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Falhas de gestão podem levar concessão do Vale do Anhangabaú ao fim
G1 — Brasil · 2026-09-21T08:00:00.000Z
Falhas de gestão podem levar concessão do Vale do Anhangabaú ao fim
A Prefeitura de São Paulo concluiu uma análise sobre os primeiros anos da concessão do Vale do Anhangabaú, no Centro, e identificou o descumprimento de 22 obrigações contratuais pela concessionária Viva o Vale. A apuração técnica revela falhas crônicas de zeladoria, histórico de exploração econômica irregular e uma dívida de quase R$ 2 milhões em multas vencidas desde que o consórcio assumiu a gestão do espaço, em 2021.
Finalizado em 17 de agosto, o relatório foi produzido pela SP Parcerias – empresa municipal responsável pela modelagem do contrato – para fundamentar o processo administrativo que pode levar ao fim antecipado da concessão. O documento recomenda que a Viva o Vale seja notificada para corrigir as pendências. Caso os problemas persistam, a prefeitura poderá avançar para a caducidade, mecanismo que permite a rescisão unilateral da parceria.
O Vale do Anhangabaú foi concedido à iniciativa privada após uma longa reforma que custou R$ 105 milhões aos cofres do município. Comandado pela construtora WTorre, o consórcio vencedor pagou R$ 6,5 milhões pelo direito de explorar o espaço comercialmente por 10 anos. Como contrapartida, assumiu a obrigação de oferecer atividades gratuitas, fazer a manutenção e implementar uma série de melhorias no local.
Vista do Vale do Anhangabaú, no Centro de São Paulo
Passados quase cinco anos, a concessão tem sido marcada pelas controvérsias envolvendo barulho excessivo de festas noturnas, bloqueios constantes no acesso à área e gestão inadequada. Em abril, a criação de um estacionamento irregular sob o Viaduto do Chá foi o estopim para que a gestão Ricardo Nunes (MDB) anunciasse a decisão de encerrar a parceria. Questionada pelo g1 sobre as próximas etapas do processo, a prefeitura se limitou a responder que o ele "está em fase interna de análise".
O novo documento da SP Parcerias reconstrói, ao longo de 88 páginas, o histórico de fiscalizações envolvendo a Viva o Vale. A análise conclui que os problemas identificados não são pontuais, mas recorrentes, tendo sido registrados em diferentes momentos da concessão e, em muitos casos, reaparecido após notificações e penalidades aplicadas pela prefeitura.
A maioria das irregularidades está relacionada à manutenção do espaço público e continua visível para quem circula pelo Vale do Anhangabaú. Em visita recente, o g1 encontrou vários banheiros públicos interditados e todos os bebedouros sem água.
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As fontes luminosas na área central do vale também não foram acionadas nenhuma vez durante as mais de duas horas que a reportagem permaneceu no local. Os cerca de 850 jatos d'água que saem direto do chão deveriam ser ligados ao menos três vezes por dia, mas passam longos períodos desligados, segundo vizinhos.
Outros problemas aparecem nas áreas circulação de pedestres. No cruzamento com a Avenida São João, um dos principais acessos ao vale, várias grelhas para drenagem de água da chuva estavam quebradas ou haviam sido removidas. Em alguns trechos, os buracos foram isolados com gradis metálicos para evitar acidentes com pedestres.
Parte dos danos pode ser atribuída à passagem frequente de carros e até caminhões pela área, onde o próprio pavimento apresenta rachaduras e afundamentos. Também foram observadas falhas em diferentes trechos do piso tátil que deveria orientar a locomoção pessoas com deficiência visual.
Desgaste similar é visto em diversos canteiros de plantas, onde o gramado desapareceu e deu lugar a terra batida. Parte do problema decorre da realização de grandes eventos, quando milhares de pessoas pisoteiam áreas destinadas ao paisagismo.
Grelhas de drenagem quebradas, buracos no calçamento e escada rolante interditada no Vale do Anhangabaú
Os eventos, que estão entre os principais focos de atrito da concessão, também aparecem com destaque no relatório. Desde que passou à gestão da iniciativa privada, o Anhangabaú se consolidou como palco de grandes festivais e apresentações de música eletrônica, muitos deles avançando pela madrugada.
As festas motivaram reclamações em série por moradores de edifícios vizinhos, que relatam transtornos provocados pelo volume do som, pela iluminação dos eventos, pela montagem de estruturas e pelo bloqueio de áreas de circulação. Ao anunciar a abertura do processo para extinguir a concessão, em abril, o prefeito Ricardo Nunes afirmou que esse foi um dos fatores que mais pesaram na decisão.
O relatório da SP Parcerias reúne ocorrências relacionadas tanto ao descumprimento de limites de ruído quanto ao uso do espaço durante festivais. Segundo os técnicos, fiscalizações identificaram a instalação de gradis, tapumes e outras barreiras além dos limites permitidos contratualmente, reduzindo o acesso da população a um espaço que deveria permanecer aberto ao público.
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Os técnicos também apontam possíveis irregularidades em atividades classificadas pela concessionária como gratuitas. Em um dos casos analisados, frequentadores precisavam adquirir copos e cordões para participar da programação. Para a prefeitura, a exigência pode ter descaracterizado a gratuidade anunciada e configurado uma forma de venda casada.
Outra falha relacionada à exploração econômica do espaço é a situação dos quiosques, que deveriam abrigar cafés, lanchonetes e outros serviços capazes de atrair frequentadores, mas nunca foram completamente ativados. Quando o g1 esteve no Vale, apenas dois pontos comerciais estavam funcionando, enquanto os outros dez permaneciam isolados por grades.
A prefeitura ainda sustenta que a concessionária acumula débitos milionários decorrentes de multas já confirmadas administrativamente. Segundo o relatório, cinco penalidades permaneciam sem pagamento até a conclusão da análise, somando R$ 1,97 milhão em valores atualizados. Os casos envolvem, entre outros motivos, atrasos na contratação de seguros obrigatórios e na implementação de áreas de embarque e desembarque.
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Para os técnicos da SP Parcerias, o conjunto de ocorrências indica um padrão de execução considerada inadequada do contrato. O relatório afirma que as evidências reunidas podem se enquadrar nas hipóteses previstas para a decretação da caducidade, como o descumprimento reiterado de obrigações contratuais e o não pagamento de penalidades impostas pelo poder público.
O documento recomenda a abertura de uma fase de saneamento, na qual a Viva o Vale será formalmente intimada a corrigir as irregularidades apontadas e quitar os débitos pendentes. Somente após a análise dessa resposta a prefeitura decidirá se leva adiante o processo para romper definitivamente o contrato.
O g1 solicitou um posicionamento à Viva o Vale sobre o processo que pode levar ao fim antecipado do contrato de concessão, mas a empresa não respondeu.