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Corintiano fabricante de bandeiras explica como separa rivalidade dos negócios
ge — Futebol · 2026-09-22T14:00:01.000Z
Corintiano fabricante de bandeiras explica como separa rivalidade dos negócios
A torcida do São Paulo se orgulha de ter aberto no Morumbi o maior bandeirão do mundo, ocupando todo o anel superior do estádio. O que pouca gente sabe é que o adereço foi confeccionado por um líder de torcida organizada do Corinthians.
Essa não é uma exclusividade do São Paulo. Santos, Palmeiras e outros clubes e torcidas de todo o Brasil já recorreram aos serviços de Rogério Maldonado, mais conhecido como Bambu. Ele virou referência neste ramo e transformou a experiência de décadas de arquibancada em um negócio.
Bambu já foi presidente da Estopim da Fiel e é sócio da torcida organizada do Corinthians até hoje.
– Todos os meus clientes sabem disso. Eu atendi a Sangue Jovem, do Santos, a Savóia e a TUP, do Palmeiras, a Independente e a Dragões da Real, do São Paulo. Bragantino e Fluminense também são meus clientes. A única coisa é que eu respeito é o ambiente do jogo. Eu vou antes, organizo tudo, treino o pessoal. Está entregue? Então, vou embora, me retiro do recinto por respeito – contou, em entrevista ao ge.
Bandeirão do São Paulo cobre toda a arquibancada superior do Morumbi
Miguel Schincariol / São Paulo FC
Desde a juventude Bambu, se acostumou a fazer faixas e bandeiras, mas transformou o hobby em profissão a partir de 2019, como forma de driblar o desemprego. Aos poucos, o negócio foi crescendo e, em 2021, ele criou a Bandeiras Digitalizadas, empresa que hoje tem 13 funcionários, além de prestadores de serviços terceirizados.
Por que terceirizar?
Planejar, produzir e executar festas nos estádios estão entre as principais razões de uma torcida organizada existir. Então, por que delegar a uma empresa a produção de bandeiras e faixas?
Bambu explica que, com seu maquinário e experiência, consegue entregar um produto com qualidade impossível de se obter de forma artesanal.
– Muitas torcidas ainda privilegiam a bandeira pintada a mão. Só que essa bandeira pesa quatro vezes mais do que a digitalizada. A durabilidade também é muito inferior, porque a tinta começa a craquelar, esfarelar – afirma.
Fabricante de bandeiras explica por que torcidas passaram a terceirizar festa nos estádios
As bandeiras e faixas produzidas de forma industrial também são mais fáceis de transportar, pois podem ser dobradas em partes menores, o que facilita a vida dos torcedores em viagens.
Outro diferencial está no acabamento. As artes produzidas de forma digital possuem detalhes muito mais rebuscados do que as feitas à mão.
– O mosaico 3D que o Corinthians exibiu no jogo contra o Santos é um bom exemplo. Usei diversas fotos, capas de jornais... como você vai fazer isso pintando à mão? – argumenta Bambu.
Mosaico do Corinthians com provocações ao Santos
Preço e prazo
Segundo Bambu, ele costuma cobrar entre R$ 30 e R$ 34 pelo metro quadrado de seus produtos. Em peças maiores, como bandeirões, ele consegue oferecer um desconto maior.
Há adereços que chegam a custar mais de R$ 50 mil. Um mosaico 3D, por exemplo, fica na casa de R$ 30 mil.
Camisa gigante feita para recepcionar Neymar na volta ao Santos
Agilidade é um dos diferenciais do profissional. Ele afirma que consegue entregar uma peça de 1 mil m², como um mosaico 3D, em até dois dias. Já os grandes bandeirões, como o do São Paulo, levam até um mês.
– O tempo de produção faz toda a diferença. Antes, você levava 80, até 100 dias para fazer uma bandeira artesanal. Algumas vezes perdia até o timing. Por exemplo: estamos numa final e precisamos de um bandeirão temático. O "digital" entrega a tempo – explica André Azevedo, presidente da Dragões da Real, torcida do São Paulo.
Questionado sobre como fica a rivalidade ao adquirir um material de um torcedor rival, André Azevedo argumenta:
– No mundo das torcidas organizadas, as lideranças sabem separar o profissionalismo da rivalidade. E isso não é de hoje, vem de muitos anos. A gente compra camisas de um fornecedor santista ou aluga ônibus de uma empresa de um corintiano, isso é normal – comenta o líder da organizada são-paulina.
Apesar de fornecer para diversos clubes e torcidas da elite do futebol brasileiro, Bambu afirma que seu principal mercado hoje está no esporte amador:
– Atendo marcas, clubes, torcidas, federações, mas o meu grande cliente hoje é a várzea de São Paulo. É o que mantém a empresa de pé. Ali o cara se sente libertado, porque pode fazer batucada, tremular sua bandeira de mastro, pode tomar uma cervejinha, levar sinalizador, coisa que o futebol hoje em São Paulo não permite – diz Bambu.
Time de várzea posa com bandeira ao funda
Para as organizadas, as faixas e bandeiras não são meros adereços. Chamadas de patrimônios, elas recebem cuidados especiais para não serem roubadas por membros de outras torcidas.
Quando uma dessas peças fica velha e deixa de ser utilizada, por exemplo, há até mesmo um ritual de "cremação" delas.
– Não é só um pano. Eu falo muito disso com meus funcionários, sobre ter respeito pelas bandeiras e o quanto elas representam para as torcidas.
Embora tenha transformado seu hobby em profissão, Bambu não abandonou totalmente as raízes de torcida organizada.
– Uma vez um cara me perguntou como é que eu lidava com esse negócio de rivalidade. Eu falei: isso pra mim é um tecido. Eu vou pintar, vou mandar toda a minha equipe transformar em bandeira e vou entregar na sua mão. Retirou? Virou bandeira, aí tem que cuidar. Se você pendurar na rua, eu passar de carro e ver, eu paro e tomo de você. É meu instinto de torcida.