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Temporal com granizo causa estragos em Campo Grande
G1 — Brasil · 2026-09-20T09:00:01.000Z
Temporal com granizo causa estragos em Campo Grande
Os temporais que atingiram Campo Grande nos últimos dias deixaram um rastro de destruição, com árvores e galhos caídos, ruas bloqueadas, fios atingidos e imóveis danificados. Diante dos estragos, a prefeitura decretou emergência na cidade. O município, reconhecido como um dos mais arborizados do mundo, agora convive com os estragos e o medo de novos temporais.
🔎Ao todo, 450 ocorrências relacionadas às chuvas foram registradas pela Prefeitura de Campo Grande desde quinta-feira (10), quando temporais atingiram a cidade. Desses chamados, 423 envolveram quedas de árvores ou galhos, segundo o município.
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A lanchonete da família de Anny Gabrielly, no bairro Mata do Jacinto, em Campo Grande, foi atingida pelo desabamento do forro e pela queda de uma árvore durante o temporal. Funcionários conseguiram deixar o local antes que a árvore atingisse a estrutura, mas o estabelecimento, que tem mais de 20 anos de história, sofreu danos em equipamentos, alimentos e parte do imóvel.
A família estima um prejuízo superior a R$ 30 mil e perdeu o principal local de trabalho e fonte de renda. O episódio faz parte de um cenário mais amplo de estragos provocados pela chuva na capital, que registrou centenas de ocorrências relacionadas à queda de árvores e galhos.
A cidade das árvores e as quedas
423 ocorrências durante temporal envolveram quedas de árvores ou galhos em Campo Grande
O caso chama atenção para uma pergunta que vai além dos estragos provocados pela tempestade:
Se Campo Grande é conhecida pela quantidade de árvores nas ruas, por que tantas delas acabam no chão quando chove forte e venta?
A resposta não está em um único fator. Segundo especialistas ouvidos pelo g1, uma árvore saudável pode cair diante de ventos muito fortes, mas características da espécie, podas, doenças, espaço para as raízes e até como as árvores são inseridas na cidade podem aumentar a vulnerabilidade. Abaixo, veja as principais causas das quedas:
🌧️ Temporal extremo - Vento forte pode derrubar até árvore saudável;
🌳 Condição da árvore - Doenças, fungos e cupins podem fragilizar a estrutura;
✂️ Podas inadequadas - Podem abrir portas para fungos e cupins;
🌱 Raízes - Cortes e restrições podem comprometer a sustentação;
🌿 Espécie - Algumas têm características que podem aumentar a vulnerabilidade;
🏙️ Espaço urbano - Calçadas pequenas e pouco espaço para raízes dificultam o desenvolvimento;
⚡ Infraestrutura - Árvores, calçadas e fiação precisam ser planejadas em conjunto.
Centenas de árvores e galhos caíram durante o temporal
Das 450 ocorrências, 423 relacionadas a árvores ou galhos caídos. A região central concentrou o maior número de chamados, com mais de 120 ocorrências.
O Corpo de Bombeiros registrou 281 chamados relacionados a risco ou queda de árvores em apenas quatro dias (entre 10 e 14 de setembro).
A rede elétrica também foi atingida. Segundo a Energisa, 257 árvores precisaram ser retiradas da rede elétrica durante o último temporal. Famílias ficaram mais de 48 horas sem luz, amargando prejuízos e noites de calor.
⚠️ O volume de ocorrências aconteceu em meio a uma chuva acima do normal para o mês. Segundo o Inmet, desde 10 de setembro, Campo Grande acumulou mais de 102 milímetros de chuva, quase 40% acima da média histórica de todo o mês de setembro.
A força do temporal ajuda a explicar parte das quedas. Entretanto, para entender por que algumas árvores resistem e outras não, é preciso olhar para as condições de cada planta.
Em nota, a prefeitura de Campo Grande disse que "os trabalhos estão sendo executados em conjunto com a Sisep, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros. E, posteriormente, esses dados poderão ser cruzados com os dados do Arbolink para futura verificação". O g1 pesquisou o sistema, mas estava fora do ar até a última atualização desta reportagem.
🌳 Até uma árvore saudável pode cair
O professor e botânico Geraldo Damasceno, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), explica que uma árvore não precisa necessariamente estar doente ou apresentar um problema visível para cair durante uma tempestade. Uma árvore grande, saudável, isolada e diretamente exposta a ventos fortes pode ser derrubada pela força das rajadas.
“Se a árvore está plantada isolada, é uma árvore grande e não tem nenhuma outra árvore perto, não tem edificações, ela está relativamente isolada, um vento forte pode derrubar uma árvore grande que esteja saudável”, explica.
Segundo o professor, a quantidade de quedas registrada durante o temporal também é resultado da combinação entre as condições das árvores e a intensidade dos eventos climáticos.
Isso significa que não existe uma explicação única. O vento forte pode ser o gatilho, mas uma árvore que já esteja fragilizada por outros fatores pode ter mais dificuldade para resistir.
🌱 Poda e raízes
O manejo e a escolha das espécies podem influenciar o risco de queda de árvores. Segundo o botânico Damasceno, podas inadequadas ou realizadas em períodos impróprios podem facilitar a entrada de fungos e cupins, comprometendo a estrutura da planta ao longo do tempo.
O professor cita o guapuruvu como exemplo de espécie de crescimento rápido e grande porte, mas com madeira mais frágil. Ele explica que árvores muito altas e expostas a ventos fortes podem oferecer maior risco de acidentes. Por isso, a escolha da espécie deve considerar o local de plantio e o tamanho que a árvore poderá atingir.
Árvores plantadas em calçadas muitas vezes têm pouco espaço para desenvolver as raízes. Para evitar danos ao piso, moradores podem instalar estruturas que limitam o crescimento subterrâneo ou cortar raízes que levantam a calçada. Segundo Damasceno, essas intervenções podem comprometer a sustentação da árvore e aumentar o risco de queda durante ventos fortes.
O professor explica que as raízes são responsáveis por fixar a planta no solo e que restrições ao seu desenvolvimento podem prejudicar a estabilidade do vegetal. Em áreas abertas, onde há mais espaço para o crescimento das raízes e menos necessidade de intervenções, as árvores tendem a se desenvolver em condições mais favoráveis.
🌲 Não basta escolher a árvore: é preciso pensar onde ela será plantada
Corpo de Bombeiros registrou 281 chamados relacionados a risco ou queda de árvores em três dias
A escolha da espécie, portanto, não pode ser separada do planejamento da cidade. É justamente nesse ponto que o urbanista Julio Botega, doutor em Arquitetura e Urbanismo, chama atenção para como Campo Grande trata a arborização.
Para ele, o problema não é a quantidade de árvores existentes, mas o fato de elas nem sempre serem consideradas parte da infraestrutura urbana. Árvores influenciam a temperatura, o microclima e a drenagem da cidade, mas precisam dividir espaço com calçadas, ruas, postes, fiação elétrica e outros equipamentos urbanos.
Para o urbanista, a arborização precisa ser planejada com os demais elementos da cidade, considerando desde a largura das ruas e o espaço das calçadas até o crescimento que a árvore terá ao longo dos anos.
Qual árvore pode ser plantada na calçada?
Em Campo Grande, o plantio de espécies frutíferas, por exemplo, nas calçadas é proibido pela Lei Complementar nº 184/2011. Segundo a Semades, essas árvores, como a Seriguela, são recomendadas para quintais, praças e parques, desde que sejam respeitadas as distâncias em relação aos elementos urbanos.
🔎A cidade possui ainda um Manual de Arborização Urbana, que reúne orientações sobre o plantio e o manejo das árvores.
A questão é o local adequado para cada espécie, considerando características como tamanho, raízes e relação com os equipamentos urbanos.
Prefeitura faz avaliação quando morador pede
A Semades informou que podas ou retiradas de árvores precisam de autorização prévia da Prefeitura. Qualquer iniciativa que afete as árvores tanto na via pública quanto em terreno próprio exigem autorização da prefeitura. Para fazer isso, clique neste link.
Após solicitar a avaliação, um técnico da Gerência de Arborização faz uma vistoria e indica o manejo considerado adequado para preservar a saúde e a longevidade da planta. O serviço é gratuito.
Em janeiro de 2026, a secretaria informou que Campo Grande tinha cerca de 175 mil árvores somente no sistema viário, ou seja, nas calçadas, sem contar praças e parques. Porém, a Semades informou ainda que não existe um programa específico para monitoramento das espécies.
A reportagem também questionou a Prefeitura sobre quantas das árvores que caíram durante o temporal já haviam sido avaliadas anteriormente, se havia registros de risco e se existe algum acompanhamento das árvores consideradas vulneráveis. Até a publicação, não houve resposta.
🌧️ Situação de alerta e emergência
Com o reconhecimento de emergência, órgãos do governo de Mato Grosso do Sul poderão atuar na resposta ao temporal, na recuperação das áreas atingidas e na reconstrução. A coordenação das ações ficará sob responsabilidade da Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil (CEPDEC-MS).
O decreto também permite a convocação de voluntários, a realização de campanhas para arrecadar recursos e, em situações de risco iminente, a entrada de agentes da Defesa Civil em imóveis para prestar socorro ou determinar evacuações.
Outra medida prevista é a possibilidade de contratar serviços e comprar materiais sem licitação, desde que sejam necessários para enfrentar a emergência e a demora possa causar prejuízos ou comprometer a segurança da população. No caso de obras e serviços, os contratos deverão ser concluídos em até um ano a partir da ocorrência do desastre.
🌴 O que pode evitar novas quedas?
Segundo especialistas, não é possível controlar a intensidade de uma tempestade, e até árvores saudáveis podem cair diante de ventos excepcionais. No entanto, algumas medidas ajudam a reduzir os riscos:
Escolha da espécie: plantar árvores adequadas ao espaço disponível e ao ambiente urbano.
Acompanhamento: monitorar o crescimento e as condições de saúde da árvore ao longo do tempo.
Podas corretas: realizar podas de maneira adequada, evitando danos à estrutura da planta.
Preservação das raízes: não cortar raízes sem avaliação técnica, pois elas ajudam a manter a árvore de pé.
Planejamento urbano: garantir espaço suficiente para o desenvolvimento das raízes e da copa.
Integração com a infraestrutura: considerar a proximidade de calçadas, ruas, redes elétricas e sistemas de drenagem ao planejar o plantio.
Saiba quem acionar em caso de queda de árvores
Em caso de queda de árvores ou riscos relacionados à arborização, a população deve procurar o órgão responsável por cada situação:
Risco à vida ou danos a imóveis e veículos: acione o Corpo de Bombeiros pelo 193. O atendimento é indicado quando a árvore oferece risco à segurança da população.
Árvores obstruindo ruas e avenidas: entre em contato com a Defesa Civil pelo 199. O órgão também pode encaminhar pedidos de assistência social.
Árvores energizadas ou galhos próximos à rede elétrica: não se aproxime. Acione a Energisa pelo 0800 722 7272, pelo aplicativo Energisa On ou pelo site energisa.com.br. A concessionária deve ser comunicada antes de qualquer poda ou corte próximo à fiação.
Queda de árvores e necessidade de reparos urbanos: em Campo Grande, a população pode acionar a Guarda Civil Metropolitana (153) ou o Fala Campo Grande (156).
Poda ou remoção de árvores em áreas públicas: em Campo Grande, os pedidos devem ser encaminhados ao telefone (67) 4042-1323, ramais 2743 ou 2744; WhatsApp (67) 98189-4041.
Poda ou remoção em áreas particulares: o proprietário deve solicitar autorização à prefeitura antes de realizar o serviço. Em Campo Grande, o pedido deve ser protocolado na Central de Atendimento ao Cidadão (CAC), por meio de processo de poda ou remoção de árvore.