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O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, discursa na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, na sede da ONU, em Nova York, EUA, em 22 de setembro de 2026
G1 — Mundo · 2026-09-22T16:30:37.000Z
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, discursa na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, na sede da ONU, em Nova York, EUA, em 22 de setembro de 2026
Ao longo de duas décadas e dez pronunciamentos no plenário da Assembleia Geral das Nações Unidas (2003–2008 e 2023–2026), a política externa expressa no discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou por uma reorientação de prioridades.
Se no primeiro ciclo de mandatos o foco principal era o otimismo da inclusão social, na expansão do comércio Sul-Sul e na crítica ao protecionismo agrícola dos países desenvolvidos, os discursos recentes posicionam o Brasil na liderança do combate à emergência climática, na regulação das plataformas digitais e na defesa da soberania democrática contra o extremismo.
O que permaneceu
'O Brasil não cabe no quintal de ninguém', diz Lula em discurso na ONU
Combate à fome e à pobreza
Desde 2003, o tema é levado ao plenário da ONU por Lula, destacando a criação do programa Fome Zero no Brasil e propondo a criação de um Fundo Mundial ou Comitê de Combate à Fome.
Em 2005, na reunião de Alto Nível da Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente citou Josué de Castro ("a fome é expressão biológica de males sociológicos"), lembrando o primeiro diretor-geral da FAO, figura evocada novamente em 2008.
Em 2024, alertou que o número de pessoas passando fome no mundo aumentou em mais de 152 milhões desde 2019 e lançou a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza no âmbito do G20.
Em 2025, celebrou a confirmação oficial da FAO de que o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome.
Em 2026, lembrou ser "um operário eleito três vezes presidente e que retirou o Brasil do Mapa da Fome", defendendo a política de "colocar o pobre no orçamento" e o fortalecimento de redes de proteção social.
Reforma da governança global
Desde 2003, o presidente sustenta que o Conselho de Segurança precisa refletir a atual configuração geopolítica do planeta, com a inclusão de países em desenvolvimento, especialmente da América Latina e da África, entre os membros permanentes.
Nos primeiros pronunciamentos, o foco recaía sobre a falta de representatividade do órgão. Em 2003, Lula afirmou que a composição do Conselho, sobretudo entre os membros permanentes, não poderia permanecer a mesma existente desde a criação da ONU. Em 2007, voltou a defender uma participação maior dos países em desenvolvimento nos principais espaços de decisão internacional.
Duas décadas depois, a crítica foi ampliada. Nos discursos mais recentes, o presidente passou a associar a exclusão da América Latina e da África a heranças do colonialismo e a cobrar uma reforma estrutural mais profunda da governança global. Em 2024, classificou a ausência dessas regiões entre os integrantes permanentes como um reflexo inaceitável de práticas de dominação do passado.
Já em 2025 e 2026, acrescentou críticas à incapacidade de resposta da instituição diante das crises internacionais, afirmando que o mundo se tornou refém da paralisia de um Conselho de Segurança que não consegue cumprir plenamente seu papel.
Multilateralismo e solução pacífica de conflitos
A rejeição ao unilateralismo e a defesa do Direito Internacional atravessam todas as intervenções. O Brasil manteve a defesa da autodeterminação e da criação de um Estado Palestino soberano, com menções à causa em 2004 e de 2023 a 2026.
Nos discursos de 2024 a 2026, Lula repudiou os atos terroristas do Hamas, mas classificou as ações israelenses em Gaza como "punição coletiva", "vingança" e "genocídio" praticado contra mulheres e crianças.
Os conflitos são uma constante no discurso, mas mudaram ao longo dos anos: no início do século, a guerra do Iraque foi mencionada no primeiro discurso; de 2023 a 2026, menções consecutivas à guerra entre Ucrânia e Rússia.
O que mudou
Nos anos 2000, o debate concentrava-se no Protocolo de Quioto, na redução inicial do desmatamento e na exaltação dos biocombustíveis (etanol e biodiesel) como matriz limpa e motor de desenvolvimento;
Já no seu retorno à Assembleia, durante o seu terceiro mandato, a questão evoluiu para o enfrentamento de uma emergência climática planetária. O país assumiu a meta de zerar o desmatamento até 2030, apresentou novas metas de redução de emissões, convocou a COP30 em Belém ("COP da Verdade") em 2025, lançou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre e adotou um combate ao negacionismo climático.
Nos primeiros discursos de Lula na ONU, o cenário permitia a articulação otimista de uma nova geografia econômica no sul global (IBAS, BRICs, UNASUL, G-20 comercial);
Anos 2023 a 2026: O ambiente global passou a ser dominado por conflitos simultâneos, pela disparada dos gastos militares globais (superando 2,4 trilhões de dólares) e pelo recrudescimento de questões hegemônicas, levando à afirmação categórica em 2026 de que "o Brasil não cabe no quintal de ninguém".
Mudanças na ONU
Anos 2000: Prevalecia um tom de aposta na autoridade da organização para evitar guerras e promover o desenvolvimento.
Anos 2023–2026: A crítica tornou-se incisiva. Em 2026, Lula declarou ser esse "o momento mais crítico das Nações Unidas", apontando que a credibilidade da instituição "nunca esteve tão baixa" perante a incapacidade de conter conflagrações e proteger populações vulneráveis.
Lula fala em momento mais crítico da ONU e sentimento de 'indignação'
O que surgiu
Governança digital, regulação das Big Techs e proteção no ambiente virtual
Denúncia do "neoliberalismo digital" promovido por "tecno-oligarcas", alerta contra a concentração no campo da Inteligência Artificial e defesa da regulação estatal para impedir que a internet seja uma "terra sem lei".
Em 2026, a pauta incorporou o combate à indústria das bets, a aprovação de legislação para proteger crianças, adolescentes e mulheres no ambiente digital, o rechaço a pressões multinacionais para privatizar o PIX e a citação da advertência do Papa Leão 14 sobre a responsabilidade ética do avanço tecnológico.
Defesa explícita do Estado Democrático de Direito
Reação direta contra forças extremistas, agressões ao Judiciário e tentativas de subversão democrática no Brasil.
Em 2025, Lula comentou o ineditismo da condenação de um ex-chefe de Estado por atentar contra o Estado Democrático de Direito, uma menção indireta ao ex-presidente Jair Bolsonaro;
Em 2026, a denúncia contra o uso de redes de desinformação com ingerência externa no processo eleitoral e a afirmação de que a democracia brasileira é soberana e inegociável.
Combate ao crime organizado e pauta trabalhista
Proposta de cooperação internacional contra a lavagem de dinheiro, criação do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia e promulgação da Lei Antifacção.
Defesa de novas garantias ao trabalhador, incluindo o apoio expresso ao fim da escala 6x1 e combate à sobrecarga doméstica feminina.