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Kátia Cilene e Wanderson dos Santos no dia da formatura na Educação de Jovens e Adultos (EJA)
G1 — Brasil · 2026-09-20T09:00:01.000Z
Kátia Cilene e Wanderson dos Santos no dia da formatura na Educação de Jovens e Adultos (EJA)
Kátia Cilene/Arquivo Pessoal
Aos 48 anos, depois de dois divórcios e cinco filhos, Kátia Cilene decidiu que ainda era tempo de realizar um desejo: voltar a estudar. O que ela não imaginava é que a busca por conhecimento também a levaria a encontrar o amor. Foi na Educação de Jovens e Adultos (EJA) que ela e Wanderson dos Santos, de 55 anos, que também havia deixado os estudos na juventude para trabalhar, se apaixonaram e hoje seguem juntos na realização de sonhos que, por muitos anos, pareceram distantes.
A história dos dois começou na igreja e evoluiu para a sala de aula e, desde então, eles passaram a dividir mais do que os livros e os desafios da vida acadêmica. Hoje, Kátia e Wanderson são alunos do segundo período do Bacharelado em Humanidades da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Após a conclusão do EJA, o casal decidiu se inscrever para o GARRA - Cursinho Popular da UFJF. A preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) abriu portas para o ensino superior. E os sonhos continuam: escrever um livro, se tornar professor de história e inspirar os filhos.
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Relacionamentos abusivos deram espaço à uma relação de cuidado e companheirismo
Os estudos representam voz e autonomia para Kátia Cilene
Kátia Cilene/Arquivo Pessoal
Kátia engravidou aos 14 anos, quando estava no nono ano do Ensino Fundamental. Se viu obrigada a abandonar os estudos para trabalhar como empregada doméstica e cuidar da família.
Criada pela avó religiosa e guiada pela fé, Kátia se tornou uma liderança na igreja em que frequentava. Mas se por um lado a fé dava forças, por outro, foi onde ela aprendeu que não poderia se divorciar ou usar métodos contraceptivos.
“Eu tive três filhas com um rapaz de quem eu engravidei com 14 anos, e eu tive muitos problemas porque ele era alcoólatra, não trabalhava, e eu tive que trabalhar e arcar com todas as obrigações que cabiam a ele naquele momento. E eu queria muito que desse certo porque eu fui criada pela minha avó, que achava que ele tinha que ser único homem da minha vida”, relembra.
Com três filhos, quando decidiu se divorciar, Kátia foi julgada por sua comunidade religiosa e este foi seu impulso para voltar a estudar aos 44 anos de idade. “Eu já tinha muita vontade de estudar desde quando eu engravidei. Eu tentei estudar outras vezes, mas minhas filhas eram pequenas”, conta.
Na igreja, Kátia conheceu seu segundo marido, com quem teve mais dois filhos. Ela explica que o homem era agressivo e não contribuía com as despesas de seus filhos do primeiro casamento.
Lá, também conheceu o Wanderson, que se tornou um amigo e lhe estendeu a mão durante o período de seu segundo divórcio. Ele passava por um momento parecido e criaram uma parceria a partir das dificuldades.
“Ele foi sendo companhia na idas e voltas do colégio, da igreja. E a gente acabou conversando e criando amizade”. Mas o que era apenas apoio, virou interesse por aquela escola e Wanderson decidiu se inscrever no EJA também.
“À princípio eu queria só tirar o ensino médio, para fazer um curso de teologia, para poder ser útil na minha igreja, ser útil no local onde eu professava minha fé, congregava”, compartilha Kátia.
Mas ela não esperava que, durante as aulas no EJA, seria sorteada para ganhar uma inscrição em um curso de escrita na UFJF. Acompanhada de Wanderson, nas salas de aula da universidade, percebeu que aquele espaço também tinha lugar para ela.
“Aquele espaço era pra mim também por direito e essa possibilidade se tornou tão real, tão presente, tão perto de mim, que eu falei: isso que eu quero, eu vou estudar, vou terminar o ensino médio, vou fazer o ENEM e eu quero fazer uma graduação. Eu quero fazer por mim, pelos meus filhos, por pessoas que me cercam, eu quero fazer”, orgulha-se.
Kátia percebeu que aquele lugar, frequentado por pessoas com diferentes graus de escolaridade, poderia ser acolhedor para ela também. E a escolha do curso não poderia ser outra:
“Eu gosto muito de filosofia, gosto muito de sociologia, de história. Então a área das humanas, eu tenho paixão por elas, sabe? Não poderia ter feito melhor escolha”, contou Kátia ao g1 Zona da Mata.
A companhia e o apoio se tornaram apreço pela educação
Wanderson dos Santos se formou no EJA e agora cursa o Bacharelado em Humanidades
Wanderson dos Santos/Arquivo pessoal
Wanderson também precisou parar de estudar aos 15 anos para trabalhar e ajudar sua família. Mas depois de 28 anos longe da escola, aos 43 anos de idade, quando viu Kátia interessada em retomar os estudos, decidiu acompanhá-la.
“Eu comecei no Centro de Estudos Supletivos (CESU), do CESU fui para o EJA. Do EJA para o GARRA, uma equipe maravilhosa. Fizemos a preparação e estamos aqui na UFJF”, afirma.
A escolha do curso também é fruto das orientações que recebeu dos professores: “principalmente as pessoas do GARRA deram uma orientação para a gente começar do básico, porque para a gente é tudo novo na faculdade. Então a gente decidiu pelo bacharel para ter uma visão ampla, um norte, saber por onde a gente começa”, Wanderson compartilha.
E quase um ano após o ingresso no ensino superior, o aluno ainda vive um sonho.
“Pra mim foi um marco na história, porque eu praticamente nasci nessa universidade. Eu sou nascido e criado no Dom Bosco (bairro vizinho da UFJF) e nunca imaginei que eu ia chegar nessas possibilidades que a gente está tendo. É tudo novo, eu amo! Estou na minha casa e gosto de estudar, gosto de ler, tenho que me desenvolver muito ainda, mas eu estou amando, amando mesmo!”, dividiu com o g1 Zona da Mata.
Wanderson evidencia a importância de ocupar os espaços de ensino.
“O Restaurante Universitário (RU), quando eu vou lá eu fico até maravilhado. A comida é muito boa, a alimentação é muito boa, mas a experiência, a oportunidade de me sentar ali, naquele local, a gente fica até emocionado. A gente fica olhando esses jovens e eu falo: ‘gente, aproveita essa oportunidade, porque eu não tive, né? Agora, depois de 28 anos, eu estou tendo’”, propõe.
Kátia atesta que a decisão de Wanderson de voltar a estudar foi importante para que ela se mantivesse neste caminho também.
“Vencer o cansaço para sair de um dia de oito horas de trabalho e ir para a escola estudar é muito difícil. Então ele me ajudou e me ajudou muito, ele tem uma facilidade para guardar as informações, então isso também me apoiou demais nos meus estudos para contribuir para que eu pudesse fazer o ENEM”, afirma Kátia.
A universidade é para todos
Apesar dos desafios que encontraram nesta jornada de estudos, Kátia e Wanderson atestam à todos a importância da educação. A conclusão do curso significa a realização de mais um sonho. “É uma oportunidade que eu não posso desperdiçar”, diz Wanderson.
“É importante não só para que estejamos com a missão cumprida, mas é um compromisso que a gente tem com a gente e com a nossa família. Partindo do pressuposto que a gente está olhando pro futuro pra poder pensar profissionalmente numa condição de vida melhor, em oportunidades melhores”, ressalta Cilene.
E o estudo não é a única coisa que a faculdade oferece. Para o casal, o mais importante é o reconhecimento da sua capacidade. “É uma sensação de que eu sou capaz, que foi possível! Que bom que eu acreditei”, orgulha-se a aluna.
O casal evidencia ainda a importância do apoio dos professores para que pudessem chegar na universidade: mais que repassar o conteúdo, foram eles quem acreditaram nos sonhos dos dois e os fizeram se sentir vistos, apoiados e acolhidos.
Wanderson foi considerado o aluno mais participativo no GARRA - Cursinho Popular
Wanderson dos Santos/Arquivo Pessoal
E Wanderson ressalta que seu objetivo não é vencer sozinho, mas trazer consigo os amigos que também precisaram abrir mão de sonhos antigos.
“Eu tenho amigos também que estão estudando para a faculdade. Estão querendo vir também. Já demonstraram interesse. Eu tenho muitos amigos que pararam, cada um com a sua situação.Um momento de adversidade, um momento de desemprego. Mas pensam em voltar. E a gente parece um espelho para eles. Eu puxo eles também".
E para quem pensa em voltar para a escola ou para a universidade, o casal mostra que nunca é tarde. Wanderson incentiva.
“Não só pensar. Eu falo que é a lei da física, toda ação tem reação. Estuda mesmo, volta com afinco, volta com interesse, pode vir até desanimado, mas vem acreditando. O conhecimento nunca é demais. Eu não falo isso porque estudar desenvolve muito o cérebro, mas você começa a acreditar no seu futuro, no seu projeto. Você começa a criar metas, você vê o potencial que você tem”.
Kátia concorda: “acredite em você, acredite nos seus sonhos e vai. Vai com força, vai com foco, vai com esperança, vai do jeito que está, não espera o melhor momento, porque eu acho que não existe o melhor momento, acho que existe o momento”.
E se engana quem acredita que os sonhos terminam por aqui. Wanderson quer ser professor de história e inspirar os filhos e amigos a acreditarem mais em si mesmos. Kátia pretende fazer um mestrado em Ciências Sociais para poder contribuir com a sua comunidade e planeja escrever um livro.
“Eu tenho esse desejo também, de levar a universidade para as comunidades, para as escolas públicas, e mostrar que aquele espaço, aquele ambiente também é direito deles”, finaliza Kátia.
*estagiária sob supervisão de Bruna Merlin.
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