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Caso de homem atacado por morcego-vampiro é descrito pela ciência; entenda o comportamento

Caso de homem atacado por morcego-vampiro é descrito pela ciência; entenda o comportamento

G1 — Campinas e Região · 2026-09-16T17:03:02.000Z

Caso de homem atacado por morcego-vampiro é descrito pela ciência; entenda o comportamento

Eles não atacam o pescoço em pleno voo, como nos filmes, nem têm os seres humanos como suas presas preferidas. Ainda assim, morcegos-vampiros podem se alimentar de sangue humano — e fazer isso de maneira tão discreta que a pessoa sequer percebe a mordida.

Um caso registrado na Ilha Grande, em Angra dos Reis (RJ), ajuda a entender essa relação. Um morador de 33 anos teve o sangue sugado por um morcego hematófago enquanto dormia e só percebeu o ferimento pela quantidade de sangue no pé e no chão. Ele não sentiu dor nem chegou a ver o animal.

O episódio foi descrito no artigo científico “Humanos no cardápio: relato de ataque de morcego-vampiro na Ilha Grande-RJ e implicações para a saúde”, publicado em 2026 na revista Physis.

O estudo, conduzido por pesquisadores ligados à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), relata um dos poucos registros desse tipo no estado e discute também os riscos relacionados à transmissão da raiva.

Caso de homem atacado por morcego-vampiro é descrito pela ciência; entenda o comportamento

liliana-sflores / iNaturalist

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Das mais de 1,4 mil espécies de morcegos conhecidas no mundo, apenas três espécies viventes são hematófagas, ou seja, dependem exclusivamente de sangue para se alimentar: Desmodus rotundus, Diaemus youngii e Diphylla ecaudata. As três ocorrem do norte da Argentina ao norte do México.

Entre elas, Desmodus rotundus, conhecido como morcego-vampiro-comum, é o mais frequente no Brasil.

“O Desmodus rotundus é a mais comum das três espécies de morcegos hematófagas que ocorrem no Brasil. São generalistas, se alimentando de sangue de mamíferos de médio e grande porte, aves e eventualmente humanos”, explica Roberto Leonan M. Novaes, doutor em Biodiversidade e Biologia Evolutiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisador da Fiocruz e especialista em morcegos.

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Morcego-vampiro-comum (Desmodus rotundus)

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Segundo Novaes, as outras duas espécies são mais raras, menos adaptadas a ambientes muito alterados e têm alimentação predominantemente baseada no sangue de aves.

Em condições naturais, porém, humanos estão longe de ser a primeira opção do morcego-vampiro-comum.

“Humanos não são as presas preferenciais dos morcegos hematófagos, mas podem ser parte do cardápio mais frequentemente em casos onde não há suas presas preferenciais. Em condições naturais, suas principais presas são catetos, queixadas, veados, tatus e outros mamíferos de médio e grande porte. Em ambientes rurais, o gado se tornou preferencial pela sua grande abundância”, afirma o pesquisador.

O artigo também aponta que ataques a humanos são considerados eventos raros e aparecem com maior frequência nas regiões Norte e Nordeste do país. A literatura analisada pelos autores associa parte desses episódios a desequilíbrios ecológicos e à redução repentina da disponibilidade de animais domésticos e silvestres.

Como o morcego encontra uma pessoa no escuro?

A aproximação é muito mais discreta do que aquela eternizada pelas histórias de vampiros.

O Desmodus rotundus combina diferentes sentidos para localizar uma possível fonte de alimento.

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angel_trres / iNaturalist

“Os Desmodus utilizam a combinação da visão, olfato e ecolocalização para encontrar suas presas. Também [possuem] receptores nervosos sensíveis à temperatura no focinho que ajudam a detectar as partes mais vascularizadas do corpo da presa”, explica Novaes.

Depois de localizar o animal ou a pessoa, o morcego não costuma simplesmente mergulhar sobre a presa.

“O morcego se aproxima da presa por caminhada de forma furtiva e silenciosa e, a partir de um pequeno corte feito com os dentes incisivos, [inicia a alimentação]. Na saliva há uma enzima anticoagulante chamada Draculina, que mantém o fluxo do sangue contínuo. O morcego ingere o sangue que escorre por lambeduras, consumindo entre 10 e 20 ml de sangue. Após isso, ele vai embora”, detalha.

A descrição ajuda a entender uma característica curiosa do caso registrado na Ilha Grande: o morador não sentiu a mordida.

“Por vezes, a pessoa não percebe porque o processo ocorre à noite, enquanto a presa dorme profundamente, e a mordida é bem pequena e praticamente indolor”, afirma Novaes.

O artigo científico descreve mecanismo semelhante. Segundo os autores, o ferimento costuma ser superficial e é feito pelos dois incisivos superiores. O anticoagulante presente na saliva mantém o sangue escoando e, em geral, a vítima não sente a mordida. Os dedos dos pés, justamente onde o morador foi ferido, estão entre as regiões frequentemente atingidas nesses episódios.

Antes do homem, cães eram atacados

O ataque registrado na Ilha Grande não surgiu isoladamente.

A casa onde o morador dormia fica em uma área de floresta, próxima a um rio. Segundo o relato documentado pelos pesquisadores, os cães da residência haviam sido atacados três vezes nos cerca de 20 dias anteriores ao episódio com o homem.

Morcego-Vampiro-Comum (Desmodus rotundus)

juancruzado / iNaturalist

Os animais apresentavam ferimentos nas patas e nos focinhos. A recorrência fez com que deixassem de dormir no quintal e levou os moradores a manter portas e janelas fechadas durante a noite.

Após o episódio, pesquisadores instalaram dez redes de neblina ao redor da casa e realizaram uma noite de amostragem. Nove morcegos de cinco espécies foram capturados. Entre eles estava um Desmodus rotundus, macho adulto.

O animal foi submetido a um exame para detecção do vírus da raiva, que apresentou resultado negativo. Até 10 de fevereiro de 2025, data considerada no acompanhamento apresentado no estudo, não haviam sido registrados novos ataques a pessoas ou cães naquele local.

Relação com humanos é rara

Apesar do caso, encontrar morcegos não significa estar diante de animais à procura de pessoas para se alimentar.

“A interação entre morcegos-vampiros e humanos é rara em áreas urbanas, mas pode ser mais comum em áreas florestais isoladas, sobretudo em comunidades ribeirinhas e indígenas. Isso mostra a importância de manter vigilância epidemiológica para riscos de transmissão da raiva”, explica Novaes.

O estudo também destaca que, atualmente, os relatos brasileiros de alimentação de morcegos hematófagos em humanos ocorrem principalmente entre indígenas e ribeirinhos na Amazônia. Ao mesmo tempo, as espécies hematófagas também já foram registradas em ambientes urbanos.

No caso da Ilha Grande, os pesquisadores chamam atenção justamente para a proximidade entre moradias, ambientes florestais, pessoas e animais domésticos. Segundo o trabalho, mudanças ambientais, perda de habitat e alterações na disponibilidade de presas podem modificar as interações dos morcegos hematófagos com animais domésticos e humanos.

Nada de mordida no pescoço

Se o comportamento real já parece curioso, ele tem pouco a ver com a imagem construída pelo cinema e pela literatura.

“Há muitos mitos de que os morcegos atacam pessoas a partir do voo, mordendo o pescoço, tal qual os filmes de vampiro. Isso é absolutamente falso”, afirma Novaes.

O que existe é um animal altamente especializado em uma dieta incomum, capaz de localizar áreas vascularizadas, produzir um pequeno ferimento e se alimentar do sangue que escorre.

Morcego-Vampiro-Comum (Desmodus rotundus)

kathascharf / iNaturalist

A possibilidade de transmissão da raiva, no entanto, faz com que episódios de contato não devam ser ignorados. O estudo destaca a importância da vigilância epidemiológica, da educação em saúde e do atendimento às vítimas. No Brasil, a profilaxia da raiva é oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Os autores também orientam que animais silvestres, incluindo morcegos encontrados caídos ou com alterações de comportamento, não sejam manipulados. Em situações de possível exposição, o estudo ressalta a importância de procurar atendimento médico rapidamente e seguir o tratamento recomendado.

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