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Projeto solar em Fernando de Noronha remove 10 mil árvores e gera críticas de moradores

Árvores foram removidas para instalação de painéis solares

G1 — Brasil · 2026-09-16T18:51:54.000Z

Árvores foram removidas para instalação de painéis solares

Ana Clara Marinho/TV Globo

A remoção de cerca de 10 mil árvores para a instalação de 30 mil painéis solares é alvo de críticas de moradores de Fernando de Noronha. A obra faz parte do projeto Noronha Verde, da Neoenergia, que prevê investimento de R$ 350 milhões. A iniciativa tem como objetivo substituir o uso de óleo diesel na geração de energia por fontes renováveis na ilha.

Os moradores apontam possíveis impactos ambientais provocados pela retirada da vegetação e questionam o uso de uma área que, segundo eles, poderia ser destinada à moradia da população local.

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O engenheiro agrônomo e doutor em Ciências do Solo Domício Cordeiro nasceu na ilha e foi administrador de Fernando de Noronha na década de 1990. Ele avaliou a execução do projeto.

“A remoção das árvores, do ponto de vista científico, me preocupa porque o solo de Fernando de Noronha é altamente frágil, suscetível à erosão. Isso vai assorear os cursos de água ou vai levar esse material para o mar”, afirmou Domício Cordeiro.

O agrônomo explicou que a vegetação ajuda a reduzir os impactos da chuva.

“As árvores funcionam como amortecedor. Sem a vegetação, o solo será arrastado. É a vida indo embora. A placa solar vai funcionar como telhado. No próximo período chuvoso, a única proteção que o solo terá será o capim. Além disso, os caranguejos foram esmagados e os pássaros perderam seus ninhos. O equilíbrio da natureza foi destruído. A ideia é boa, mas a execução está dolorosa”, disse.

O presidente da Assembleia Popular Noronhense (APN), Nino Alexandre Lehnemann, disse que o projeto chegou estruturado à ilha, mas que não era possível dimensionar, inicialmente, o impacto da intervenção.

“É assustador porque as áreas com remoção de vegetação são pontos vistos em Noronha. É evidente a retirada das árvores. Não combina com Fernando de Noronha, que conta com Parque Nacional e Área de Proteção Ambiental. Até parece cidade grande. Não é bonito”, declarou.

Segundo a Neoenergia, o projeto ocupa uma área de 23 hectares. Desse total, 16 hectares, o equivalente a cerca de 160 mil metros quadrados, têm remoção de vegetação.

Os moradores também afirmam que as áreas poderiam ser usadas para outras finalidades sociais.

“São menos áreas para a agricultura, criação de animais e, pior, menos áreas para moradias da população local”, avaliou Nino Lehnemann.

Domício Cordeiro também afirmou que a área fará falta para as famílias no futuro.

“Os lotes para moradia contam com 250 m². Em um hectare, seriam 40 lotes para a população local. Essa área vai fazer falta para os moradores”, afirmou.

Primeira etapa do projeto foi inaugurada em maio com a instalação de 4.800 placas solares na região do aeroporto

Ana Clara Marinho/TV Globo

O que diz a Neoenergia

O superintendente de Meio Ambiente da Neoenergia, Daniel Daibert, destacou a importância de substituir o óleo diesel usado na geração de energia por fontes renováveis. Segundo a empresa, são consumidos 10 milhões de litros de diesel por ano para produzir energia na ilha.

Daniel Daibert explicou que a obra tem autorização da Administração de Fernando de Noronha, da Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Segundo ele, haverá compensação pela retirada das árvores.

“Nós demos início à produção de 20 mil mudas para plantar o dobro de árvores que foram removidas pelo projeto, em áreas definidas pela CPRH e pelo ICMBio para recuperação com espécies nativas. É importante esclarecer que 55% das espécies existentes eram exóticas, que prejudicam o meio ambiente, e vamos plantar árvores nativas”, informou Daniel Daibert (veja vídeo abaixo).

Retirada de árvores para instalação de painéis solares gera críticas em Noronha

O superintendente de Meio Ambiente da Neoenergia afirmou que serão realizadas ações para proteger o solo nas áreas onde houve retirada de árvores.

“Nós vamos realizar drenagem e proteção do solo. Vamos direcionar a água para que não haja carreamento de sedimentos e impactos ambientais. Embaixo dos módulos solares teremos cobertura vegetal, com grama, para proteger o solo”, declarou.

Daniel Daibert mostra mudas que serão usadas no plantio

Ana Clara Marinho/TV Globo

O que diz a CPRH

A CPRH informou, em nota, que o empreendimento passou por processo de licenciamento ambiental, com a elaboração de um estudo específico para avaliar os possíveis impactos da obra.

A análise contou com a participação da Administração de Fernando de Noronha e do ICMBio.

Segundo a CPRH, os impactos da implantação e da operação do empreendimento foram identificados e avaliados no estudo ambiental. A análise levou em conta as características da obra e a localização do projeto.

A partir dessa avaliação, foram definidas medidas para prevenir, controlar e reduzir possíveis impactos ambientais, além de ações de compensação quando necessárias.

Em relação à vegetação, está prevista a retirada de aproximadamente 16 hectares. Desse total, cerca de 55% correspondem a espécies exóticas e 45% a espécies nativas.

Como forma de reposição da vegetação, serão plantadas aproximadamente 20 mil plantas de espécies nativas. Segundo a CPRH, elas serão obtidas a partir de material genético de plantas resgatado na área e de mudas produzidas na própria ilha, seguindo as orientações do órgão e do ICMBio.

O plantio será realizado em três áreas definidas pelos órgãos ambientais: Sítio Leão, Praia da Conceição e Praia do Sancho. A medida tem como objetivo recuperar a vegetação e contribuir para a preservação dessas áreas.

Também foram previstas medidas para evitar erosão e o deslocamento de sedimentos durante a obra. Para isso, será instalado um sistema de drenagem com canaletas, valetas e bacias de retenção.

A estrutura vai controlar e direcionar a água da chuva, reduzindo o risco de erosão e de perda de solo.

A CPRH informou ainda que recebe relatórios de acompanhamento das intervenções para fiscalizar os aspectos ambientais durante a implantação e a operação do empreendimento.

O g1 também procurou o ICMBio e a Administração de Fernando de Noronha para comentar as críticas dos moradores, mas não recebeu resposta até a última atualização desta reportagem.

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