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Ocos de umburana funcionam como refúgio para até 98 anfíbios durante a seca na Caatinga, revela estudo

Umburana (Amburana cearensis)

G1 — Brasil · 2026-09-23T13:23:49.000Z

Umburana (Amburana cearensis)

Um estudo publicado na revista científica Ecosphere, da Ecological Society of America, revelou uma função até então pouco conhecida das umburanas na Caatinga: seus ocos funcionam como verdadeiros refúgios para anfíbios durante a estação seca. Os pesquisadores encontraram 475 indivíduos de seis espécies diferentes reunidos dentro das cavidades das árvores. Em um único oco, chegaram a ser registrados 98 animais.

A descoberta ajuda a responder uma pergunta que intrigava os cientistas: para onde vão os anfíbios quando as chuvas somem e a Caatinga atinge o auge da seca. Já era sabido que parte deles se enterra no solo para sobreviver ao período mais árido, mas o novo estudo mostra que os ocos das umburanas também têm papel decisivo nessa sobrevivência.

De acordo com a pesquisa, o interior dessas cavidades apresenta condições bem diferentes das encontradas do lado de fora: a temperatura interna é, em média, 5,43°C mais baixa, enquanto a umidade chega a ser 15% maior.

Um achado que veio de uma planilha

A descoberta começou de forma quase acidental, durante trabalhos de consultoria em atividades de resgate de fauna que antecediam a supressão de vegetação para a instalação de empreendimentos na região.

"A percepção inicial veio quando recebi o material dos biólogos de campo, que ficam no resgate de fauna. Eles me mandavam os dados na planilha e o que chamou atenção foi a quantidade de indivíduos por oco. Percebi que tinha muitos indivíduos para um registro só, foi quando entrei em contato com quem estava em campo perguntando de onde vinha aquilo", conta o biólogo Jaqueiuto Silva, um dos autores do estudo.

"A partir do terceiro registro foi que chamou mais atenção ainda, por conta dessa relação sempre aparecer em árvores de umburana."

A perereca-de-capacete (Corythomantis greeningi) foi uma das espécies encontradas nos ocos

O fenômeno se repetiu em mais de um empreendimento, e chamou atenção também pela diversidade de espécies encontradas dividindo o mesmo espaço.

"As espécies são muito diferentes na biologia. Tinha perereca, que é de um grupo mais arborícola, e tinha sapo, que não são conhecidos por escalar, é isso que chama atenção", explica o pesquisador.

Mais intrigante ainda: entre as espécies reunidas nos ocos, há uma que secreta pela pele uma substância tóxica capaz de matar outras espécies quando entram em contato. "A hipótese que a gente tem é que, quando estão nessa situação que precisam se agregar, elas relaxam, deixam de ser territorialistas e passam a ser mais sensíveis à cooperação", afirma Silva.

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Estrutura-chave, mas cada vez mais rara

Segundo o pesquisador, a particularidade da umburana está diretamente ligada à idade da árvore: quanto mais velha a planta, maior o oco que ela forma naturalmente em seu tronco. "No trabalho, a gente chama isso de estrutura-chave", diz.

Cumaru (Commiphora leptophloeos)

Essa mesma característica, porém, coloca a espécie em rota de colisão com outro interesse: plantas adultas, justamente as que formam os maiores ocos, são também as mais procuradas para extração de madeira. "Acaba que tem esse conflito entre a importância delas para a natureza, disponibilizando essas estruturas-chave, que são raras, e a procura pela madeira. Manter essas árvores com idade suficiente para formar ocos é uma das chamadas importantes do trabalho", pontua o biólogo.

A pesquisa levou cerca de três anos entre os primeiros registros em campo e a publicação do artigo, incluindo o tempo necessário para o encerramento da obra e a liberação para uso dos dados coletados.

Recomendação para empreendimentos na Caatinga

Para o pesquisador, o principal alerta do estudo é sobre a época do ano em que ocorrem as obras de supressão de vegetação.

"Se o manejo é feito na seca, esses indivíduos vão estar estivando, adormecidos dentro dessas árvores, que às vezes são cortadas inteiras, e esses animais vão junto. Depois aquela vegetação é queimada, principalmente na Caatinga, que é o perfil da região de onde vêm os dados desse estudo, e acaba que esses animais vão sendo queimados junto", alerta.

A recomendação da equipe é que, sempre que possível, novos empreendimentos evitem a derrubada de mata nativa. "Se puder evitar a derrubada de mata nativa, que é uma das grandes questões que a gente aponta nesse estudo, priorizar áreas que já tiveram a mata suprimida, no lugar de derrubar árvores que tenham mata primária", conclui Silva.

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