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'Ficaram 5 dias sem água': ativista LGBT+ denuncia tortura e prisões arbitrárias na Turquia

Manifestantes entram em confronto com tropa da polícia durante um protesto contra a detenção de 16 pessoas que aguardam julgamento após uma série de operações do governo contra associações LGBTQ+, em Izmir, Turquia, em 14 de setembro de 2026.

G1 — Mundo · 2026-09-24T06:00:00.000Z

Manifestantes entram em confronto com tropa da polícia durante um protesto contra a detenção de 16 pessoas que aguardam julgamento após uma série de operações do governo contra associações LGBTQ+, em Izmir, Turquia, em 14 de setembro de 2026.

Uma ampla operação do governo da Turquia contra a comunidade LGBT+ resultou em prisões e uma leva de denúncias de tortura e graves violações dos direitos humanos em presídios turcos. A escalada nas tensões começou em 12 de setembro.

Em entrevista ao g1, o jornalista e ativista Yildiz Tar, da ONG Kaos GL — uma das maiores da Turquia —, denunciou a violência cometida contra os detidos: "Meus amigos e colegas foram maltratados e torturados".

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Das quase 200 pessoas detidas pelo governo desde o início da operação, a ONG estima que pelo menos 82 foram levadas a presídios.

"Eles estão em condições muito difíceis nas prisões", afirmou Yildiz. "Enfrentaram tortura, foram colocados na solitária e ficaram sem água por cinco dias", relatou.

Apesar dos abusos, Yildiz reforçou a determinação do grupo: "Como movimento, nós vamos continuar. A comunidade precisa de nós. Nós, pessoas LGBT, precisamos viver nossas vidas com dignidade e respeito".

Yildiz Tar, jornalista e integrante da ONG Kaos GL

Bloqueio digital, invasões e prisões: a operação 'Minha Família está Segura'

A ofensiva do governo turco começou no dia 12 de setembro com bloqueios de acesso e censura a redes sociais e portais de notícias das organizações LGBT+. Na sequência, a polícia invadiu sedes de entidades civis e residências de membros das associações.

De acordo com a ONG Kaos GL, a ação atingiu ao menos sete organizações LGBT+ e duas entidades de apoio a pessoas que vivem com HIV. A investida policial também mirou o círculo familiar dos ativistas e membros da comunidade LGBT+ turca.

Diante da onda de detenções, manifestantes saíram às ruas em Istambul, Ancara e Izmir no dia 15. A polícia reprimiu os atos com violência. Segundo a agência de notícias Reuters, ao menos 126 pessoas foram detidas durante os protestos.

De acordo com a ONG Kaos GL, que tem recebido relatos de alguns dos presos, os ativistas foram submetidos a revistas íntimas vexatórias com ofensas e ameaças. Também teriam enfrentado agressões físicas, corte forçado de cabelo e negação de remédios de uso contínuo, roupas limpas e água potável.

Carta enviada pela ativista Janset Kalan, uma das lideranças da ONG Kaos GL, atualmente presa em uma cadeia turca. Ela relata que está privada de roupas limpas, banho e produtos de higiene.

Justificativas do governo

A agência de notícias Reuters, que teve acesso a documentos oficiais, reporta que o governo turco justifica as ações alegando proteger a "instituição da família", os "interesses das crianças" e a "moral pública". Os ativistas são acusados de "obscenidade", "prostituição" e "violação da Lei de Associações".

Yildiz Tar explica que não há lei que criminalize diretamente pessoas LGBT+ na Turquia. Em entrevista ao g1, o ativista pontuou que o governo também acusa as entidades de serem financiadas por entidades do "Ocidente", como a União Europeia e a ONU.

O Comissário para os Direitos Humanos do Conselho da Europa, Michael O'Flaherty⁠, expressou preocupação com as prisões, incursões e restrições on-line direcionadas à sociedade civil LGBTQ+ e aos defensores dos direitos humanos.

O comissário afirmou que as referências aos "valores familiares" ou à "proteção das crianças" não poderiam, por si só, justificar as restrições dos direitos humanos e pediu a libertação de qualquer pessoa detida por defender os direitos humanos ou pelo trabalho da sociedade civil.

Turquia amplia repressão à comunidade LGBT+

Escalada de tensões, veto a marchas e 'cortina de fumaça'

A repressão atual, segundo a ONG Kaos GL, reflete um processo contínuo de deterioração das liberdades individuais no país. No movimento LGBT+ desde 2009, Yildiz Tar destaca que o ambiente político se tornou drasticamente mais hostil.

"O cenário é pior agora", afirmou Yildiz.

O jornalista recordou que, no início de sua militância, era possível organizar passeatas sem intervenção policial. Segundo ele, a virada repressiva ocorreu em 2015, quando a polícia atacou a Parada do Orgulho de Istambul.

Segundo a Reuters, o governo do presidente Tayyip Erdogan endureceu os ataques contra minorias sexuais. A realização da Parada do Orgulho de Istambul foi banida este ano, assim como outros eventos culturais pelo país.

Para Yildiz, a violência estatal não reflete a postura do povo turco. "Não é sobre a sociedade, é sobre as políticas do governo", declarou. "Eles estão demonizando a comunidade", desabafa.

O ativista avalia que o ataque à comunidade LGBT+ funciona como um recurso político do governo Erdogan. Segundo ele, o governo utiliza a pauta moralista como uma "cortina de fumaça" para esconder o aumento dos índices de pobreza na Turquia.

"Estou frustrado, mas não estou sem esperança", concluiu o ativista.

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