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Dia do Sorvete: Filho transforma sorveteria batizada com o apelido do pai em uma das maiores redes do Brasil

Filho transforma sorveteria com o apelido do pai em uma das maiores redes do Brasil

G1 — Brasil · 2026-09-23T09:00:01.000Z

Filho transforma sorveteria com o apelido do pai em uma das maiores redes do Brasil

Antes de ter mais de mil lojas, milhares de clientes e uma frota de caminhões, a Chiquinho Sorvetes funcionava em um espaço de apenas 16 metros quadrados. No Dia do Sorvete, celebrado nesta quarta-feira (23), o g1 conta a história da pequena loja criada em Frutal, no Triângulo Mineiro, que anos mais tarde se tornou uma rede conhecida em todo o Brasil.

Em 1980, aos 18 anos, Isaías Bernardes de Oliveira começou uma história que levaria o nome da família para praticamente todo o país.

Na época, Isaías percorria as ruas da cidade de bicicleta, fazendo entregas de frutas, leite e pães. O pai, Francisco, era fazendeiro e acompanhava a rotina do filho. Um dia, os dois decidiram que era hora de abrir um negócio.

A primeira ideia não tinha sorvete. O plano era abrir uma frutaria, acompanhada de uma casa de sucos e vitaminas. Mas Isaías achou que faltava alguma coisa e sugeriu acrescentar uma sorveteria.

Foi essa sugestão que mudou a história da família.

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No meio está Francisco, fundador da Chiquinho

O nome também veio de casa. Francisco, pai de Isaías, era conhecido pelo apelido de Chiquinho. A pequena sorveteria ganhou o nome dele, que décadas depois estaria estampado em mais de mil fachadas.

No início, porém, não havia nada de grandioso. Isaías abria a loja, atendia os clientes, fechava o estabelecimento e ainda fabricava os sorvetes.

A receita foi apresentada por uma pessoa que já trabalhava no ramo. Isaías fez treinamentos, aperfeiçoou o produto e começou a produzir os próprios sorvetes.

Do outro lado do balcão, os clientes trataram de espalhar a novidade pela cidade.

Um cliente experimentava, gostava e contava para alguém. Daí, outro aparecia para provar.

Em uma época em que a propaganda dependia mais da conversa entre vizinhos do que de uma tela de celular, o sorvete ganhou fama em Frutal.

A loja cresceu e, com ela, a família também precisou crescer.

Para o filho de Isaías e vice-presidente da empresa, Pablo Bernardes, o principal motivo para o sucesso nos primeiros anos foi a qualidade do produto.

“A receita foi o grande diferencial. A receita, a qualidade. Meu pai sempre prezou muito na qualidade.”

O sorvete sai de Frutal

Sorveteria Chiquinho em Frutal

Durante um bom tempo, a Chiquinho cresceu sem perceber que estava crescendo.

Uma nova loja surgia porque um familiar queria abrir um negócio. Outra aparecia em uma cidade próxima. Assim, a marca foi deixando Frutal.

Vieram Orlândia, São Joaquim da Barra, Sertãozinho e Barretos, no interior de São Paulo. Quase todas eram lideradas por familiares.

Havia também uma razão prática para a expansão.

Isaías ainda produzia os sorvetes. Por isso, quanto mais perto a loja estivesse da fábrica, mais fácil era manter o abastecimento.

Ainda não existia um grande projeto de franquias, com planos para levar a marca a diferentes estados do país.

“Foi crescendo naturalmente, sem pensar no processo de franquias. Era mais uma rede para ajudar os familiares a ter um crescimento também”, explicou Pablo.

Isaias quando começou a sorveteria

O principal produto do cardápio era, naquele momento, o sorvete de massa. Até que chegou o sorvete soft.

🔍 Sorvete soft é aquele sorvete mais cremoso e macio, servido diretamente de uma máquina, geralmente em formato de espiral. Ele tem textura mais leve e é produzido e congelado na própria máquina no momento da venda.

Por volta dos anos 2000, as máquinas começaram a aparecer nas lojas, e o produto conquistou espaço. A mudança parece simples, mas ajudou a acelerar uma transformação que já estava em curso.

Em 2010, a Chiquinho tinha cerca de 80 unidades administradas pela própria família. A pequena sorveteria de Frutal já não era tão pequena.

Foi então que a família começou a preparar o negócio para uma nova fase: o sistema de franquias.

Antes das mil lojas, um alvo

Para crescer, a Chiquinho Sorvetes precisava ser reconhecida.

Em meados dos anos 2000, a empresa contratou uma agência de publicidade e mudou a identidade visual.

Surgiu o alvo vermelho e branco.

O desenho havia sido criado por um sobrinho da família e depois trabalhado pela agência. Segundo Rizia Bernardes, esposa de Pablo e gerente de marketing da empresa, o objetivo era fazer com que a marca fosse identificada rapidamente, inclusive por quem ainda não sabia ler.

“A ideia era que a marca tivesse reconhecimento a todos os públicos, inclusive o infantil, porque o alvo acaba sendo chamativo e um ícone de fácil reconhecimento”, explicou Rizia.

O alvo acompanhou a expansão, mas trouxe um problema que só aparece quando uma marca começa a ocupar muitas fachadas diferentes.

Em algumas lojas menores, o nome “Chiquinho”, dentro do símbolo, ficava pequeno demais.

O cliente conseguia enxergar o alvo, mas nem sempre conseguia ler o que estava dentro dele.

“Quando o alvo ficava pequeno, Chiquinho não dava leitura”, disse Rizia.

A solução foi simples: o alvo ficou, mas o nome saiu de dentro dele.

Era uma mudança pequena. A marca, porém, estava se preparando para crescer.

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O segredo que ficou

Algumas coisas mudaram bastante na empresa desde 1980: o tamanho das lojas, as fachadas, as máquinas, a quantidade de funcionários e a distância entre uma unidade e outra.

Outras, porém, a família prefere manter como sempre foram. A receita é uma delas.

A fórmula do sorvete de massa foi desenvolvida por Isaías a partir da receita que ele havia aprendido no início da sorveteria. Quando o soft entrou no cardápio, ele também criou a receita usada pelas máquinas.

Os ingredientes continuam sendo segredo.

“Não posso te contar os ingredientes”, brincou Rizia.

A fórmula, porém, não é tratada apenas como uma lista de ingredientes. Para a família, o modo como o sorvete é preparado também faz parte do que tornou o produto reconhecido ao longo dos anos.

É uma espécie de elo entre duas imagens que poderiam parecer incompatíveis: a pequena loja de Frutal e a rede espalhada pelo Brasil.

Quem cresceu junto com a sorveteria

Pablo não precisou conhecer a história da Chiquinho pelos livros da empresa. Ele estava lá.

Filho de Isaías, Pablo nasceu em Guaíra, no interior de São Paulo, e cresceu acompanhando os pais nas sorveterias da família.

“Eu sempre estava na sorveteria com meus pais”, contou.

Quando criança, as tarefas de Pablo eram simples: limpar mesas, lavar taças e ficar por perto.

O tempo passou, e a criança que circulava entre mesas e balcões acabou assumindo uma posição na empresa.

Atualmente, Pablo participa da administração ao lado dos pais e da irmã, Bruna Bernardes.

Rizia também entrou para a história. Formada em publicidade, começou trabalhando com mídias digitais e depois assumiu a gerência de marketing da empresa.

A equipe cresceu e chegou a cerca de 25 pessoas.

A infância, que faz parte da memória de Pablo, também passou a ser uma estratégia da marca.

A Chiquinho criou personagens, mantém um canal de animações no YouTube e distribui almanaques e gibis gratuitamente nas lojas.

A intenção é fazer com que a relação com o consumidor comece cedo.

Talvez com uma criança segurando um gibi enquanto espera o sorvete.

Talvez com um personagem que ela reconheça anos depois.

Quando a conta passou de mil

A partir das franquias, a Chiquinho deixou de crescer no ritmo da família e passou a crescer na velocidade de uma rede nacional.

Em 2020, eram cerca de 500 unidades. Cinco anos depois, já eram mais de mil.

Em 2024, a empresa chegou a todos os estados brasileiros. Em 2025, alcançou 1.007 lojas, vendeu mais de 71 milhões de sorvetes e atendeu cerca de 38 milhões de clientes, segundo dados fornecidos pela empresa.

Foram 140 novas unidades abertas somente em 2025.

Para 2026, a companhia prevê inaugurar até 120 novas lojas.

A matemática do crescimento trouxe uma pergunta que não existia em 1980: como fazer um sorvete produzido para uma pequena cidade do interior chegar, com o mesmo padrão, a milhares de lojas?

A resposta passou por caminhões, centros de distribuição e uma estrutura que ficou tão grande que ganhou nome de cidade.

A “Cidade Chiquinho”

Projeto da 'Cidade Chiquinho'

Em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, existe hoje um lugar que ajuda a entender o tamanho que aquela pequena sorveteria alcançou.

É a chamada “Cidade Chiquinho”.

O complexo tem 22 mil metros quadrados e reúne áreas administrativas, de logística e espaços destinados aos colaboradores.

A primeira fase recebeu investimento de cerca de R$ 80 milhões. O projeto completo prevê investimento de R$ 130 milhões e poderá chegar a 31 mil metros quadrados.

O centro de distribuição foi planejado para atender até 2,5 mil unidades.

Ali já funcionam o centro de distribuição, escritórios, oficina, lava-jato, portaria e refeitório corporativo. Uma segunda fase prevê a ampliação da estrutura administrativa.

A empresa também planeja criar espaços de convivência e áreas para crianças.

Há algo curioso na dimensão do lugar.

Para quem olha de fora, é uma estrutura gigantesca. Para Pablo, talvez seja justamente a lembrança de onde tudo começou que torne esse tamanho mais difícil de acreditar.

“Para mim, que nasci na sorveteria, acompanhei todo esse crescimento pelos meus pais. A gente não imaginava que ia chegar onde chegou”.

Os “Chique Lovers”

Existe ainda um grupo que acompanha a Chiquinho Sorvetes de uma maneira diferente.

São os “Chique Lovers”, nome dado pela própria marca aos consumidores mais fiéis.

Eles acompanham lançamentos, esperam pelas novas canecas e mantêm uma relação mais próxima com a rede.

É uma história curiosamente parecida com a da própria Chiquinho.

O cliente entra em uma loja, compra um sorvete, volta outro dia e, quando percebe, já está esperando pelo próximo lançamento.

A empresa começou assim também.

Uma pequena loja, uma receita, um filho de 18 anos e um pai que decidiu apostar em uma ideia.

“A gente vê o amor dos clientes pela marca, e isso é o que faz a Chiquinho ser o que é. Vejo isso também nos colaboradores, que gostam muito de trabalhar aqui, e nos franqueados, que estão na ponta e têm essa mesma fidelidade. É isso que faz a marca crescer. Se não fosse esse carinho do público, esse cliente que defende a marca, conhece e gosta dela, eu acho que a Chiquinho não teria chegado onde chegou”, finalizou Pablo.

Da esquerda para direita: Pablo Bernardes, Rízia Bernardes e o seu filho João Guilherme. Isaias Bernardes e sua esposa Roseli.

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