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OPINIÃO: São Paulo é clube em ruínas que não sabe viver na crise e precisa se reinventar para seguir em frente

O São Paulo não viu a cor da bola e apenas empatou em 1 a 1 com o Boca Juniors na noite da última terça-feira, no Morumbis, marcando a eliminação da única chance de título da temporada: a Copa Sul-Americana.

ge — Futebol · 2026-09-16T14:07:45.000Z

O São Paulo não viu a cor da bola e apenas empatou em 1 a 1 com o Boca Juniors na noite da última terça-feira, no Morumbis, marcando a eliminação da única chance de título da temporada: a Copa Sul-Americana.

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A torcida lotou o Morumbis e o frio que não trégua a cidade lembrava os invernos vencedores no começo da década de 1990. O treinador Dorival Júnior até descansou os titulares.

Em campo, um desastre: um time nervoso e apático, amplamente dominado por um Boca Juniors que em nada lembra a máquina de eliminar brasileiros que outrora foi.

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Dorival Júnior em São Paulo x Boca Juniors

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Não se trata mais de questionar o trabalho de Dorival Júnior, único treinador capaz de vencer a Copa do Brasil no clube e que aceitou sua terceira passagem sabendo da bomba, ou o elenco com nomes que dariam um belo time no papel, como Luciano, Artur, Domingos Duarte e Marcos Antônio.

A crise do São Paulo está fora de campo. É puramente institucional. E mora aí o motivo de ser tão difícil de sair dela: o São Paulo e seu torcedor simplesmente não sabem como viver em tempos de amargura

Nascido na década de 1930 como um clube rico vindo da fusão de outros dois clubes igualmente ricos, o São Paulo sempre se acostumou a atitudes de grandeza. Fundado como união entre dois clubes, sendo um deles o rico Club Athletico Paulistano, o São Paulo sempre se acostumou a ter dinheiro no caixa e times competitivos em campo:

1940s: venceu cinco títulos na década com a contratação mais cara do futebol brasileiro: Leônidas da Silva

1960s: inaugurou o estádio mais moderno do Brasil na época: o Morumbis

1970s: foi o segundo time paulista a vencer o novo Campeonato Brasileiro em 1977

1980s: revolucionou a forma de fazer futebol o mítico Cilinho e os “Menudos do Morumbi” no fim da década de 1980

1990s: marcou profundamente o futebol brasileiro com o melhor trabalho de um treinador na história e nove títulos na Era Telê Santana

2000s: foi o maior clube brasileiro da década, com Libertadores, Mundial e o inédito tri-campeonato entre 2006 e 2008 com Muricy Ramalho

Crise? Seca? Período difícil? Isso jamais esteve no script do soberano tricolor. Atraso de salário e renúncias de presidentes eram coisas do noticíario do Palmeiras ou do Corinthians.

Havia muito orgulho da solidez do clube, que podia não vencer sempre, mas sempre era competitivo e chegava por causa de tantos jovens sendo vendidos a preços altos para o exterior, ou de jogadores no exterior tratarem lesões no Reffis em Cotia.

O único momento que o torcedor são-paulino precisou lidar com algum tipo de dor foi entre 1957 e 1970, com todos os esforços concentrados em terminar a construção do Morumbis. Desculpa mais que plausível.

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Onde começa o fim de um grande clube?

O filósofo Søren Kierkegaard diz que a vida só pode ser compreendida olhando para trás, embora precise ser vivida olhando para a frente. Por isso, voltemos a 2010. Começa aqui uma ruptura institucional que irá custar caro no futuro: o terceiro mandato de Juvenal Juvêncio.

Até então, não era permitida a reeleição no clube, mas por decisão judicial ajudava nas linhas da lei por Carlos Miguel Aidar, Juvenal se mantém no poder. Contrariando o que fez como diretor na década de 1980, Juvenal começa a gastar mais que a capacidade do clube e aumenta a depedência de venda de jogadores como Breno, vendido a altíssimas cifras em 2007, para manter as contas em dia.

Era uma ruptura com o modelo de Marcelo Portugal Gouvêa, que gastava pouco e apostava no jeitinho Muricy para fazer o clube vencer no fim do ano. O símbolo dessa quebra foi o famoso "pacotão de natal" em 2009 - cinco jogadores contratados a alta cifras sem o aval de Muricy. Quem lembra?

O famoso "pacotão de Natal" de Juvenal Juvêncio em 2009

Ruptura cobra seu preço e São Paulo começa a sentir os efeitos da crise

A história mostra que toda e qualquer ruptura institucional cobra seu preço. Seja na República de Weimar na Alemanha dos anos 1920 ou quando a República rui com mudanças de regras na Roma Antiga, o time que estava vencendo começa a não vencer quando alguém mexe nele.

Foi assim com o São Paulo: o clube começou a contratar mais do que podia, gastar mais do que podia e não conseguia mais vender tanto como outrora. A Sul-Americana de 2012 só maquia a crise que se cobra em 2013: pela primeira vez, na era dos pontos corridos, o São Paulo briga contra o rebaixamento e é salvo pelo mítico Muricy Ramalho.

Carlos Miguel Aidar foi eleito em 2014 e permaneceu apenas um ano e meio no cargo. Renunciou em outubro de 2015, cercado por denúncias, gravações comprometedoras e uma guerra interna que aprofundou a crise institucional.

Seu sucessor, Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, até tentou. Mas só cumpriu o manual do dirigente brasileiro: contratava e demitia sem convicção, acumulava dívidas e mirava na ansiedade de vencer a todo custo e não na reconstrução sólida de um clube de futebol. O símbolo de sua gestão é a chegada do técnico Doriva, que veio para "vencer o Santos" na Copa do Brasil de 2015 e durou apenas sete jogos. Quem lembra?

Doriva, Cruzeiro x São Paulo

Rubens Chiri / saopaulofc.net

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A gestão de Leco terminou em 2020 com um déficit de R$ 129,6 milhões, além de uma dívida superior a R$ 600 milhões

Quando o novo só é uma nova embalagem para o antigo

É nesse ambiente de desgaste, revolta e desejo por renovação que surgiu Julio Casares. Sua campanha dominava as redes sociais, sua comunicação parecia moderna e suas promessas ofereciam uma ruptura com os velhos dirigentes. Ele ganha defensores e o time finalmente engrena em campo:

Em 2021, o clube conquista o Paulistão de 2021 sobre o Palmeiras, encerrando um grande jejum de 16 anos sem a conquista estadual

Em 2023, o São Paulo finalmente conquista a Copa do Brasil, com Lucas Moura de volta ao clube e gol do título de uma promessa da base: Rodrigo Nestor.

São Paulo campeão da Copa do Brasil 2023

Diz a história que tudo o que se promete como muito novo também é, de certa forma, uma embalagem para um antigo ainda mais profundo.

Em janeiro de 2026, Casares teve o impeachment aprovado pelo Conselho Deliberativo e renunciou poucos dias depois. Em setembro, foi expulso do quadro associativo por 224 votos a dois, após acusações de gestão temerária e investigações sobre saques milionários e despesas realizadas com o cartão corporativo do clube.

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Eliminação para o Boca Juniors começou muito antes do apito

Harry Massis Júnior recebeu um clube sufocado por dívidas, pagamentos atrasados, investigações e forte instabilidade política.

O treinador Hernán Crespo sabia muito bem do cenário. Foi ele que salvou o time do rebaixamento no ano passado. Foi ele que também deixou claro que o clube não teria condições de voos mais altos nesse ano. Uma profecia que demorou exatos seis meses para se concretizar:

Em 09 de março de 2026, o São Paulo demite Hernán Crespo por não admitir brigar contra o rebaixamento

Em 15 de setembro de 2026, o diretor de futebol Rafinha admite que a demissão foi equivocada

A demissão do Crespo ia acontecer, mas o tempo em que foi demitido pode ter sido errado. Podemos ter nos equivocado, isso já foi falado, já respondi isso anteriormente. A gente não pode ficar preso nessa situação

Você sabe como esse filme termina: o treinador vira o culpado, é demitido quando a situação fica "insustentável", vem outro, o time começa a melhorar, depois volta naquela draga e tudo se repete.

O São Paulo repete o mesmo roteiro há mais de uma década, sempre esperando um desfecho diferente. Se o clube continuar tratando uma crise institucional como uma simples sequência de derrotas, ele costuma terminar no mesmo lugar: o rebaixamento que tanto foi negado lá em março.

Agora que olhamos para trás, como mudar o que está por vir? Como sobreviver na crise para um clube que jamais esteve nela? Como voltar a ser um projeto sólido como era até vinte anos atrás?

São Paulo empata com Boca Juniors e é eliminado da Sul-Americana

São perguntas tão difíceis. Não há uma resposta simples. Hoje, temos apenas dois exemplos: o Flamengo e o Palmeiras, o mesmo que vivia uma situação igualzinha ao São Paulo hoje em 2012.

Os dois compraram a briga e se adaptaram a um novo mundo, no qual um clube sul-americano precisa comprar na baixa e exportar para um Chelsea ou um Aston Villa para ser grande no seu país. Não adianta reclamar: o futebol é esse, está posto. Aceitemos, como Palmeiras e Flamengo aceitaram tão bem.

Dorival Júnior em São Paulo x Boca Juniors

O São Paulo precisa aceitar muitas coisas:

Que briga, sim, contra o rebaixamento. Como foi em 2025, em 2026 e possivelmente em 2027.

Que precisa se reconstruir como instituição e pagar suas dívidas antes de qualquer coisa. Assim, conseguirá fechar no verde para começar a sonhar com um time bom.

Que hoje é uma simples ruína do que era em dezembro de 2005, quando Rogério Ceni defendeu aquele chutaço de Gerrard no Mundial de Clubes.

Não existe outro caminho que não seja em direção ao futuro. E tudo começa na dor. Muita dor. Muitos clássicos perdidos, campeonatos de luta contra o rebaixamento e economia para ter dinheiro lá na frente. O torcedor, e o clube como instituição, estão preparados para tal?

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