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Acreana lança livro inspirado em sonhos que teve durante pesquisa sobre feminicídios
G1 — Brasil · 2026-09-22T10:00:01.000Z
Acreana lança livro inspirado em sonhos que teve durante pesquisa sobre feminicídios
Enquanto analisava 50 casos de feminicídio no Acre para dois estudos do Ministério Público do Acre (MP-AC), a economista Antônia Tavares percebeu que as imagens dos processos começaram a reaparecer durante o sono. O que surgia em sonhos passou a ser registrado em um caderno ao lado da cama e, anos depois, deu origem ao livro "Caderno Rosa: 360 noites entre sonhos e insônias".
Os registros renderam 12 cadernos e mais de mil páginas de anotações. Desse material, a autora selecionou 169 sonhos que compõem a obra, construída ao longo de um ano de trabalho.
O lançamento ocorreu no último dia 9, durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, com apoio da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Ao g1, Antônia contou que percebeu uma mudança no padrão dos próprios sonhos enquanto estudava as mortes de mulheres.
"Percebi que as imagens que encontrava durante o dia reapareciam à noite de forma simbólica nos meus sonhos. Uma das situações que mais se repetia era a fuga. Eu tentava escapar de alguém ou de alguma coisa. Era da morte, mas, no sonho, a gente não morre. Eu, por exemplo, voava", disse.
Escritora selecionou 169 relatos e reconstruiu a trajetória de uma vítima de 14 anos assassinada em 2018
Antônia mantinha um caderno ao lado da cama para registrar imagens, palavras e sensações assim que acordava. Segundo ela, muitos textos surgiam prontos durante os sonhos e foram preservados no livro.
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Alguns elementos passaram a se repetir ao longo dos registros. "Essa experiência envolveu uma figura sem forma que aparecia em alguns sonhos e que vez ou outra conversava comigo. Com o tempo, aprendi a permanecer consciente durante parte dos sonhos e isso ajudou muito", afirmou.
Durante o trabalho técnico no MP-AC, Antônia lidava diariamente com documentos, números e informações sobre as vítimas. Nos cadernos, porém, registrava aquilo que os casos despertavam nela.
"O estudo exigia precisão, já os cadernos acolhiam aquilo que os documentos despertavam em mim. Eu via que as mulheres retratadas nos documentos judiciais apareciam principalmente a partir do crime cometido contra elas, mas a história anterior à morte nem sempre estava presente", explicou.
Lançamento ocorreu durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
📝 Da investigação à escrita
O livro também revisita histórias que marcaram a autora durante a pesquisa. Uma delas é a de uma adolescente de 14 anos assassinada em 2018 pelo companheiro em um seringal às margens do Rio Tarauacá, no interior do Acre.
"Esse foi um dos casos que mais me afetaram. Foi o único em que o acusado foi absolvido. A absolvição não encerrou o caso para mim. Ao contrário, lançou-me em suas regiões mais profundas. Por isso criei um outro final para ela: um final em que ela não morre. Pelo menos, não em mim", conta.
Os sonhos reunidos no livro abordam temas como medo, fuga, violência, memória, morte e sobrevivência, mas também trazem imagens de nascimento, transformação e renovação.
Embora os sonhos tenham sido registrados em 2021, a publicação só ocorreu agora. A autora diz que precisou de tempo para compreender o material e encontrar coragem para compartilhá-lo. Ela também afirma que recebeu incentivo de amigos para publicar o manuscrito.
"Cada feminicídio que eu lia e estudava me matava um pouco. Escrever o Caderno Rosa de Sonhos me ressuscitou. Espero que o livro possa incentivar outras mulheres a registrar sonhos, memórias, medos e desejos", diz.
Antônia também participou dos estudos que subsidiaram a criação do Feminicidômetro do MP-AC, ferramenta que monitora os casos de feminicídio no estado. Segundo ela, os levantamentos permitiram identificar padrões recorrentes nos crimes e resultaram na publicação do estudo Realidades.
A economista afirma que a experiência profissional e a escrita acabaram se tornando partes de um mesmo processo.
"Escrever não é apenas registrar o mundo: também é uma forma de transformá-lo. O Caderno Rosa não é um livro sobre violência ou gênero, mas sobre a escrita e a experiência de registrar sonhos. O sonho é a matéria-prima da minha escrita", explica.
Acre teve 14 feminicídios em 2025
Renato Menezes/Arte g1 AC
Ano mais letal da década
Com 14 mulheres assassinadas em decorrência de seu gênero, 2025 ultrapassou o cenário vivenciado em 2021, quando 13 mulheres foram mortas pelo simples fato de serem mulheres.
🔍 O crime de feminicídio foi tipificado em lei federal em março de 2015. A partir disso, os casos começaram a ser contabilizados separadamente de outros tipos de homicídio. A lei considera feminicídio quando o assassinato envolve violência doméstica e familiar, e menosprezo ou discriminação à condição de mulher da vítima. As penas variam de 12 a 30 anos de prisão.
Os casos registrados no Acre neste ano expõem um padrão que se repete mês a mês: mulheres assassinadas por companheiros ou ex-companheiros, muitas vezes diante de filhos e em situações marcadas por histórico de violência.
"As histórias de vida das mulheres são diferentes, mas as de mortes são as mesmas", disse a professora Alice Bianchini, doutora em Direito Penal, durante palestra com profissionais da imprensa na sede do Ministério Público do Acre (MP-AC) sobre como cobrir casos de feminicídios e evitar a revitimização.
Confira nesta matéria os casos relembrados pelo g1 no final do ano passado.
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