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A era do home office acabou? O que mostram os novos dados do IBGE

Por que tantos profissionais preferem se demitir a deixar o home office?

G1 — Brasil · 2026-09-23T13:00:00.000Z

Por que tantos profissionais preferem se demitir a deixar o home office?

Desde a pandemia de Covid-19, milhões de brasileiros voltaram a trabalhar dos escritórios, mas até agora o mercado de trabalho não retornou ao mesmo cenário existente antes de 2020.

Dados da PNAD Contínua – Características Adicionais do Mercado de Trabalho 2025, divulgados pelo IBGE nesta quarta-feira (23), mostram que o trabalho realizado em casa perdeu espaço desde o pico registrado após a pandemia, mas permanece maior do que era antes da crise sanitária.

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Em 2022, 8,4% dos trabalhadores exerciam suas atividades no próprio domicílio. Em 2025, esse percentual recuou para 7,9%.

No mesmo período, a participação daqueles que trabalham em estabelecimentos físicos cresceu de 57,9% para 60,2%.

Em 2019, por exemplo, apenas 5,8% dos trabalhadores atuavam em casa. Em 2012, o percentual era de 3,6%. Isso mostra que a transformação dos modelos de trabalho começou antes mesmo da Covid-19.

Como o IBGE não realizou esse módulo da pesquisa em 2020 e 2021, não é possível medir com precisão o pico dos efeitos das medidas de isolamento. Ainda assim, o salto observado em 2022 mostra a dimensão da mudança.

Muitas empresas descobriram que parte de suas atividades podia ser realizada remotamente. Ao mesmo tempo, milhões de trabalhadores reorganizaram a própria vida levando em conta a possibilidade de trabalhar longe dos escritórios.

Mas esse cenário voltou a mudar nos anos seguintes. Em 2025, 60,2% dos trabalhadores exerciam suas atividades em estabelecimentos do próprio empreendimento. Outros trabalhavam em diferentes locais:

13,8% em locais definidos pelo empregador ou pelo cliente;

8,4% em fazendas, sítios, granjas ou chácaras;

7,9% dentro de casa;

5% em veículos automotores;

2,1% em vias ou áreas públicas.

Segundo William Araujo Kratochwill, pesquisador do IBGE, a classificação considera o local onde o trabalhador atua com mais frequência.

📎Isso significa que uma pessoa que trabalha quatro dias por semana em casa e apenas um no escritório pode aparecer na categoria dos que trabalham no domicílio. O inverso também ocorre: trabalhadores híbridos que passam a maior parte da semana na empresa entram no grupo dos que trabalham em estabelecimentos físicos.

Essa observação ajuda a explicar por que o trabalho realizado em casa continua relativamente elevado mesmo após a volta de parte dos profissionais aos escritórios.

Retorno ao presencial

Movimento de passageiros na estação Guaianases, na zona leste de São Paulo nesta quarta-feira (5), durante greve na CPTM.

FÁBIO VIEIRA/ESTADÃO CONTEÚDO/ESTADÃO CONTEÚDO

Os dados do IBGE acompanham um movimento que já vinha sendo identificado por outras pesquisas sobre o mercado de trabalho.

Um estudo da Robert Half mostrou que profissionais de construção civil e engenharia trabalham, em média, 4,8 dias por semana presencialmente. No setor de serviços, a média é de 3,3 dias.

Outra pesquisa, mencionada em uma reportagem publicada pelo g1 em maio e realizada pela WeWork em parceria com a Offerwise, mostra que 63% dos trabalhadores atuam presencialmente. Entre eles, 79% afirmam que esse modelo é uma determinação da empresa, e não uma escolha pessoal.

Nos últimos anos, as vagas remotas também perderam espaço, enquanto as oportunidades presenciais e híbridas avançaram e passaram a representar a maior parte das ofertas disponíveis no mercado, segundo a Gupy.

Vagas anunciadas com trabalho 100% remoto

Por que as empresas estão voltando ao presencial?

Outro levantamento da Robert Half sugere que muitas organizações associam a presença física a ganhos de integração, comunicação e fortalecimento da cultura corporativa.

Entre os principais motivos apontados pelos gestores estão:

68% citam o fortalecimento da cultura organizacional;

63% mencionam melhora da comunicação e da colaboração entre equipes;

59% apontam maior integração e supervisão;

50% relacionam o trabalho presencial ao aumento da produtividade.

Mas a volta de parte dos trabalhadores aos escritórios recolocou no centro do debate questões que haviam perdido relevância durante a pandemia, como tempo de deslocamento, gastos com transporte e distância entre casa e trabalho.

A pesquisa da WeWork mostra que 65% dos trabalhadores consideram o trajeto até o escritório a principal desvantagem do trabalho presencial. Mais da metade afirma que passou a gastar mais com transporte e deslocamento.

A gerente de negócios da WeWork Brasil, Beatriz Kawakami, define esse fenômeno como um “custo silencioso”. Ele não aparece diretamente na renda do trabalhador, mas reduz o tempo disponível para a vida pessoal e amplia despesas que haviam diminuído durante o período de maior adesão ao trabalho remoto.

Os impactos, porém, vão além da rotina diária. Durante a pandemia, a possibilidade de trabalhar à distância levou muitas famílias a trocar apartamentos por casas maiores, buscar cidades mais tranquilas, reduzir o custo de vida ou se mudar para mais perto de familiares e áreas verdes.

Essa lógica dependia da manutenção do trabalho remoto como modelo predominante. À medida que mais empresas passaram a exigir a presença dos funcionários alguns dias por semana, a localização voltou a ganhar peso nas decisões de moradia.

O mercado imobiliário sentiu o efeito

Home office trabalho remoto

Um levantamento do Colégio Notarial do Brasil (CNB/SP), divulgado pelo g1 na semana passada, mostrou que a cidade de São Paulo registrou recorde histórico de compra e venda de imóveis em 2025. Foram 90.402 escrituras registradas nos cartórios de notas, volume 49,6% superior ao de 2020.

Ao mesmo tempo, municípios do interior que haviam se beneficiado da expansão do home office passaram a registrar desaceleração nas transações imobiliárias.

Para o vice-presidente do CNB/SP, Andrey Guimarães Duarte, os números indicam que o mercado entrou em uma nova etapa.

“Se fosse simplesmente uma volta ao padrão pré-pandemia, esperaríamos que a capital recuperasse o que perdeu e os destinos do home office retornassem aos níveis anteriores. Não foi exatamente isso que aconteceu”, afirmou.

Apesar dessa mudança, a região Sudeste continua liderando a participação de trabalhadores que atuam dentro de casa, com 8,2%.

Segundo Kratochwill, o resultado pode estar relacionado à forte concentração de empresas e de atividades compatíveis com o trabalho remoto em estados como São Paulo e Rio de Janeiro.

"São Paulo e Rio de Janeiro têm muitas empresas em que o trabalho remoto pode ter uma influência importante devido ao volume de trabalhadores", afirmou.

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