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Presidente chinês é recebido por Trump nos EUA antes de reunião oficial nesta quinta
G1 — Brasil · 2026-09-24T12:44:48.000Z
Presidente chinês é recebido por Trump nos EUA antes de reunião oficial nesta quinta
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da China, Xi Jinping, se reúnem nesta quinta-feira (24), na Casa Branca, em Washington, para discutir os próximos passos da relação entre as duas maiores economias do mundo.
Qualquer mudança na relação entre Washington e Pequim pode reverberar no comércio global, afetando preços, cadeias de produção e empresas de diferentes países.
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Os dois países chegam ao encontro depois de concordarem em estender até 10 de janeiro de 2027 a trégua comercial que venceria em novembro. A pausa dá mais tempo para que Washington e Pequim tentem avançar em acordos sobre pontos que continuam em aberto.
Para o Brasil, dois setores concentram parte importante dos possíveis efeitos: o agronegócio, principalmente a soja, e a mineração, diante da busca internacional por fornecedores de terras raras fora da China.
Trump e Xi nos Estados Unidos
Tarifas: uma trégua para ganhar tempo
A guerra comercial entre Estados Unidos e China levou as tarifas dos dois lados para a casa dos três dígitos, antes das reduções negociadas posteriormente.
A medida faz parte das tentativas de Washington e Pequim de reduzir algumas das barreiras comerciais sem encerrar a disputa mais ampla entre os dois países.
A negociação também envolve questões como taxas cobradas de navios chineses em portos americanos e outras barreiras que afetam o transporte de mercadorias.
Para outros países, inclusive o Brasil, mudanças nas rotas de comércio entre as duas maiores economias podem alterar a concorrência por mercados e fornecedores. Isso é especialmente relevante para produtos agrícolas e minerais.
Terras raras: o trunfo da China
As terras raras são um grupo de minerais usados em produtos como motores elétricos, eletrônicos, equipamentos de defesa, turbinas e componentes de alta tecnologia.
A China domina boa parte dessa cadeia e tem usado controles de exportação como instrumento de pressão nas negociações com os Estados Unidos. O país responde por cerca de 70% da mineração mundial de terras raras, 85% do refino e 90% da produção de ligas e ímãs.
O problema para os americanos não está apenas em encontrar minério. A concentração chinesa também ocorre nas etapas de processamento e fabricação de produtos derivados, o que torna mais difícil substituir rapidamente os fornecedores.
Por isso, Washington busca garantir um fluxo mais previsível de minerais críticos enquanto tenta desenvolver alternativas à cadeia chinesa.
É nesse ponto que o Brasil entra na equação.
O país possui grandes recursos de terras raras, mas ainda tem uma participação pequena na produção e, principalmente, no processamento desses minerais. A tentativa de Estados Unidos e outros países de diversificar fornecedores pode aumentar o interesse por projetos brasileiros e abrir espaço para investimentos no setor.
O professor de Relações Internacionais da ESPM Roberto Uebel afirma que o Brasil vem buscando justamente diversificar suas parcerias nessa área, incluindo União Europeia, Austrália e Canadá.
“O Brasil tem buscado ao longo do ano diversificar parcerias no setor de terras raras, sobretudo com a União Europeia, Austrália e Canadá, justamente para diminuir a dependência e o risco dela com os EUA e a China.”
Assim, qualquer mudança na relação entre Washington e Pequim pode influenciar não apenas o comércio de terras raras, mas também a disputa internacional por novos fornecedores.
Agro: a soja está no centro da disputa
A agricultura é outro ponto em que a negociação interessa diretamente ao Brasil.
A China é o maior comprador mundial de soja e compra grandes volumes tanto dos Estados Unidos quanto do Brasil. Durante a guerra comercial, tarifas chinesas reduziram a competitividade da soja americana e favoreceram os embarques brasileiros.
Agora, Pequim voltou a ampliar as compras dos Estados Unidos.
As compras de soja americana já começaram a aumentar. Até 10 de setembro, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) havia confirmado a venda de quase 10 milhões de toneladas da safra atual para a China.
O movimento não significa que a China deixará de comprar soja brasileira. O mercado chinês é grande o suficiente para absorver volumes dos dois países, e fatores como preço, frete, disponibilidade e período de colheita influenciam a escolha do fornecedor.
Mas uma presença maior da soja americana aumenta a concorrência pelo mercado chinês e pode influenciar a formação dos preços internacionais, inclusive das cotações negociadas em Chicago.
Para o produtor brasileiro, portanto, uma eventual ampliação dos compromissos entre Washington e Pequim pode mudar as condições de disputa por um dos principais mercados do agronegócio nacional.
IA e chips: a disputa pela tecnologia
A tecnologia também está no centro da relação econômica entre os dois países.
Os Estados Unidos tentam limitar o acesso chinês a chips avançados e a tecnologias consideradas estratégicas para o desenvolvimento de inteligência artificial. Pequim, por sua vez, busca reduzir essas restrições e ampliar sua capacidade de desenvolver tecnologia própria.
Uma das propostas em discussão é a criação de um canal direto entre os dois países para comunicação sobre incidentes graves envolvendo inteligência artificial. A medida teria como objetivo evitar que problemas relacionados ao uso da tecnologia provoquem uma escalada entre Washington e Pequim.
Ao mesmo tempo, as restrições americanas sobre tecnologias avançadas continuam sendo um dos principais pontos de atrito.
A disputa interessa ao restante do mundo porque chips, equipamentos de computação e sistemas de inteligência artificial estão espalhados por cadeias globais de produção. Mudanças nas regras de exportação podem afetar fabricantes, investimentos e fornecedores de tecnologia em outros países.
Boeing, serviços e outros negócios
A agenda econômica também inclui acordos empresariais.
A China se comprometeu a avançar na compra de 200 aeronaves comerciais da Boeing produzidas nos Estados Unidos. Parte desse compromisso começou a avançar, mas a execução do acordo ainda é acompanhada pelos dois governos.
Também estão em discussão serviços financeiros, investimentos e mecanismos para facilitar a relação comercial entre empresas dos dois países.
São temas que mostram que a negociação vai além das tarifas. O objetivo é estabelecer regras para diferentes áreas da relação econômica enquanto os dois países tentam evitar uma nova escalada comercial.
Por que o encontro acontece agora?
A reunião ocorre durante a visita de Estado de Xi aos Estados Unidos, sua primeira ao país desde 2015. O líder chinês também está nos EUA no contexto da agenda da Assembleia Geral da ONU.
Para Roberto Uebel, o momento da visita está mais relacionado à presença de Xi nos Estados Unidos por causa da agenda internacional do que a um cálculo específico ligado às eleições americanas, previstas para daqui a cerca de um mês e meio.
Na avaliação do professor, o encontro também faz parte de uma tentativa de Trump de retomar uma estratégia de “minilateralismo”, baseada na construção de acordos e arranjos bilaterais entre países, em contraste com negociações mais amplas em organismos multilaterais.
O que está em jogo para o Brasil
Para o Brasil, os principais efeitos passam por dois mercados diretamente ligados à negociação: soja e terras raras.
Se a China ampliar as compras de produtos agrícolas dos Estados Unidos, os exportadores brasileiros passam a disputar uma fatia maior de um mercado que já é central para o agronegócio do país.
Ao mesmo tempo, a tentativa americana de reduzir a dependência de minerais chineses pode aumentar o interesse internacional por fornecedores alternativos, entre eles o Brasil.