ela defende que os cidadãos pressionem políticos e autoridades para aprovar regras que regulamentem o uso da inteligência artificial.
“Pedir regulamentação não é uma questão de liberdade de expressão. É uma questão de segurança pública”, disse Ressa, que também é cofundadora e presidente-executiva do site de notícias Rappler, à Reuters.
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“Acho que estamos naquele momento em que, se isso não acontecer, vamos perder o controle. A situação ficará fora do nosso alcance se não agirmos agora”, afirmou durante uma visita a Oslo, onde participou de uma conferência sobre ameaças às democracias.
As três ondas de IA
“A inteligência artificial não é nem artificial nem inteligente. Ela existe há cerca de 70 anos, e já passou por três ondas que chegaram ao grande público”, disse.
Segundo Ressa, a primeira fase foi marcada pelas redes sociais, que capturaram a atenção dos usuários, aprofundaram a polarização e contribuíram para o isolamento das pessoas.
“A segunda fase consistiu em 'hackear' nossa biologia, novamente por meio da intimidade, com os chatbots”, disse Ressa. “A terceira envolve a chamada IA agentiva e multiagentiva, com modelos avançados capazes não apenas de simular comportamentos humanos, mas também de agir em nosso lugar.”
Alguns críticos, entre eles o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rejeitam os apelos por maior regulamentação da IA por temer que isso prejudique a disputa tecnológica com a China. Ressa classificou esse argumento como uma “boa manobra de relações públicas”.
“Na verdade, a China estabelece mais salvaguardas para seus cidadãos do que o Vale do Silício para o restante do mundo. Se você usa o TikTok, a versão disponível na China tem restrições de idade”, disse.
Antes mesmo de Dario Amodei, presidente-executivo da Anthropic, defender uma desaceleração no avanço dos modelos de IA diante dos crescentes temores de uso indevido da tecnologia, Ressa já sustentava que o primeiro passo para promover mudanças é responsabilizar as big techs.
“O primeiro passo é fazer com que as empresas sejam responsabilizadas pelos danos que causaram”, disse. Ela elogiou as ações judiciais nos EUA que levaram a Meta a pagar até US$ 18 bilhões ao longo da próxima década e a restringir fortemente o uso do Facebook e do Instagram por adolescentes.
Como enfrentar o problema?
Ela elogiou as medidas adotadas pela União Europeia e por países como a Austrália para estabelecer limites de idade nas redes sociais, mas afirmou que isso não resolve a “falha fundamental” de que as ferramentas desenvolvidas pelas empresas de tecnologia também causam dependência entre adultos.
“Sabemos que isso é prejudicial. Portanto, vocês deveriam remover os recursos que geram dependência, não apenas para adolescentes, mas para todos nós”, disse. “Não são apenas os jovens que estão sendo manipulados politicamente ao redor do mundo.”
Segundo Ressa, devem ser criadas plataformas de comunicação desenvolvidas por grupos de interesse público e fora do controle das grandes empresas de tecnologia, da mesma forma que governos investem em bens públicos, como parques e praças. Ela citou como exemplo o lançamento do Rappler Communities, em 2023.
Baseado no protocolo aberto, seguro e descentralizado Matrix, o Rappler Communities permitiu que a redação do Rappler se conectasse diretamente aos leitores e que os próprios leitores interagissem entre si para, nas palavras de Ressa, “ter conversas reais”.
O Rappler convidou outros veículos de comunicação das Filipinas a participar da iniciativa e agora está expandindo o modelo para outros países do Sudeste Asiático.
“É um lugar onde as pessoas podem se sentir seguras no ambiente digital, onde podem conversar umas com as outras e, mais importante ainda, ouvir umas às outras para que a grande obra da democracia se concretize”, afirmou.