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‘Ele sabia onde eu ia votar’: eleitora com medida protetiva muda local de votação em iniciativa inédita em SC

35 mulheres com medida protetiva mudaram o local de votação em SC

G1 — Brasil · 2026-09-21T17:21:47.000Z

35 mulheres com medida protetiva mudaram o local de votação em SC

O Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina (TRE-SC) recebeu 35 pedidos de mulheres com medidas protetivas de urgência para transferir o local de votação nas eleições de 2026.

A iniciativa foi oferecida pela primeira vez este ano para vítimas de violência doméstica. A mudança faz parte da Transferência Temporária de Eleitores (TTE), mecanismo que também permite o voto em trânsito.

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Uma das mulheres que solicitou a mudança foi ouvida pela NSC TV. Ela foi vítima de violência doméstica por parte do ex-marido durante anos. A identidade dela não será divulgada para preservá-la.

"Eu vivia numa gaiola de ouro, né? Uma pessoa chegou pra mim e falou: 'tu já te olhaste no espelho? Se tu continuar assim, com ele, tu até o final do ano estás morta'. Aí eu: 'isso é verdade' . Eu arrumei a minha mala e disse: 'tô indo embora'. E aí fui."

Ela conseguiu uma medida protetiva de urgência contra o ex-marido, mas relata que o medo continuou na rotina mesmo após a decisão da Justiça.

Com a proximidade das eleições deste ano, surgiu uma nova preocupação: o ex-marido sabia onde ela votava. Para a eleitora, a mudança permite que ela vote sem medo de encontrar o ex-companheiro.

"De eu pensar que eu ia votar naquele lugar e ele sabia onde é que eu ia votar. E ele ia ficar lá o dia inteiro pra me pegar, eu sei disso", contou.

'Agora vou tranquila'

Ela relata que os dois ainda frequentam regiões próximas e que, desde a concessão da medida protetiva, precisa vigiar os locais antes de entrar.

Com a alteração do local de votação, há mais tranquilidade. Para ela, votar em segurança garante um direito fundamental.

"Agora não tenho medo, porque ele nem imagina que eu tô votando naquela zona. Então eu vou tranquila", relatou.

"Meu voto também vai estar lá. É importantíssimo. Fazer parte da cidadania", continuou.

Violência contra mulher: como pedir ajuda

'O número pode parecer pequeno'

Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Santa Catarina concedeu mais de 18 mil medidas protetivas até julho deste ano. Das vítimas que solicitaram a transferência eleitoral, 35 concluíram o pedido no prazo.

Apesar do número parecer pequeno, os pedidos mostram que havia eleitoras que se sentiam inseguras para votar no local original, afirma a secretária da Corregedoria Regional Eleitoral do TRE-SC, Renata Fávere.

"O número pode parecer pequeno, mas são 35 mulheres que estavam se sentindo inseguras e que eventualmente nem iriam votar porque se sentem ameaçadas", disse Renata Fávere.

A ideia de implementar a iniciativa surgiu da articulação entre órgãos de proteção às vítimas de violência, explica Renata.

"Conversando com a Polícia Civil, o Tribunal de Justiça e a Polícia Militar, levantamos essa ideia de que, eventualmente, a mulher que sofreu uma agressão e tem uma medida protetiva poderia estar votando no mesmo local do agressor", explicou Renata.

Segundo a secretária, o dia da votação exige que a eleitora vá a um local específico. Para quem está sob ameaça, esse deslocamento representa um risco.

A secretária avalia que, por ser um programa novo, muitas mulheres podem não ter recebido a informação. Ainda assim, o tribunal considera importante ter atendido as eleitoras que buscaram o serviço.

Polícia Militar informou mulheres sobre a mudança

A Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC), por meio da Rede Catarina, programa que acompanha vítimas com medidas protetivas de urgência, também orientou mulheres sobre a possibilidade de mudança, informou a capitã Karla Medeiros, chefe em exercício da Secretaria de Programas Institucionais do órgão.

"Todas as policiais da Rede Catarina informaram pra essas vítimas, deram as orientações, o que elas precisavam levar", explicou a capitã.

Karla comentou que a proximidade entre as policiais e as mulheres acompanhadas pela Rede Catarina ajudou na divulgação.

"Todas as mulheres a quem foi repassada a informação acharam muito interessante essa possibilidade, se sentiram mais seguras e ficaram realmente felizes de poder ter essa alternativa pra votar em segurança", afirmou a capitã.

Capitã Karla Medeiros, chefe em exercício da Secretaria de Programas Institucionais da PMSC

Para a policial, a mudança do local de votação é importante para a prevenção de novos crimes.

"A gente não pode esperar que um novo episódio de violência ocorra para que a gente pense em alternativas, em soluções. Então, essa medida traz uma verdadeira prevenção", disse.

Outros estados procuraram o TRE-SC

A iniciativa catarinense despertou o interesse de outros Tribunais Regionais Eleitorais. Segundo Renata Fávere, secretária da Corregedoria Regional Eleitoral, órgãos do Acre, Distrito Federal, Paraná, Rio Grande do Sul e Minas Gerais procuraram o TRE-SC para conhecer o projeto.

✍️O tribunal catarinense pretende levar a proposta ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para transformar o mecanismo em uma política nacional.

"Isso passe a ser uma rotina, a cada eleição, oferecer esse serviço às mulheres", afirmou Renata.

Segurança no dia da eleição

A Justiça Eleitoral afirma que as forças de segurança vão atuar no dia da votação para garantir a segurança também das eleitoras que não pediram a mudança.

Segundo Renata Fávere, as polícias estarão em plantão permanente, com canal direto com o gabinete de pronta resposta. A capitã Karla Medeiros também confirmou o reforço no policiamento.

"A Polícia Militar está nas ruas pra garantir o direito de voto de qualquer cidadão, especialmente também da mulher que tenha uma situação de vulnerabilidade", disse.

A secretária do TRE-SC explica que, embora o prazo de transferência tenha terminado, casos graves e específicos nos dias anteriores ao pleito podem ser analisados pela Justiça Eleitoral de forma prioritária.

Para a eleitora entrevistada, a mudança garante que ela não precise escolher entre exercer a cidadania e se proteger.

"Foi uma coisa muito importante, né? Porque eu não confio nele", afirmou.

Iniciativa foi oferecida pela primeira vez em SC

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